Limpo ou Sujo

Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.”- Efésios 4:29.

Às vezes o Evangelho de Jesus nos traz advertências que parecem “descer atravessado”, porque calca algo em nossa visão e comportamento na vida não condizente com o padrão e natureza próprios a quem nasceu de novo e que, portanto, tem o Espírito Santo de Deus habitando em seu interior. Via de regra essas situações se tornam embaraçosas quando tais advertências são tomadas como simples recomendação ou conselho. Do tipo daquelas máximas que fazemos bem em atender, mas que podemos desprezar ou suspender conforme nos for conveniente, sem qualquer prejuízo. Mas não funciona assim, num terreno sagrado onde foi dito que “por nossas palavras seremos julgados e por elas condenados”.

Esta questão de palavras, do que sai pela nossa boca, é levada muito a sério no Reino de Deus. É tida, a questão, no nível de confissão, de forma que somos por diversas vezes advertidos, desde os livros de sabedoria do Velho Testamento, a não precipitarmos palavras, nem gritarias, nem maldizer.

O presente texto, Efésios 4:29, pode servir para denúncia e condenação de muitos crentes hoje. A forma negligente, displicente, indecorosa ou ociosa de falar, compromete:

Moralmente, porque no terreno da psicanálise a linguagem chula denuncia caráter, e é lida como “portar fezes na boca”. “Coprolalia”. Minimamente repulsivo.

Espiritualmente, porque o texto de Efésios emprega um termo original, traduzido por torpe, na semântica, que significa “feder a peixe podre”.

Também espiritualmente, porque o mesmo texto nos proíbe, tacitamente, como cristãos, de fazer uso desse tipo de linguagem, para em seu lugar, só abrirmos a boca para dizer o que deve “conceder graça aos que ouvem”.

Ainda espiritualmente, porque na economia de Deus, o homem dará conta (prestará conta) a Ele de toda a palavra ociosa ou inútil, que disser. O texto é mais amplo e explícito: “O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado.” – Mateus 12:35-37.

Se isto tudo não bastasse quanto ao fato de que somos vistos e tidos como um povo de confissão, conhecido pela palavra que confessa e pela legitimidade do que fala (“seja o vosso falar sim, sim ou não, não; porque o que passa disso é de procedência maligna”), Jesus deixa claro que nosso falar é prova dos conteúdos que nutrimos dentro de nós, quando afirmou: “…a boca fala do que está cheio o coração” – Mateus 12:34.

E quanto a nos associarmos aos que usam de chocarrices e palavras vis, injuriosas e indecorosas, somos devidamente advertidos: “As más conversações corrompem os bons costumes” – I Coríntios 15:33. Pessoalmente, aprendi a prezar e me deixar sensibilizar pelo que me fazem ouvir, de maneira que às vezes opto por fazer profilaxia auditiva, para ficar em paz com minha edificação espiritual. Quando não dá para me servir de filtros “auditivos”, prefiro evitar o som e quem o articula indevidamente.

Bom seria se os crentes desta geração cuidassem em ter o Espirito Santo de Deus também em suas línguas, porque uma fonte não pode dar água doce ou amarga ao mesmo tempo.

Glorificação Sem Mito

Dias depois de dizer essas coisas, Jesus tomou a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago. Surgiram dois homens que começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. Apareceram em glorioso esplendor e falavam sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam dominados pelo sono; acordando subitamente, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. Quando estes iam se retirando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. (Ele não sabia o que estava dizendo.) Enquanto ele estava falando, uma nuvem apareceu e os envolveu, e eles ficaram com medo ao entrarem na nuvem. Dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido; ouçam-no!” Tendo-se ouvido a voz, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram isto somente para si; naqueles dias, não contaram a ninguém o que tinham visto.” Lucas 9:28-36.

Este relato vem descrito nos sinóticos, mas Lucas nos traz detalhes preciosos, como ao dizer que Moisés e Elias apareceram em glorioso esplendor e que falavam sobre a partida de Jesus a se cumprir em Jerusalém. Os três relatos concordam que essa transfiguração de Jesus ocorreu num monte, e que Jesus havia ido para ali somente na companhia de três de Seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Mateus registra que os três discípulos dormiram enquanto Jesus orava, e foram acordados pelo esplendor do fenômeno. Viram Jesus na companhia dos  dois célebres personagens do Velho Testamento e ouviram a voz que ecoou do céu, enquanto todos foram envoltos em nuvem.

Nossa reflexão corre sobre o discurso do Pedro estupefato com tamanha maravilha: “Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. E ainda a nota posta por Lucas: “Ele não sabia o que estava dizendo”.

Pedro é pareado por grande parcela dos adoradores de Deus na Igreja de nossos dias. Reagiu por movido pela emoção, pelo impacto do espetáculo visual, perdendo o senso racional da proposta do milagre.

Quais os possíveis propósitos daquele milagre? No que dizia respeito ao Senhor Jesus, a comunicação das coisas por acontecer com Ele em Jerusalém. Fica para fora de nosso alcance justificar as necessidades disto. Mas não deixa de ser emblemático saber que o primeiro profeta, Moisés, é ladeado pelo profeta por excelência, tipológico, Elias, para serem os portadores ao Messias de coisas concernentes à Sua partida, considerando-se todas as implicações do processo como ela se daria. Mais emblemático porque Jesus estava assessorado naquele momento pelo espírito da Profecia figurado nas pessoas de seus mais célebres representantes. E mais: aquele momento descortinava para a igreja minimamente representada pelos três discípulos, o fato da obra e morte de Cristo ser e ter o testemunho da palavra profética desde os primórdios anunciada: Ele iria cumprir em Jerusalém, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Mas no que tange ao propósito divino, também Pedro não entendeu que a Voz divina que irrompeu na cena, declarava à igreja a supremacia do Filho de Deus sobre a voz da Lei, representada por Moisés, e sobre a autoridade profética representada por Elias. Porque sobressai o fato do Pai ter dito em meio a tudo: “Ouçam-No!” Por que ordenar que Ele fosse ouvido? Ele vinha sendo  ouvido desde as primeiras articulações: “Sigam-me”, “Venham após Mim”. Mas o significado último da voz divina é, minimamente: “ouçam-no para além da Lei e  dos Profetas. Ouçam-No, daqui em diante. Ouçam, porque agora minha voz se traduz nEle, cumprindo a Lei e os profetas”.

Pedro também não entendeu que a proposta da transfiguração não visava a eles três, nem pretendia apresentar um espetáculo de culto a ser contemplado. Não entendeu que a manifestação era um momento singular, proclamador, não meramente pragmático; mas cumpria uma missão de alcance universal e  perpétuo, não somente imediato e ocasional. Os meios não eram significativos por si sós, nem os personagens contavam com ou além de Jesus. Eles desaparecem, tudo volta ao normal, tal como estava antes que ali subissem, e restou Jesus apenas, em meio a tudo aquilo.

Porque Pedro não compreendeu que todo o cenário e eventos corriam em torno  de Jesus e só em função dEle, propôs reter consigo e para eles, aquele momento de glória. Não se apercebeu de que o Cristo cheio daquela glória instantaneamente deslumbrante, era o mesmo visto ali na humildade de sua humanidade encarnada, tão gente quanto eles eram gente. E não entendeu ainda que não cabia à Igreja, por eles três representada, pretender fazer nichos dessa glória instantânea, com a pretensão de retê-la e poder usufrui-la sob  seus  critérios. Pedro não se deu conta de que sua proposta sugeria transformar a glória em mito, acondicioná-la num ambiente restrito, para onde todos que pretendessem dela usufruir, teriam de ir, como numa romaria. Contrariando tudo isso, Jesus não lhe dá qualquer resposta, e desce do monte da mesma forma como para lá subiu. Saiu dentre o povo até aquele espaço e momento, e retorna para o meio do povo, de igual forma. Era o mesmo antes, tanto quanto depois.

Quando copiamos Pedro, mitificamos o mistério da fé, e o culto. Queremos momentos de glória no seguir a Jesus, e procuramos fazer com que a glória se manifeste com evidências, deslumbres e encantamentos. “Enfeitamos” o Cristo de Deus com aparatos nossos, segundo nossos critérios e dogmas de culto, e dizemos ao povo que venha vivenciar essa experiência de glória em nossas tendas, porque presumimos poder e saber reter a glória em tendas para que ela se evidencie em dias, horas e locais sobre os quais decidimos ter o poder de fazer acontecer. Porque no fim de tudo, Cristo, a única Palavra, e somente como sendo  a Palavra, é simples demais para servir de chamariz e para ser adorado.

Estas são as deploráveis cópias de Pedro feitas em muitos de nossos arraiais cristãos dentro desta geração. Mas a glória do Filho de Deus está oculta naquilo que Ele é: a Palavra viva. Cada vez que ela é proclamada, Deus fala desde o céu, e a cada vez que fala Ele vai conduzir nossa atenção e interesse para a Pessoa do Seu Filho, simples em sua encarnação pela qual proclama redenção por meio do Seu sangue, que só podia ser vertido em sua humanidade real como a da igreja que marcha na terra. Quando a igreja “desce do monte” para os arraiais da vida, ela encarna seu Cristo e Senhor, tão gente e tão natural como o povo por quem se deu. Sem brilhos, sem impactos, sem fenômenos ou espetáculos.

