A Escada do Pai Nosso

Mateus 6: 9-13.

Spurgeon disse ter encontrado num livro de palestras para jovens, cujo título nem autor ele cita, um esboço de sermão sobre o Pai Nosso que o comoveu com a emoção de quem contempla uma jóia perfeita (Sermões de Spurgeon sobre as Grandes Orações da Bíblia, Pão Diário: Curitiba, 2019, p. 161). Imaginem o que eu, tão longe da investidura desse experimentado servo de Deus, sentí ao ler esse curto esboço! Nele não há mais que uma amostragem dos tópicos principais. Tampouco Spurgeon desenvolve um sermão baseado nesse esboço. Mas me senti inspirado a tentar  dilatar esses argumentos, à luz do texto do Pai Nosso, fazendo uso desses tópicos originais e assim compartilhar aqui numa mensagem que estou certo ter   sido o Espírito de Deus que colocou em meu coração.

O pensamento do autor original, incógnito, definiu através da oração do Senhor, as características daquele que ora. E sobre essas características, Spurgeon entendeu que o Pai Nosso se apresenta como uma escada de acesso a Deus Pai, pela oração, que podemos percorrer numa direção descendente, começando pelo degrau mais elevado, e descendo até o último, que toca o chão. Eu pensei em convidar você a ir comigo, acompanhando o pensamento do Senhor, na posição inversa: de baixo para cima, ou seja, desde o primeiro degrau, o do rés do chão.

Na verdade, numa visão geral, percebe-se que o Senhor Jesus nos posiciona no degrau mais elevado, e nos leva a ir descendo a escada, conforme oramos, de maneira que a um só tempo nos apercebemos da posição que ocupamos e daquelas que nos constituem, e como de fato somos diante de Deus, de forma que a mais elevada não anula as anteriores.

Como esta é a oração conhecida de cor por todo bom cristão de qualquer denominação, de católicos a toda ordem de protestantes, convido você a repassá-la comigo agora.

Assim oramos:

Como o filho que tem acesso ao Pai;
Como o súdito dentro desse filho com acesso ao Rei;
Como o servo que constitui esse súdito, com acesso ao Senhor; Como o mendigo que esse servo é, diante do seu Provedor;
Como o pecador penitente que está nesse mendigo, diante de seu Redentor;
Como o pecador fraco e perecível, decaído, diante do seu Auxiliador;e como a criatura esvaziada de tudo, que se apequena diante do imenso poder do Deus Criador, destituída da glória dEle, a qual contempla  ao longe.

Essa caminhada descendente pode ser feita nesta oração, para lembrar-nos que sempre podemos subir por essa escada, a cada vez que nos sentimos junto ao último degrau. E como o número não poderia ser outro, temos na oração do Pai Nosso, sete degraus pelos quais nos chegamos a Deus. Vamos subi-los, um a um:

1- O primeiro degrau é o da criatura destituída da glória de Deus, que se vê dela vazia, mas reconhece que Ele tem poder e um reino. Nessa condição, dizemos: “Porque teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre, amém”. Começamos pelo amém o primeiro degrau. “Assim seja”, como quem diz: “aceito o que dizes a meu respeito. Pequei, e estou destituído da Tua glória, longe do Teu reino e reinado” (Romanos 3:23). E então toco neste primeiro degrau, como o ladrão penitente ao lado de Jesus, na cruz. A primeira coisa que ele fez foi reconhecer que Jesus tinha um reino, e pede que nesse reino Ele se lembre dele que ali morria. Assim começamos nós.

Em seguida, podemos galgar o segundo degrau:

2- Nele se encontra o pecador frágil diante de seus pecados e tentações. Aqui começamos a nos ver aos olhos de Deus: como pecadores decaídos, frágeis, sob tentações, sem poder pessoal algum, altamente perecíveis e fracos, que suplicam: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. É um começo muito bom, porque significa não apenas se ver   como pecador, mas como aquele que necessita do poder de Deus para sair dessa condição. Que sabe não poder se resolver sozinho. É a primeira abertura para percepção da oferta da graça de Deus.

3- Agora, podemos ascender ao terceiro degrau, que é o degrau do pecador arrependido e penitente, que confessa: “Perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores”. Encaramos o pecado, como dívida contraída contra a santidade de Deus. Este degrau é decisivo. Ou me reconheço pecador, confesso, busco perdão para avançar e me igualo a todos os outros como tão pecadores quanto eu, ou não avanço mais, e só me resta descer ao chão para começar tudo de novo. Porque  este degrau tem uma condicional: confissão, reconhecimento pessoal de pecado e compromisso de conceder perdão na mesma medida em que busco ser perdoado. Mas vale lembrar que podemos e até devemos voltar  ao terceiro degrau, sempre.