A glória que resplandece nos aguarda no céu. Aqui, a Igreja é humana e percebida em sua simplicidade, tal como o Cristo que com ela do monte desceu.

Jamais Despreze

“Se Timóteo for, tomem providências para que ele não tenha nada que temer enquanto estiver com vocês, pois ele trabalha na obra do Senhor, assim como eu. Portanto, ninguém o despreze. Ajudem-no a prosseguir viagem em paz, para que ele possa voltar a mim. Eu o estou esperando com os irmãos.”- 1 Coríntios 16:10-11.

Havia a possibilidade de Timóteo, o jovem discípulo de Paulo, ir ao seu encontro passando por Corinto. Com toda certeza, ao chegar à cidade se deteria entre os irmãos, para descansar e prosseguir a jornada; para ter comunhão e com certeza se aprovisionar de recursos, ofertas dos irmãos para levar ao apóstolo. Isto por certo era esperado. Basta ver o verso 17 deste mesmo capítulo.

O que se destaca para mim é a ênfase do apóstolo aos coríntios quanto a receber Timóteo, numa advertência significativa: “ninguém o despreze”. Ao que parece, talvez por conta de sua juventude, Timóteo fosse propenso a ser desprezado, ou sofrer desprezo mesmo da parte dos crentes entre os quais militava, porque numa carta de orientação do apóstolo para ele, Paulo expressou um desejo, um voto, que soou como uma oração: “ninguém despreze a tua mocidade” (I Timóteo 4:12).

Fico pensando quão doloroso deveria ser para Timóteo a possibilidade de experimentar desprezo, mesmo no meio da Igreja de Cristo.

É meu parecer que o desprezo é o que de mais vil pode acontecer a um ser humano. Ele traz em seu bojo de dor e tristeza a carga do esquecimento, do se sentir rejeitado, apequenado, sem valor. O conceito desprezível carrega num significado que é um misto de nojo e não aceitação. É pior que o ódio, porque no ódio existe um objeto, uma presença e com significado. No desprezo o objeto deixa de ser. É como uma inexistência.

O desprezo ou o ser desprezado cai sobre sua vítima com o peso da menos valia, do ser tido por nada, ficar esquecido, à margem.

Por mais cruel que pareça, ser desprezado ou sentir-se desprezado é experiência vivenciada por muita gente em várias circunstâncias da vida, às vezes até mesmo dentro de seu lar. Lembro de ter ido visitar um idoso enfermo num lar de cristãos e encontrá-lo caído ao lado de sua cama, coberto por picadas de mosquitos, no escuro do quarto; e quando questionei os familiares, me responderam: “Já cansamos de sempre colocá-lo de volta na cama. Ele cai o dia inteiro”. Eu sabia que aquele pobre homem, antes do AVC que o vitimou, havia sido escorraçado pelos familiares por ter sido descoberto como adúltero. Uma tristeza profunda me invadiu naquele dia.

Quando adolescente, costumava ir aos sábados visitar idosos num lar de acolhimento que funcionava na rua em que residia o pastor de minha igreja. Ali chegávamos e cantávamos para os idosos, orávamos, ministrávamos a Palavra e depois tirávamos um tempo para conversar com os que estavam lúcidos. Duas situações me marcaram muito: o fato dos que haviam perdido a lucidez nunca mais terem sido visitados pelos familiares que ali os colocaram, e a história de um deles, lúcido, de ascendência árabe, que nunca mais vira a filha, a respeito de quem sempre falava conosco, saudoso, mas mantendo a esperança de que mais dia menos dia ela iria chegar. Eu saía dali com a dorida sensação de que aquele era um ambiente de vidas desprezadas, sem nunca terem sido desprezíveis.

E este é o nosso ponto: a diferença entre ser desprezível e desprezado. O desprezível é apodo próprio àqueles que são caracterizados por uma personalidade sórdida, caráter maligno e nefando. O desprezado é passivo, é vítima geralmente indefesa da indiferença de desprezadores. Mas Deus vigia sobre os desprezadores: “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei;… – Atos 13:41 ARC.

Em contrapartida, Ele Se volta gracioso a favor dos que são desprezados, rechaçados, diminuídos pelos soberbos, postos à margem da assistência, do cuidado e da valoração. E então a estes diz Sua Palavra: “…a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” – Salmos 51:17 ARC.

É ainda dEle que ouvimos o grande superlativo de oferta de amor, sobrepondo-se ao amor materno, quando fala da possível mãe abandonadora capaz de se esquecer do próprio filho: “Pode uma mulher esquecer-se tanto do filho que cria, que se não compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas, ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, me não esquecerei de ti.”- Isaías 49:15 ARC.

No coração amoroso de Deus há agasalho e acolhimento, porque Ele nos pretende junto a Si. Ele é o Deus cuja Palavra afirma: “Porque o Senhor não rejeitará para sempre”- Lamentações 3:31.

O antídoto contra o desprezo está numa atitude simples, que não custa nada: atenção. E atenção é atributo de pessoas educadas. Ainda mais quando cristãs. Jamais despreze. E ore pelos que têm sido desprezados em filas de busca de provimento e socorro. E no trato interpessoal do dia a dia, fique atento; ofereça atenção; e assim cada um de nós, num gesto tão simples, vai alçar vôo sobre o abismo que separa o empático do desprezador.

O Mistério da Tijela

Chamo sua atenção no texto a seguir para um ponto que despertou minha curiosidade: o texto de I Reis 19: 5 e 6, que registra a misteriosa história de uma visitação angélica, feita ao profeta Elias no deserto do sul da Palestina de seus dias – “Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”. Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.”

Nunca me prestei a especular sobre textos bíblicos e menos ainda a procurar resolver enigmas ou pretender respostas com as quais a Palavra de Deus nunca se ocupou. Mas, estou apenas espicaçado na minha curiosidade, se é que você pretende acompanhar-me nela. Explico:

Elias estava num lugar deserto, disposto a morrer. Estava em plena crise de desistência da vida. Não digo que ele pretendeu se entregar à inanição, mas fica óbvio que esta seria sua sorte inevitável, por estar num lugar deserto, sem fonte d’àgua e sem pão. É quando surge um anjo que o desperta do seu sono de esgotamento e o faz comer pão assado sobre brasas e beber água de uma jarra. Não era miragem nem delírio. Mas uma situação real que se repete. Elias come, bebe e torna a deitar-se para dormir. O anjo o desperta de novo e o estimula a comer outra vez, advertindo que ele teria um longo caminho de retorno a percorrer. Só aqui já somos surpreendidos pelo incomum do milagre: pão sobre brasas. Não sei quantos pães eram. Menos ainda de que tipo, mas o texto nos informa que Elias tornou a comer e com a força daquela comida, caminhou de volta 40 dias. A quantidade aqui não é o que conta. Nem o texto nos diz que ele passou 40 dias alimentando-se do mesmo pão, o que manteria ainda a natureza do milagre. Mas o milagre se agiganta para mostrar que o pão, uma vez comido, o sustentou por 40 dias.

Acredito ser possível ao nosso entendimento aceitar pela fé que um pão produzido por anjo tenha tamanha eficácia. E também que um anjo produza fogo para assar o pão que fez. Mas surge o enigma do jarro. De onde ele veio? Seria de fabricação humana? E se o fosse, como o anjo o obteve? De quem o “comprou” ou a quem pediu? Produziu um jarro num passe de mágica como Mandrake?

Não temos resposta. Pode parecer a você infantil minha inquirição, mas ela é importante para mim. Ela me faz pensar que a jarra veio do mesmo lugar de onde o anjo trouxe o “super” pão. Ela já existia nesse espaço, habitat do anjo; lugar este que o apóstolo Paulo chama de “regiões celestiais”, onde há artefatos físicos e sólidos tanto quanto os daqui. Um mesmo lugar a respeito do qual Jesus disse que ali beberá conosco do fruto da vide. As taças já estão lá. Jarras e taças. Sólidas e reais.

O mistério da jarra me espicaça a expectativa do céu, ao qual Cristo Se referiu como “a casa do Pai, lugar de muitas moradas”.

Não só. A jarra do anjo, tanto quanto o pão e a água naquele deserto, providos para que o homem de Deus consumasse sua missão na terra, me fazem pensar que servimos ao mesmo Deus, a quem sempre tudo é possível, em meio aos improváveis, para criar o novo e o surpreendente em nossas vidas, até que cumpramos cabalmente Seu propósito em nossa jornada.

Admirados

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!”- Salmos 8:1.

“Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.”- Salmos 19:1.

“E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.”- Isaías 6:3.

“Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

E quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles! – Salmos 139:14, 17.

“Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!”- Lucas 2:14.

O que estes textos têm em comum é a interjeição de um coração admirado e surpreendido por prestar atenção na glória de Deus vista no produto de Sua obra criadora. Daví, os serafins na visão de Isaías e os anjos da anunciação do primeiro natal, fazem eco entre si no coro de interjeições admiradas. Com abundância as palavras “glória”, “admirável” e “maravilhoso” são empregadas para expressar o que sente a alma alagada de beleza.

O que eles têm para nos ensinar desde seus ambientes escolhidos para a contemplação, (o céu aberto de uma escura noite, um templo de serviço espiritual, ou as campinas de uma noite fria em Belém), é que parar, deter-se para perceber, sentir, deixar-se inebriar; impõe-se contra a corrida do cotidiano incréu e vazio que nos leva à indiferença quanto ao belo e majestoso, impregnado das marcas do poder criador do Deus Eterno. No entanto, essa mesma indiferença sofre suspensão naqueles que não se apercebem e reputam por lugar comum aquilo que o homem não fez, quando detêm-se admirados ante os artefatos descartáveis do gênio humano: carros, grifes estéticas, robótica e que tais. É reedição literal de Romanos 1:25 – “pois mudaram a verdade de Deus em mentira e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador…” E quantos, dentre os que foram preenchidos com o Espírito da glória para adorarem em Espírito e em verdade, são achados nessa contramão do direito divino!

Adoradores são os que admiram o Criador a partir das coisas criadas. Rendem-se diante de belezas que o gênio humano não pode produzir: dos matizes ordenados de uma flor, aos olhos sorridentes de um neonato. De um vale profundo em direção ao seio da terra, ao pináculo dos cumes montanhosos que parecem aplaudir altaneiros a glória dAquele que habita nas Alturas. Do som de águas que fluem céleres, aos timbres variados de pássaros ocultos entre folhas. Na surpresa do exercício da misericórdia entre os homens aos seus pares.

E tudo isso permeado ainda pelo invólucro de uma natureza decaída, que gemendo, aguarda o dia da manifestação de sua glória, para o que foi criada.

E quando lemos que toda essa glória criada, disponível para ser contemplada e inspirar adoração, foi feita para nos embelezar a vida e dentro de nós suscitar  nosso melhor e o mais elevado dentre os nossos sentimentos!…

Eu e você, criados tanto quanto tudo mais, fomos dotados de capacidade de percepção, de sensibilidade cognitiva para ver, sentir e admirar, e então render adoração, agradecidos.

Deixe seu cântico de adoração rendida e grata, ao amanhecer. Admire o brilho da manhã ensolarada. Divirta-se com o som e a dança das gotas de chuva. Aspire o aroma da brisa da tarde e diga: “Ó, Senhor, Senhor nosso! Quão admirável é o Teu Nome na minha vida!” Pois Ele o fez para você também, como co-herdeiro pela fé, de Seu Santo Filho Jesus.

Ouvidos Cavados

Salmo 40

Nós vamos dividir este salmo de Daví em três partes, não simétricas, mas de acordo com a significação de seus resultados em torno de um eixo revelacional que podemos ver no versículo 6: “Sacrifício e oferta não pediste, mas abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não exigiste.” – Salmos 40:6.

  1. A primeira parte compreende os vv 1-5, e eu dou a ela como título: O Adorador
  2. A segunda parte compreende os versos 7- 11, e a ela dou como título: O Adorador
  3. A terceira parte compreende os versos 12-17 e dou a ela o título: O Adorador Responsável ou Comprometido (Com a realidade da vida e a santidade de Deus).

Cada uma delas é decorrente do que o verso 6 informa. Qualquer de nós prefere ser achado apenas na primeira parte, mas isto não traduz o resultado de um trabalho divino que o verso 6 aponta, e nem nos capacita a viver na dimensão do que as duas outras partes revelam e que é a razão do processo divino anunciado no verso 6. Então comecemos por ele, que é o eixo em torno do qual tudo gira.

Para um confessor criado e doutrinado num sistema religioso onde toda e  qualquer tentativa de proximidade a Deus tinha de passar imprescindivelmente pelo ritual de sacrifício de sangue ou sacrifício pacífico, holocaustos e semelhantes, como era o caso dos judeus, entre os quais o salmista, a descoberta de que Deus abre mão de tais exigências para uma aproximação livre, onde o ofertante podia levar a própria vida como um sacrifício vivo e racional, só poderia ocorrer debaixo de ação divina incomum. Esta abertura teria de proceder do próprio Deus. Nós a conhecemos pelo nome de “graça” desde a Cruz de Cristo. O salmista a experimentou e traduziu isto para nós na expressão: “abriste os meus ouvidos”. O sentido original é muito intenso, significando antes: “cavaste ouvidos em mim”.

Há um sentido metafórico na expressão, muito significativo. Aponta na direção de que Deus tomou a Seu cargo capacitá-lo a ouvir além da mera letra, ouvir com ouvidos internos, capazes de discernir a voz divina que comunica Sua vontade  real para além dos significativos que as palavras traduzem.

O primeiro alcance foi descobrir que Deus está além de ofertas rituais, e mais, ou seja, segundo e terceiro alcances, respectivamente: É a mim que Tu queres: “Aqui estou!” e: Conto pessoalmente nos Teus  planos e propósitos: “No rolo do livro  está escrito a meu respeito”. Belo. Concorda com o pensamento visto no salmo 91:11 – “Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos;” e Salmo 56:8 – “Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro?”

A partir deste entendimento de “ouvidos abertos”, audição espiritual, então vem a validade das respostas vistas no corpo do poema, conforme alinhavamos acima. Medite nelas, texto e ouvidos abertos, cavados por Deus. Deixe que Ele lhe fale, além da letra.

Quando A Cegueira Deixa Ver | Atos De Discípulos (21)

“Enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. Chegando em Salamina, proclamaram a palavra de Deus nas sinagogas judaicas. João estava com eles como auxiliar. Viajaram por toda a ilha, até que chegaram a Pafos. Ali encontraram um judeu, chamado Barjesus, que praticava magia e era falso profeta. Ele era assessor do procônsul Sérgio Paulo. O procônsul, sendo homem culto, mandou chamar Barnabé e Saulo, porque queria ouvir a palavra de Deus. Mas Elimas, o mágico (esse é o significado do seu nome), opôs-se a eles e tentava desviar da fé o procônsul. Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse: “Filho do Diabo e inimigo de tudo o que é justo! Você está cheio de toda espécie de engano e maldade. Quando é que vai parar de perverter os retos caminhos do Senhor? Saiba agora que a mão do Senhor está contra você, e você ficará cego e incapaz de ver a luz do sol durante algum tempo”. Imediatamente vieram sobre ele névoa e escuridão, e ele, tateando, procurava quem o guiasse pela mão. O procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, profundamente impressionado com o ensino do Senhor.”
Atos 13:4-12

Um dos mais tradicionais cânticos evangélicos, datado do século XIX é o inglês Amazing Grace (Graça Admirável), em cuja letra um verso afirma: “Eu estava cego, mas agora eu vejo”.

Deixamos Paulo e Barnabé saindo de Antioquia e agora os encontramos em Pafos, acompanhados por João Marcos, que os auxiliava. Nosso texto registra um enfrentamento espiritual cujo desdobramento é notável pelos contrastes que estabelece dentro da maravilhosa saga que envolve a práxis da Revelação na missão da Igreja. Porque sinaliza nesse conflito entre luz e trevas, o primeiro desafio na vida do cristão, a diferença entre ser cego e ter visão, aqui vistos no paradoxo entre cegueira perpetrada pelo diabo e a cegueira produzida por Deus, em caráter punitivo ou transformador. Vamos entender isso, emparelhando os textos de Atos 9, com II Coríntios 4 e este de Atos 13.

Comecemos por II Coríntios 4:4 – “O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.”
A ideia de um entendimento cegado pelo diabo para impedir que a luz do evangelho seja percebida, é lógica para nós no terreno da fé. Evidente que o diabo, o “pai da mentira”, não quer que alguém enxergue a verdade e creia. Logo, uma vez sabedores que o homem natural está cego pelo diabo em seu entendimento, presumimos que Deus inverte o processo para que esse homem enxergue e creia. É o que aponta a letra de “Amazing grace”.

Então lemos em Atos 9 que Saulo de Tarso, perseguidor da Igreja, é barrado na estrada para Damasco por uma visão de Cristo, e se converte. Ato contínuo, é cegado pela mesma luz que lhe destampou os olhos do entendimento que o diabo mantinha cegos. Deus o cegou temporariamente, até que após a imposição das mãos de Ananias, escamas caem-lhe dos olhos e ele volta a ver.

Temos agora nosso texto em apreço mostrando que Elimas é cegado pelo poder de Deus, através da palavra de Paulo. Evidente que a diferença sensível entre as cegueiras mencionadas reside no fato de que o diabo opera a cegueira no entendimento, e Deus, nestes dois relatos, a opera no terreno físico. Em Elimas, em caráter punitivo, ferindo-o com juízo. E quanto a Saulo de Tarso?

A mim parece que ocorre com Elimas o cumprimento do juízo previsto em Romanos capítulo 1, onde somos avisados que aos que insistiram em permanecer endurecidos de coração mesmo em face da verdade, Deus os entregou a uma disposição contrária à possibilidade de virem a crer. Isto é afirmado por três vezes (v.24;26 e 28). Aqui o homem que já vinha cego pelo diabo, no seu entendimento, por conta de sua procrastinação, fica impedido por Deus de ter os olhos do entendimento abertos para crer na verdade. A ação divina gerando uma cegueira real em Elimas, serve como convincente ilustração disto, para nós.