4- Nosso coração assumiu isso, de fato? Não foi verbalização vazia, sem coração junto, sem verdade? Então posso avançar, e agora o quarto degrau, o meio da escada, me eleva à posição de pedinte, ao reconhecimento de um estado de penúria, mendicância, em que reconheço que não posso e não sou eu nem minha força que pode prover a mim mesmo, mas Ele é a única fonte do meu pão, do que pode me prover a vida e ainda alimentar a alma, então eu peço: “O pão nosso, de cada dia, dá- nos hoje”. E esta forma de pedir: “dá-nos hoje”, ela fala de dependência diária, de nossa insuficiência contínua. Mas como Ele ouve? Ele vê que nossa alma precisa do pão do céu, Jesus, que disse: “Eu Sou o pão vivo que desceu do céu”, e também : “Quem comer a minha carne, por mim viverá”. E então Deus nos alimenta com Jesus, Seu Filho. Até o meio da escada, nada temos a Nada em nós.

5- A partir daqui, providos do pão, começamos a ter participação, a querer participar da vida de Deus e com Deus, e então galgamos o quinto degrau, e pedimos: “Seja feita a Tua vontade, assim na terra, como no céu”. Que traduz uma entrega muito significativa: “Quero ser Teu servo, quero Te servir, fazer Tua vontade”. Olhe onde já chegamos! Aleluia! Mas antes nos alimentamos de Jesus. Por isso foi possível chegar

6- E nossos olhos começam a se abrir, e então temos visão aproximada de Sua realeza e Seu Reino, porque podemos pisar no sexto degrau e dizer: “Venha o Teu Reino”. É a visão de súdito, daquele que por ser servo, aprendeu a estar sujeito e a estar comprometido, que o Vê como o Rei, e que deseja envolver-se na manifestação desse Reino. Aqui, já estamos rendidos, aproximados, porque estamos no penúltimo degrau, antes do topo da aproximação. Aqui estamos nos oferecendo, além de servos, a súditos, sujeitos, adjuntos. Viemos até aqui como servos. Mas também ouvimos Jesus nos dizer em João 15: 15 – “Já não os chamarei servos, e sim amigos”. De fato, amigos de Jesus, porque, por conta dEle, que é o pão de Deus do qual já nos alimentamos, adquirimos participação em Sua E então Deus nos alça ao sétimo e mais elevado degrau, porque nos constitui filhos que então podem com liberdade invocá-Lo como Pai, dizendo: “Pai Nosso”. 

7-O DEGRAU DE FILHO

É o degrau do filho, que quando nEle chega, sabe que tem em Deus seu Pai Celeste, o Pai que está nos céus, mas não afastado, não distante, tanto  que pode ser invocado, pois pode ouvir, e o filho

O invoca: Meu Abba!”, Pai. O adora: “Meu Abba!”, Pai.
E o anseia: “Meu Abba!”, Pai que estás nos céus, onde poderei chegar.”
E o filho entende que quando se aproxima desse Deus Pai em oração, desloca-se dos baixios da vida, da terra, e adentra à atmosfera do céu, ascende, se eleva, se achega, e é recebido.

O Evangelho de João nos diz o meio pelo qual fomos feitos filhos de Deus. E é na condição de filhos que começamos a orar: “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome.” Importante observar que parte de nós o nos oferecermos como servos e súditos, mas ser feito filho, é ação divina, parte dEle para nós (João 1:12). Esta também pode ser a razão por Jesus ter começado de cima para baixo.

A primeira marca de um filho, é herdar o nome de seu pai, e se sabercomprometido com ele. No sétimo degrau sabemos que somos filhos de um Deus que é santo, por isso está nos céus, e assim nos comprometemos a honrar a santidade de Seu nome, pelo qual passamos a ser conhecidos:  eu e você, temos o nome de Deus por sobrenome, por causa da obra de Cristo Jesus na cruz do Calvário.

E então desfrutamos as bênçãos dessa filiação.

O que aprendemos na oração do Senhor é que esse filho em que Ele nos tornou, a um só tempo é filho, é súdito, é servo, é um mendigo faminto de pão, que nunca está saciado, mas tem contínua fome de Deus e de Sua Palavra. Também é um pecador arrependido, é um pecador fraco e decaído, é uma criatura chamada à existência pelo Deus que a sonhou desde os dias da eternidade. Louvado seja Seu Santo e bendito Nome!