Mas a sabedoria de Deus é vista na cegueira temporária feita a Saulo, onde não é operado um juízo, mas ao que parece, a preservação da visão revelacional que fica retida em suas retinas até o encontro com Ananias, como relatado em Atos 9. Dependência, quebra de autonomia, geração de obediência irrestrita à ordem divina, tudo isso ocorre em consequência dessa cegueira temporária. Outro tanto, Ananias se depara com o feroz ex-perseguidor dentro de sua casa, incapacitado, alquebrado, sem inspirar medo ou ameaça alguma. Na alma de Saulo aquela cegueira física operou a necessidade de buscar a luz da revelação de Deus em total dependência do que Deus poderia trazer, longe de sua mente arguta, outrora escrava de uma religiosidade tirana e cruel. Ele teria de enxergar na alma por total e exclusiva ação divina, vazio de seus próprios recursos “visuais”, fortemente engendrados na vida, e até mesmo “aos pés de Gamaliel”. A cegueira pelo poder de Deus, lhe traria a necessidade de receber, tanto quanto visão física, visão espiritual exclusivamente divina, de tal forma que, passados anos, o agora Paulo poderia dizer com autoridade, quanto e de quanto abriu mão, em termos de suas vias “visuais”, para poder enxergar via Cristo, quando disse: “Mas o que para mim era lucro passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte”. Filipenses 3:7-10.

Esta nítida e cristalina visão que o torna fascinado por Cristo e Sua glória, decorre de uma ação profunda do Espírito de Deus em seu coração. E me faz pensar que a cegueira por Deus operada nele no momento de sua conversão a Cristo, fechou-lhe para sempre os olhos para os atraentes e dispersivos brilhos deste mundo, que ficaram ofuscados diante de resplendor maior. Experiência que bem-vinda seria na vida de cada discípulo moderno, se se traduzisse na mesma proporção, em ter olhos ofuscados pela glória do Senhor, insensibilizados para se deixarem fascinar pelas luzes deste mundo tenebroso.

 

Carismas E Caráteres -2 | Atos De Discípulos (20)

Atos 13:2 – “…Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”.

E aqui mais uma vez nos admiramos na constatação dessa leveza com que o Espírito de Deus manifesta-Se dentro da igreja de Antioquia.

Fomos informados que estes homens, Barnabé e Saulo, contavam junto a mais outros como profetas e mestres. Isso parece esclarecer a pronta resposta com que atendem à voz do Espírito que os cita e alude a um chamado que já parecia previamente sabido por todos. Pode ser que soubessem que dois dentre eles seriam escolhidos para uma grande viagem missionária, a primeira de Saulo, e agora ficaram sabendo quais dentre eles seriam. Ou ainda que já soubessem anteriormente tratar-se daqueles dois, não hesitam em prepará-los para partir. Eles haviam ficado um ano inteiro ministrando entre aqueles irmãos a quem tutelaram, e que agora continuariam por si mesmos na orientação da igreja.

Mas penso nessa forma de comunicação divina: O Espírito de Deus poderia ter falado com exclusividade aos dois envolvidos, cabendo a estes darem ciência aos demais quanto ao chamado feito. Mas não. O grupo todo recebe a comunicação diretamente do Espírito de Deus, e a forma como Ele a faz, é surpreendente. É uma ordem, com tom de acordo, orientação. Traduzindo melhor, soa como se o Espírito dissesse: “Eu chamo, vocês concordam e enviam”. Parece falar de mutualidade, parceria.

Não há por que pensarmos em padrão de vocação aqui, como um dogma de chamado missionário. Contudo é inevitável ver que o Espírito Santo estabelece um princípio que torna evidente essa cumplicidade entre o corpo de Cristo e seus membros, a comunidade de discípulos. Seria demais pensar que devemos ver aqui um princípio espiritual operante, lastro do bom êxito de realizações missionárias? Pois o vejo. Vejo como o princípio em que o Espírito de Deus decide, informa Seu propósito e escolha, e deixa a critério da Igreja obedecer com seu envolvimento, participação e preparo (aqui visto na imposição das mãos), tanto quanto a disponibilidade dos escolhidos para atender. Tudo pode ser resumido nesta formulação tão bem colocada por Ele: “Separem-me a esses dois para a obra a que os tenho chamado”. E a consequente imposição de mãos, seguida da ação registrada no verso seguinte: “…e os enviaram”. Parece-me resumir-se num eficaz binômio: Ao Senhor cabe chamar, e à Igreja, reconhecer e enviar.

A formulação “Separem-me, separem para mim” , outro tanto, é forte indicador de que o chamado que Dele vem, faz do escolhido um servo para Ele, com exclusividade.

Vale pontuar: Sua igreja está dentro desse santo parâmetro? O Espírito de Deus nela tem despertado alguma vida para sair por Ele? E ela tem enviado? Quando o Espírito de Deus tem liberdade na igreja, desperta visão missionária, e dá conteúdo a essa visão.

Quando o Sonho é Realidade | Atos de Discípulos (18)

Atos 12:1-18.

Se ouvíssemos a narrativa deste extraordinário milagre por boca do seu protagonista Pedro, e não pela pena de Lucas, penso que ouviríamos algo  próximo ao que segue:

Nós estávamos entristecidos com a prisão e morte de nosso amado irmão Tiago,   a quem Herodes mandou matar à espada como forma de nos intimidar e fazer recuar de nossa missão de fazer discípulos em cumprimento ao que o Mestre determinara. Nos dias da festa que precede a Páscoa, resolvi ir ao templo participar das reuniões festivas, tanto para encorajar os irmãos, quanto para  provar aos nossos líderes religiosos que nos perseguiam, que nós  não deixávamos de ser judeus por seguir ao Senhor. Mas, infelizmente, Herodes viu que o povo judeu o aprovou pela prisão e morte de um de nossos líderes, e resolveu prosseguir com esse plano. Então, de repente, fui surpreendido pelo tumulto que um grupo de soldados provocou, afastando as pessoas enquanto vinha na minha direção. Deram-me ordem de prisão. Consegui sinalar com a mão para que os irmãos que comigo estavam não se manifestassem e de longe eles  me sinalaram também que estariam orando por mim. Apontaram para minha irmã  e para Marcos, meu sobrinho, e entendi que se reuniriam em casa deles em oração.

Com muita grosseria a soldadesca me levou à presença do rei que procurou se assegurar de que eu era quem diziam ser. Confirmei e ele declarou que eu estaria trancado a ferros até cessarem as festividades para me levar a julgamento  público. Eu sabia o que isso significava: o povo ser alvoraçado e ouvido como júri, o que resultaria em inevitável sentença de morte. Mas, isso de imediato me remeteu à memória do julgamento público de nosso Senhor, e meu coração se encheu de alegria e paz, pelo privilégio de seguir Seus passos na morte. E foi com esses sentimentos que me vi algemado a ferros presos a uma parede, que me deixavam muito desconfortável. Estou velho, e as energias não são mais vigorosas, e essas algemas não me deixavam dormir. Dois guardas me ladeavam  e outro tanto não paravam de falar e de me achincalhar, mas acabei vencido por um torpor de cansaço que me fez variar entre dormir e acordar, até que cercado por intenso silêncio, percebi que os soldados e as demais sentinelas adormeceram e de fato, dormiam profundamente.

Pensei ter caído em sono profundo, porque pareceu de repente que o dia amanheceu, mas apenas dentro da cela em que me amarraram; e um homem começou a me fustigar o lado, repetidamente, até que abri os olhos contra a claridade e vi que não se tratava de nenhum dos dois guardas, que continuavam dormindo. Era uma pessoa de paz, de bem, que me disse à meia voz: “Depressa, levante-se!” Mal tive tempo de pensar em como me levantaria sob o peso das algemas desconfortáveis quando elas se desprenderam e caíram de meus  punhos. Fiquei aturdido, pensando comigo: “Estou sonhando, ou tendo  uma  visão, como em Jope? Lá eu também ouvia uma voz!” E de novo ouvi o homem luminoso dizer: “Calce suas sandálias e vista-se!”. E continuou: “Ponha sua capa   e me siga!”. Ele conhecia cada um dos meus pertences! Eu olhei os soldados e eles pareciam longe, em profundo sono. Foi aí que comecei a agir automaticamente, porque não entendia nada daquilo como real, mas como me parecia: uma visão que só afetava a mim. No entanto, o bendito ser andou adiante e eu o segui, e passamos pelo primeiro e pelo segundo guarda externos, que também dormiam. Eu andava agora como que atraído a ele e me deparei com o imenso e pesado portão de ferro que dava para a cidade. De repente o anjo (agora eu entendia que só podia ser um anjo) passou pelo portão que se abriu sozinho para mim. E lá me vi eu, em plena rua, madrugada alta, frio da noite e escuridão. O anjo desapareceu tão fácil quanto surgiu e eu então entendi que nada era visão ou sonho, mas realidade pura e clara: eu estava livre da cadeia e em plena rua da cidade, a alguns quarteirões da casa de Maria, minha irmã.

A primeira coisa que me ocorreu foi: “Parece que o Senhor ainda precisa de mim por aqui”. Ato contínuo, decidi seguir para a casa de Maria, já que não havia ninguém me perseguindo. E cheguei ali. Bati à porta, mas ninguém atendeu. Vi iluminação no interior e ouvi o que me pareceu o som de pessoas orando. No dia seguinte seria a páscoa, e eu lembrei que os irmãos disseram que  estariam orando ali. Prestei mais atenção; encostei o ouvido e ouvi que de fato havia um grupo de pessoas em oração. Oravam por mim! Então comecei a chamá-los, à meia voz: “Irmãos, sou eu! O Senhor me libertou! O Senhor ouviu suas orações!” Porque me cortava o coração ver que choravam por mim, ainda abalados com o martírio de Tiago, por certo entendendo que eu teria a mesma sorte. Como eles não me ouviam, nem me atendiam, resolvi me unir a eles em oração, pelo lado de fora, e ali mesmo, junto à porta, comecei a orar e agradecer. Percebi que alguém se aproximou da porta, interrompi a oração e saudei quem ali chegou. Mas a pessoa se afastou. Minutos depois a porta se abriu, e pelo lado de fora eu vi que na casa havia um grupo grande de irmãos que oravam. Todos ficaram surpresos, aturdidos. Alguém falou pelo grupo: “Pedíamos ao Senhor que enviasse um anjo

para libertar você da cadeia. Quando Rode nos disse que ouviu sua voz à porta, alguém achou que o anjo solicitado a Deus veio até nós, em lugar de ir a você. Mas Rode insistia em dizer que era mesmo você. E aí está! O Senhor seja engrandecido! Como isso aconteceu, Pedro?” Então tive que detalhar o milagre, mas decidi não entrar, caso alguém viesse me procurar e isso poderia comprometer tanta gente. Portanto lhes disse que informassem disso o líder da igreja e demais irmãos, e saí dali depressa, deixando atrás de mim um grupo nada pequeno de irmãos que se regozijavam no Senhor, e encontravam consolo da morte de Tiago no milagre de minha libertação.

A conclusão a que cheguei é que o Senhor que havia encerrado a carreira de Tiago, assim como a de Estêvão, em cujas mortes consentiu, ainda não havia concluído a minha. A mesma igreja que orava por mim, havia orado por Tiago. Essa mesma igreja orou consciente de que podia submeter sua oração à vontade de Deus Pai, tal como Jesus ensinou. E foi isso o que aconteceu.

Infidelidade

Fidelidade é a mais moral de todas as manifestações comportamentais humanas. Requerida em todos os amplos setores de relacionamento interpares e interpartes, desde contratos comerciais a convulações outras de acordos, passando por alianças diplomáticas internacionais, a partidos políticos e agremiações religiosas.

A fidelidade é esperada até mesmo de uma pessoa para consigo própria.

Deus requer fidelidade incontestável para com Ele nas relações humanas que têm em seu centro, Seus princípios. E para com Sua Palavra, não menos. Até o ponto de enviar pelo profeta Habacuque uma mensagem em que disse: “O justo viverá por sua fidelidade”(Hc.2:4, NVI).

Por que a fidelidade é tão requerida? Por que é tão importante? Dentre as dores que os relacionamentos humanos podem vir a produzir, nada fere mais que aquela que a infidelidade causa. Se o amor falta; se falha o exercício da misericórdia; se a paz for quebrada; tudo isso inevitavelmente produzirá dor. Mas para cada uma dessas frustrações há uma remediação eficaz, dificilmente possível no caso da infidelidade, por aquilo que ela quebra e pelo ranço que deixa de um péssimo memorial. Ela quebra promessas, votos, e com isso, frustra a esperança, daí valer a Palavra de Deus advertindo: “Não faça voto de tolo”, para dizer dos votos que não são cumpridos. Como para tudo na vida, também a infidelidade é perdoável, mas embora o perdão anule o mau afeto produzido, nada pode fazer com a memória do fato que o produziu.

A infidelidade quebra a base de sustentabilidade de toda a razão para a confiança. Ela reclama mais que um perdão, um resgate seguido de uma transformação tal  no seu perpetrador, que equivalha a uma reparação onde a nova forma seja tão eloqüente que apague o eco da voz do fato antigo.

Nosso Deus é o exemplo supremo da fidelidade. Daí Sua Palavra comunicar: “Se formos infiéis, Ele permanece fiel. Não pode negar-Se a Si Mesmo”, para dizer que a fidelidade divina, antes de ser um compromisso conosco, é o caráter de Sua própria natureza imutável. E Deus é sempre fiel a Si e à Sua Palavra, daí “Fiel e Justo”. Fiel é o título atribuído a Cristo em Apocalipse. Nosso Deus não altera leis espirituais a favor dos que erram, anulando as consequências da infidelidade deles. Se assim fosse, não teria sido necessário Seu Filho subir à cruz em nosso

lugar para cumprir diante Dele toda a justiça, a nosso favor, recebendo sobre Si a punição divina pela nossa queda. Bastaria um decreto de perdão promulgado desde o céu.

Mas por ser essencialmente moral, a fidelidade não está isenta de sofrer violência, que ocorre sempre quando compromissos são descumpridos, ou quebrados. Seja entre sócios; entre o homem e Deus; entre crentes e ateus; entre ímpios e ímpios; entre cristãos e cristãos.

Infidelidades são costumeiramente cometidas quanto às coisas de Deus, sem que as pessoas se dêem conta delas( a não ser suas vítimas ), porque perdem, via de regra, o sentido de seu valor e impactos, e se acostumam ao seu mal e prática.

Infidelidades muito costumeiras, a gente ouve pela boca de vítimas nos campos missionários. Projetos inteiros, famílias inteiras, missionários individuais, homens ou mulheres, que repentinamente se vêem abandonados no campo, “esquecidos” no muito ou pouco sustento que algum outro cristão assumiu investir em sua vida, que ele ou ela pela fé traduziu como: “É meu Deus me dizendo, avança! Eu pagarei!”

Cada dia que passa fico mais pasmo, triste e por que não dizer, escandalizado, quando ouço o lamento de obreiros que no campo distante, viram-se desamparados por parte de cooperadores que “desapareceram” sem nenhuma nota de explicação (justificativa) e sem aviso prévio. De igrejas a indivíduos.

Esse tipo de infidelidade, além da perda material que gera de imediato, contribui para produzir nas vítimas, insegurança; tristeza; sensação de desvalor e de ser descartável dentro do cômputo geral das responsabilidades de seus cooperadores. E isso produz tristeza e lágrimas.

Será que Deus recompensaria a infidelidade? Não foi dEle a Palavra que disse: “Com a medida que você medir, lhe medirão de novo”? (Lucas 6:38).

Neste término de ano, lembre daqueles com quem talvez você esteja sendo infiel. A infidelidade é o mais vergonhoso pecado que a Igreja pode levar nesta vida. E a partir deste fim de ano, ponha-se atento(a) a seus movimentos na vida. A fidelidade será sempre a nota de destaque que revelará de que natureza você é. E isso vale outro tanto para toda a infidelidade que você nem ninguém poderá justificar diante de si e diante de Deus Seja Fiel!

Notícias de Discipulado | Atos De Discípulos (17)

Atos 11: 19-30.

Eu convido você a fazer a leitura desse texto, que não cabe em nosso espaço aqui.

Ele me parece como um noticiário de TV. Se você o ler sob esta ótica, poderá constatar que parece mesmo o enunciado de manchetes fascinantes que espicaçam os sentidos espirituais. Pense comigo num âncora de telejornal, se fosse possível àquela época, comunicando as notícias nestes termos:

Últimas Notícias do Mundo Religioso:

Há cerca de um ano grande perseguição seguiu-se contra os discípulos de Jesus Cristo em Jerusalém, culminando na morte de Estêvão, diácono da igreja que lá se formou. Por conta da perseguição perpetrada contra eles, bom número fugiu para as cidades de Fenícia, Chipre e Antioquia onde procuraram refúgio. Dentre os refugiados encontravam-se judeus seguidores do Crucificado que começaram a pregar a outros judeus, sua nova fé. Mas havia também entre eles discípulos cipriotas e cirineus que resolveram, por sua vez, ensinar sua fé aos gregos e como resultado, grande número de gregos aderiu à nova doutrina, de tal forma que esta notícia foi levada de volta a Jerusalém, onde ainda se encontravam autoridades anciãs desse Caminho.

As autoridades de Jerusalém enviaram como observador a Antioquia, um de seus líderes, homem afamado por seu testemunho de fé e bondade, conhecido como Barnabé, alcunha que ganhou por ser dado a consolar pessoas, conhecidas ou não.

Barnabé reconheceu que de fato os gregos se tornaram tais como eles, os de Jerusalém, e partiu para Tarso, a fim de trazer como reforço para sua missão de discipular esses novos convertidos, a Paulo, outrora um dos perseguidores desses devotos, que acabou mudando de lado e passou a defender o que antes combatia. Tornou-se líder de destaque entre os seguidores do Nazareno. Agora, decorrido um ano inteiro de intenso trabalho desses dois homens junto aos conversos de Antioquia, vem à luz uma surpreendente informação: todos esses seguidores do Crucificado de Jerusalém passaram a ser conhecidos e apontados como pequenos cristos, ou como se tornou popular entre nós, cristãos. Surpreende ainda mais o fato de saber que tal alcunha depreciativa está sendo fortemente bem recebida pelos discípulos, que a adotam, como se fosse título honorífico, ainda que saibamos que significa ser tido como igual ao condenado por Roma como sedicioso.

Os responsáveis por essa estranha adaptação parecem ser os dois citados líderes, Paulo e Barnabé, que tanto persuadiram os novos seguidores a respeito do caráter de seu líder supremo, que estes decidiram incorporar os atributos Dele, entendendo-se identificados com Ele a ponto de se sentirem novos crucificados fora da cruz. Afirmam que o apelido lhes significa que assumem parecer com Jesus Cristo, o Nazareno, até mesmo na ignomínia de sua morte na cruz. Afirmam, outro tanto, que Ele vive neles, e entendem provar essa máxima por conta da ocorrência de milagres em suas reuniões, semelhantes aos que Lhe eram atribuídos quando Ele vivia na Galileia. Chegou-nos de última hora a informação de que um desses discípulos, tido por profeta, de nome Ágabo, vindo de Jerusalém, anunciou que grande fome se abaterá sobre o povo da Judeia, e para espanto geral de observadores externos, tal mensagem produziu tamanha comoção entre os discípulos de Antioquia, que de imediato se desprenderam de bens e recursos para providenciar remessa de suporte e ajuda aos seus correligionários da Judeia. Este fato prova, terminantemente e para espanto geral, que essa gente assume ser, sem sombra de dúvida e sob todos os riscos, o que se diz a seu respeito: cristãos.

Por Que Orar?

Quando lemos que “ainda a palavra não me chegou à língua e Deus a conhece toda”, junto a: “de longe entendes meus pensamentos”, acrescido do que Deus disse em Isaías “E será que antes que clamem eu ouvirei…” , confirmado por Jesus que afirmou: “O Pai sabe o que vocês necessitam antes que lhe peçam”, a oração parece uma desnecessidade, ou exercício inócuo. Então, resta a pergunta que parece caber bem aqui: Por que orar?

Mas, se assim fosse, estaríamos diante de grave equívoco cometido por Paulo: “Orem sem cessar”, e por Tiago: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo”. Tanto mais, pela segunda e terceira vez teríamos Paulo equivocado, ao dizer: “Que se façam orações e súplicas por todos os homens”, e: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas apresentem a Deus suas petições e súplicas, com ações de graça”. Até o Senhor Jesus estaria em contradição porque O vemos orando junto ao túmulo de Lázaro, e no Getsêmani e em muitos outros relatos em que Ele aparece recluso em oração ao Pai.

A oração é uma confissão racional de dependência a Deus.
A oração é nosso encontro com o sagrado em nosso interior.
A oração é nossa solene consciência de quanto somos frágeis em nossa humanidade.
A oração é nossa oportunidade de investir nossos sentimentos e vontade, no céu onde Deus está.
A oração é nossa maravilhosa caminhada em direção à presença bendita do Deus Santo e Eterno.
A oração é o mais santo momento de adoração de um coração que admira Deus.

Por isso ore. Ore hoje. Continue amanhã, e depois e depois… Não espere necessitar pedir algo, para orar. Pode ser que você ache que de nada precise. Não espere ficar mal, não se sentir bem, para orar. Ore quando se sentir ótimo, melhor, feliz, pois assim você estará apresentando o seu melhor a Deus. E se tudo estiver ruim, de mal a pior, ore também. Ainda mais. Se não der para falar, pode gemer. Se não for possível gemer, apresente seu silêncio. O próprio Espírito de Deus geme em oração a seu favor. E quando você nada puder nem souber dizer, Ele estará dizendo em seu lugar, por você, pois, “…aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.”- Romanos 8:27 .

Força e Coragem

Josué 1:1-18.

“Forte” e “corajoso” são conceitos associados. Nosso texto traz estas palavras como uma recomendação e ao mesmo tempo exigência da parte de Deus e do povo de Israel a Josué, sucessor de Moisés na liderança dos israelitas em direção à Terra Prometida.

Antes de tratar de alguns desdobramentos pertinentes ao texto, gostaria de parar sobre o significado destas palavras dentro dele.

“Forte”, é tradução de um termo hebraico que também pode significar com a mesma propriedade, “ser perseverante”. E “corajoso”, tem sentido semelhante, mas com reforço na ideia de “ser valente”. Um ponto a destacar é que no latim, de onde herdamos nossa língua, corajoso, derivativo de coragem, etimologicamente significa “a ação que vem do coração”, ou agir de acordo com o coração. Ora,    isto abre uma interessante janela para nós, a partir do momento de Josué. Deus o convoca para uma pesada missão, diante da qual até Moisés recuou quarenta anos antes. Deus convoca Josué, cerca-o de promessas; recomenda obediência irrestrita à Sua Palavra, mas requer que seja forte e corajoso para cumprir, como numa explícita condição para o seu bom êxito. Mas aqui temos sabedoria divina: antes de dizer-lhe “tenha o coração nisso”, ou seja, “coragem!”, Deus lhe diz:   “Seja firme, persevere, forte”. Como a dizer: “Seu coração vai agir a partir de sua firmeza”.

Em que Josué teria de ser firme?

Vejamos: primeiramente, em crer nas promessas divinas vistas no verso 5 –

  • “Ninguém resistirá a vc todos os dias de sua vida” – Nós, crentes em Jesus temos um paralelo desta promessa visto em Lucas 10:19.
  • “Como fui com Moisés, serei com você” – A mim isto soa como a linguagem dos salmistas rememorando os feitos de Deus no passado, como a nos lembrar: “Eu, o Senhor, não mudo”.
  • “Estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei”. Dispensa comentários, mas também é inevitável pensar que resume a garantia toda para qualquer enfrentamento, sendo o esteio mesmo da força.

Ora, todos estes movimentos requeridos falam da fé que se apoia em Deus, a fonte de onde a coragem procede.

Depois, em segundo lugar, Josué teria de ser firme em obedecer à Palavra divina, conforme mostram os versos 7-8.

  • Obediência nos moldes de discipulado. “Conforme você tem aprendido”;
  • Fidelidade na observação e  cumprimento do ensino;     “Não se desvie da posição”.
  • Linguagem compatível com a Palavra na qual crê.

Tudo isso seria a garantia e razão de suas ações daí decorrentes, serem feitas pelo coração, ou seja, com coragem.

Onde estamos nós nessa história? Não temos todos, crentes em Jesus, uma missão existencial em direção à nossa conquista e vitória na fé, com todos os enfrentamentos pertinentes? Alguns de nós até em termos explicitamente desafiadores. De que necessitamos? O que Deus requer de nós, e outro tanto aqueles que nos observam como servos de Cristo?: Força e coragem! Sabemos agora o que significam. Agora sabemos como obtê-las, como vivê-las. E também podemos crer que seus frutos nos acompanharão tanto quanto a Josué, conforme o próprio Senhor garantiu: “Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem sucedido”. A garantia que Ele dá é quanto basta: “Não fui eu que lhe ordenei?…não se apavore, nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar” (v.9).

De Anjos e de Homens | Atos de Discípulos (16)

Havia em Cesaréia um homem chamado Cornélio, centurião do regimento conhecido como Italiano. Ele e toda a sua família eram religiosos e tementes a Deus; dava muitas esmolas ao povo e orava continuamente a Deus. Certo dia, por volta das três horas da tarde, ele teve uma visão. Viu claramente um anjo de Deus que se aproximava dele e dizia: “Cornélio!” Atemorizado, Cornélio olhou para ele e perguntou: “Que é, Senhor?” O anjo respondeu: “Suas orações e esmolas subiram como oferta memorial diante de Deus. Agora, mande alguns homens a Jope para trazerem um certo Simão, também conhecido como Pedro, que está hospedado  na casa de Simão, o curtidor de couro, que fica perto do mar”. Depois que o anjo que lhe falou se foi, Cornélio chamou dois dos seus servos e um soldado religioso dentre os seus auxiliares e, contando-lhes tudo o que tinha acontecido, enviou-os  a Jope.” … “Os homens responderam: “Viemos da parte do centurião Cornélio. Ele é um homem justo e temente a Deus, respeitado por todo o povo judeu. Um santo anjo lhe disse que o chamasse à sua casa, para que ele ouça o que você tem para dizer”…“Assim, mandei buscar-te imediatamente, e foi bom que tenhas vindo. Agora estamos todos aqui na presença de Deus, para ouvir tudo que o Senhor te mandou dizer-nos”. – Atos 10:1-8; 22;33.

Acredito que o ponto de maior destaque nesta narrativa reside no fato de um anjo dizer a Cornélio que suas orações estavam diante de Deus como um memorial, e que, portanto, deveria ele procurar por Pedro a fim de ouvir o que ele tinha para dizer-lhe.

Algumas situações impõem-se na forma de questões: Por que orações em memória? Por que o anjo de Deus que trazia o que parecia uma resposta, nada diz a Cornélio acerca das coisas que ele ouviu de Pedro, ou seja, a Pedro foi delegada tal tarefa?

Não pretendo especular. Mas pensar nesses eventos de forma direta, encarando- os tais como se nos são apresentados.

Quanto à primeira questão, o texto nos diz que Cornélio era temente a Deus, ele e toda a sua casa. Conhecedor dos ensinamentos do judaísmo. Interessante  a forma como ele traduz para Pedro a experiência que teve quando da visita do  anjo. O anjo lhe havia dito: “Tuas orações e esmolas subiram como oferta  memorial diante de Deus”, e ele reproduz a fala, dizendo: “Deus ouviu sua oração e lembrou-Se de suas esmolas”. Concordo que não há sensível alteração numa forma ou outra, mas persiste a questão do memorial.

Todos nós, num ou noutro momento temos a sensação de que nossa oração a Deus fica sem resposta, em especial aquela que fazemos investindo na urgência. Nem tudo o que dizemos ou pedimos a Deus está calcado na urgência, mas maioria das vezes, sim. Quando nos parece que a resposta não veio, optamos via de regra por decidir que Deus não ouviu. Esta decisão é responsável maior parte das vezes pela inconstância das orações ou mesmo seu desuso por parte de grande parcela de cristãos.

Algumas situações impõem-se sobre nossa fé neste quesito:

  • Deus nunca está comprometido quanto a nos responder segundo nossa expectativa, mas sempre nos ouve conforme Sua vontade que é boa, agradável e perfeita. Por isso mesmo confiou ao Espírito Santo o interceder por nós, traduzindo nosso clamor (Romanos 8:26);
  • O tempo de Deus quanto à nossa história pessoal e suas circunstâncias, não está comprometido com nosso calendário;
  • Deus jamais deixa de ouvir-nos. Sua Palavra afirma: “Ó, Tu que escutas as orações…” (Salmo 65:2); e mais: Ele Se comprometeu a sempre ouvir – “Estarão atentos os meus ouvidos à oração que se fizer neste ..” (II Crônicas 7:15).

Depois, temos por certo que o memorial que dizia respeito às orações de Cornélio também nos alcança quanto às nossas, porque a resposta divina passa sempre e invariavelmente pelos Seus meios, formas, mecanismos, recursos e veículos. Foi o caso de Cornélio. Não sabemos o teor do que ele pedia, mas na resposta divina podemos depreender que tinha a ver com sua sorte espiritual, e da sua casa, quanto à vida eterna. E é então que pensamos na segunda questão: Por que Pedro e não o anjo mesmo que foi enviado, é quem teve de ir pregar a salvação em Jesus a Cornélio e sua família? Qualquer de nós preferiria ouvir um anjo a Pedro. O fenômeno nos é mais fascinante. Mas Deus age por meio da Igreja que Jesus formou e onde Seu Espírito atua.

Homens são os instrumentos estabelecidos por Deus para falarem da experiência de salvação, libertação e esperança eterna. Homens nos são idênticos, pareiam conosco. Homens, e não anjos, são transformados pelo poder regenerador do Espírito Santo do Novo Nascimento em Cristo.

Deus nos alcança por meio de cordas humanas. Deus nos alcança e nos torna novas cordas por quem alcança outros. Para o Deus Eterno seria muito fácil usar o anjo, em lugar de Pedro. O Anjo teve apenas que ir a Cornélio. Já Pedro precisou de todo um preparo prévio, com visões e arrebatamento, a fim de aprender uma nova doutrina, quebrar suas resistências religiosas e preconceituosas. Isso ainda incluía o uso de mensageiros, distância no espaço físico e no tempo, e entre a fala do Anjo a Cornélio e a resposta da oração através de Pedro, passaram-se quatro dias. Porque os homens procrastinam sempre. Damos trabalho para obedecer. Ainda assim, é a homens que Deus usa para falar das coisas eternas.

Nós preferimos anjos; mas Deus prefere homens, para nos falar a Seu respeito. O ministério dos anjos é guardar-nos (Hebreus 1:14); o ministério da Igreja feita de homens, é ensinar-nos.

Que Ele nos use e também Se sirva de muitos para falar aos nossos corações. E saibamos aprender a esperar sempre, no tempo de Deus. Ele ouve. Responderá.

A Fé Surpreendida | Atos de Discípulos (15)

“E Saulo estava ali, consentindo na morte de Estêvão. Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria.”- Atos 8:1.

“Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor. Dirigindo-se ao sumo sacerdote, pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, de maneira que, caso encontrasse ali homens ou mulheres que pertencessem ao Caminho, pudesse levá-los presos para Jerusalém. Em sua viagem, quando se aproximava de Damasco, de repente brilhou ao seu redor uma luz vinda do céu. Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Ele respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você persegue. Levante-se, entre na cidade; alguém dirá o que você deve fazer…e, depois de comer, recuperou as forças. Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os que o ouviam ficavam perplexos e perguntavam: “Não é ele o homem que procurava destruir em Jerusalém aqueles que invocam este nome? E não veio para cá justamente para levá-los presos aos chefes dos sacerdotes?” Todavia, Saulo se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que viviam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.”- Atos 9:1-6; Atos 9:19; Atos 9:20-22.

Certa vez Jesus afirmou: “Também digo que, se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso será feito a vocês por meu Pai que está nos céus.” – Mateus 18:19.

Dentre tantas coisas extraordinárias que envolvem a dramática conversão de Saulo de Tarso, destaco a igreja de Damasco diante deste quadro inusitado. O texto de Atos nada nos diz sobre ela como igreja, neste momento. Apenas cita que ela existia e era o endereço certo para a fúria persecutória desse exator religioso, cuja perseguição estava generalizada contra os cristãos conhecidos como os do Caminho. Lucas se serve de uma figura de linguagem incomum para descrever o que movia o algoz contra o povo de Deus: “Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”. O impulso a que ele atendia era ódio. Ódio religioso. E na força desse ódio parte para cumprir sua sinistra missão. “Respirava ameaças de morte”, foi a forma achada pelo narrador, que era médico, para falar daquilo com que Saulo nutria suas aspirações. Se respiramos para viver, ele torturava cristãos, para respirar.

É onde paro pensando na Igreja de Antioquia, fruto do discipulado dos que fugiram de Jerusalém debaixo de tão acirrada perseguição. Famílias inteiras: jovens, mulheres e homens. Damasco se deparou como um possível refúgio protetor por estar além das fronteiras. Mas o ódio religioso não respeita fronteiras, e por isso Saulo para ali vai, com escolta e devidamente autorizado para prender e “arrastar” essas criaturas pacíficas, para Jerusalém. Ali lhes estaria reservado injusto julgamento e provável morte insana, à semelhança daquela de que Estêvão foi precursor.

Penso que a igreja refugiada já estava devidamente avisada de que a perseguição estava em seu calcanhar. Penso nas reuniões de oração movidas pelos familiares cristãos reunidos, buscando no Senhor livramento e graça para suportar. Talvez  esperando um livramento semelhante ao dos antigos israelitas, encurralados entre Faraó e o Mar Vermelho. As notícias trágicas eram bem frescas. Quantos deles, tendo escapado da perseguição em Jerusalém, devem ter chegado junto aos irmãos em Antioquia, descrevendo com cores vivas o drama assistido, do qual puderam fugir!

Mas penso nessas vigílias de oração da igreja, precursora da Igreja Subterrânea dos lugares onde ainda hoje ela existe tentando sustentar sua fé e paixão, fazendo o que lhes pode custar a liberdade e até a vida. A Igreja em Damasco, com certeza orava a Deus. Então tento imaginar o teor de sua súplica: “Se for possível, Senhor, afasta de nós este cálice sem que o bebamos!” Permito-me pensar nas esperanças várias que ditavam o teor das orações. No mínimo deviam dizer: “Olha para a ameaça desse homem mau, enquanto estendes a Tua mão para operar sinais…” Ou, ainda mais pretensiosas: “Não deixes que ele chegue a nós. Afasta o cálice, Senhor”. Aí está um modelo mais contemporâneo, nesta última.

De repente, reunida a Igreja, eis que pelas portas da casa entra o irmão Ananias, acompanhado por um jovem cujo rosto temível alguns já deviam conhecer. Perplexos, encolhem-se, talvez. E antes que abram a boca, Ananias fala, e diz: “Este é o nosso mais novo irmão no Senhor. Acabo de batizá-lo, pois se converteu a Cristo Jesus”. Saulo, agora Paulo, apequenado, olha para eles, olhar brando, despido de fúria, e diz: “Graça e paz, irmãos, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, Aquele de Nazaré, que me achou no caminho para aqui, e mudou meu caminho, vida e coração.” Muito belo, e não tanto irreal, porque nosso texto se encerra dizendo que ele entrou ali e: “Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus“.

Creio ter sido esta a primeira e mais extraordinária experiência da Igreja com a oração que cumpre a Palavra quando diz: “… Muito pode, por sua eficácia, a súplica de um justo.” – Tiago 5:16.

Muito Além da Mediocridade

Isaías 32:8 – “Mas o homem nobre faz planos nobres, e graças aos seus feitos nobres permanece firme”. Ou, numa tradução literal – “O nobre planeja nobrezas; e ele sobre coisas nobres terá existência.”

 

Este texto me move a uma reflexão temática dada sua proposta urgente para um tempo de desvalores, de empalidecimento das cores de nossa honra como homens e mulheres evangélicos nesta geração.

Medíocre é uma palavra que incomoda sem ofender, mas que consegue ferir o orgulho pessoal quando aplicada a pessoas ou ações humanas. Significa primariamente aquilo que está entre o bom e o ruim, ou que é sofrível.

Embora seja um adjetivo antipático, via de regra as pessoas se acomodam ou preferivelmente se ajustam a esta classificação, pelo simples mas lamentável fato de que a mediocridade, ou atuar de forma medíocre, dá menos trabalho, atende à necessidade, “dá para o gasto”.

Contudo ninguém tolera a ideia de receber um salário medíocre; de ser visto e tido por medíocre; de receber uma gratificação medíocre ou uma classificação medíocre sobre sua realização. Tanto pior a ideia de ter um filho medíocre; um pai ou mãe medíocres.

Mas…e quanto à fé? Suportamos uma fé medíocre?

Jesus classificou as obras de uma igreja inteira e a própria igreja como medíocre, quando ela aprovava a si mesma: Laodicéia, a quem definiu como morna – Apocalipse 3:16.

Podemos aceitar e conviver bem com uma espiritualidade medíocre?

Creio ser importante lembrar que o fato de sermos chamados a crer em Cristo Jesus, estabeleceu um convite para andarmos como Habacuque: “Sobre as minhas alturas, ou altaneiramente”. Para avaliarmos isso, quero pontuar a diferença entre o medíocre e o excelente na espiritualidade cristã.

NO EXERCÍCIO DA FÉ

Mateus 5:41 – “Se alguém lhe convidar a andar uma milha, anda com ele duas!” Sempre estará diante de nós a opção de não ser necessário ou importante ir além do que nos é requerido ou esperado de nós. Ainda há aqueles que se satisfazem a ficar aquém, ou no máximo agir até o mínimo necessário, apenas. Ou nada fazer.

Na obra de Deus;

No ser servo e útil;

Nas contribuições, orações, vida devocional.

E a mediocridade confessional? Ela transita pela magia, pelo imediatismo, pela visibilidade que dispensa a esperança. Faz-nos lembrar a palavra de Jesus para Tomé  em João 20:29. “Por que viste, creste? Bem-aventurados os que não viram  e creram”. Não há nobreza na confissão que precisa ter sinais, visibilidade para crer!

NO TESTEMUNHO DE VIDA

Neste particular, a nobreza está em pensar, avaliar e reavaliar valores morais. Ouçamos o que disse o Filho de Deus em Mateus 5:20. “Se a justiça de vocês não exceder a dos fariseus, de maneira nenhuma vocês entrarão no Reino de Deus”. Aqui ele usou o verbo exceder, que traz em seu núcleo o conceito de excelência.  E vale para muitas áreas mais. É duro constatar que existem pessoas em nossa sociedade que, sem compromisso algum com a fé evangélica, trazem uma justiça comportamental superior a de crentes na gentileza, no trato com o outro, na linguagem, no comportamental, na lucidez, na atenção e no zelo por não se  deixar levar por veículos populistas e medíocres que nada acrescentam à inteligência ou às boas maneiras. São autênticos e sinceros representantes da justiça dos fariseus, que clama contra nós diante do Deus Eterno e Santo, que é nosso Pai.

Mas a mediocridade inclina o crente a eleger companheiros de conteúdo  medíocre, com os quais se nivela, esquecendo a Palavra que diz: “As más companhias corrompem os bons costumes”. Noutro extremo o salmista disse: “Meus olhos procurarão os fiéis da terra para que estejam comigo”.

Aponta a santificação pessoal e a sabedoria que precisam ser notórios no crente: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”- Mateus 5:16; “para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo,” – Filipenses 2:15.

Também na autenticidade de sabedoria espiritual. Jesus afirmou em Lucas 7:35, que a sabedoria é conhecida por seus filhos. Menos do que isso é ser medíocre.

NO ENVOLVIMENTO COM O REINO DE DEUS

Muitos de nós entendem que é bastante tratar o Reino de Deus periféricamente. Por periféricamente aludo à superficialidade, ausência de espontaneidade, de criatividade, de voluntariedade. Entendem que doar coisas, dinheiro, assistir a cultos, são suficientes para atender ao que Deus pretende como envolvimento. Nada que não nos desinstale ou mesmo aquilo que usamos para nos representar, está acima de ser medíocre no serviço cristão. Jesus aponta essa perspectiva de excelência quanto ao Reino na parábola registrada em Mateus 13:44, quanto ao homem que achou no campo uma jóia de grande valor. “Vendeu tudo o que tinha  e comprou o campo”, é como Ele compara aqueles que têm no Reino de Deus a supremacia de suas vidas.

Paulo aponta essa excelência quando fala dos macedônios e sua visão do Reino, em II Co. 8:1-5, onde descreve que eles do extremo de sua pobreza, ofertaram para os irmãos sofridos de Jerusalém.

Mas alguns se contentam em viver as realidades espirituais como ilustra o encontro do rei Jeoás com o profeta Eliseu, em II Reis 13: 18 e 19. O profeta orientou o rei a lançar flechas pela janela com seu arco. O rei pegou apenas três flechas em sua aljava e as atirou. O homem de Deus ficou irritado e o repreendeu dizendo que ele só feriria os sírios três vezes, pois reputou por suficiente esse investimento minguado de sua fé.

Deus pensou e pretendeu muito mais a nosso respeito, meus irmãos. Ele planejou coisas nobres para realizarmos.Foi o que Ele disse em Jeremias 29:11: “Eu é que sei os planos que tenho para vocês. Planos de bem e não de mal”… Deus  planejou coisas nobres para realizarmos. Ele não pensa de forma medíocre, porque é excelente.

Há uma máxima bíblica que serve como aferidor de nossa posição espiritual: ela  se encontra em I Coríntios 15:19: “Os que esperam em Cristo somente quanto às coisas desta vida, são os mais infelizes de todos os homens”.

Sabe por que não pode ser medíocre? Porque tudo o que você é e faz, é culto, adoração. Tem de acontecer para o louvor da glória Dele.

Precisamos nos posicionar nesta geração como vidas nobres, crentes que atendem à exortação que diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.” – Filipenses 4:8.

Caminho de Rupturas

Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. – Marcos 8:34-38.

Esta palavra desafiadora do Filho de Deus, Autor da fé, é tão solene, e está tão comprometida com o tudo que a obra Dele e o Evangelho significam, que é registrada pelos quatro evangelhos, ainda com detalhes mais especiais em João 12.

É desafiadora.
É explícita.
É admoestativa.
É apelativa.

Jesus a pronunciou no exato momento em que pontuou que havia vindo ao mundo para morrer uma morte vicária. Repreendeu a Pedro que tentou desviar o significado dessa palavra. E afirmou que o Evangelho é um caminho de rupturas e renúncias, na contramão de tudo o que os líderes religiosos oferecem àqueles a quem buscam atrair como adeptos.

De vez em quando esbarro com pessoas vestindo umas camisetas com estes dizeres: “ É fácil levar Jesus no peito. Difícil é tê-Lo no coração”. Se por “ter Jesus no coração”, devemos entender a experiência de uma nova vivência confessional, tipo ser evangélico, então não é nem de longe difícil. É mais fácil ainda do que “levar Jesus no peito”. Mas se “por ter Jesus no coração“, devemos entender o “nascer de novo e viver como quem é soprado pelo Espírito” (João 3:6-8), então é muito difícil. É mais que difícil: é desafiador, mas nunca impossível. E nada menos surpreendente.

É desse segui-Lo com tal comprometimento de que fala o Senhor nesses textos. A mensagem se repete em Mateus 16:21-28; Lucas 9: 22-27 e João 12: 23-26, onde temos o reforço da alegoria: “Digo verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas, se morrer, dará muito fruto.” (V.24).

Por que é uma mensagem desafiadora? Porque o Filho de Deus deixa claro que segui-Lo implica em renúncia e numa mortificação. Pontua que essa mortificação redunda em não se envergonhar dEle. Pois não é uma proposta de vida com brilhos, mas renunciar implica em perder crédito e posições diante dos que nos querem marchando segundo o compasso deste mundo em suas ordens e pensamentos acerca da moral e do glamour. Também segundo seus próprios critérios e vontades. Seguir Jesus é romper com tudo isso. Sem presunção, nem esnobismo; sem perfeccionismo pietista, mas vendo esta geração como Ele a viu: submersa em pecado. Isto decorre de uma visão realista da vida pecaminosa.

É uma mensagem explícita porque o Filho de Deus deixa claro que é uma caminhada solitária, para poder produzir frutos que sejam abundantes. É uma caminhada de pontes queimadas, sem volta. Não se pode seguir Jesus como quem faz programas, pluga e despluga conforme seus apetites e interesses. Do tipo: “Estou envolvido hoje. Não sei se amanhã vou querer”. Não. Ele afirmou que é caminho ao Calvário, não ao pódium. Seguir Jesus é romper com perspectivas de brilhos. É assumir compromisso de se descompromissar com os desvios.

É uma mensagem admoestativa porque Ele adverte que a única via de viver, é perdendo a vida. Não fala de morte biológica, mas daquela morte de planos e sonhos que podem implicar “nos negócios desta vida” que impedem de militar-se legitimamente. Isto calca mais fundo o conceito de renúncia. Desinstala-nos de nosso conforto. E pode ser medido em ações práticas, socorristas, filantrópicas, missiológicas, devocionais. E a advertência se acentua quando ele delineia que de igual forma, fazer esta caminhada com a pretensão de ganhar, barganhar eu diria, redunda em morte. Perda de tempo na história. Morte da sabedoria, dignidade e sensatez, também. Seguir Jesus implica nessa ruptura.

Por fim, percebo nesta palavra seu tom apelativo. Ela é uma mensagem apelativa porque contém grande dose de convite. Quando Ele diz “se alguém quiser acompanhar-me”, Ele abre espaço, faz uma oferta. Ao mesmo tempo Ele acentua que é um convite a não sentir vergonha Dele, como a dizer: “Não se envergonhe de ser meu seguidor apesar dos transtornos e possíveis embaraços que isso possa lhe acarretar”.

No apelativo eu O vejo como a dizer: “Eu te convido a morrer como eu; a não querer ganhar o mundo, como eu. A deixar tua vida perder-se em Mim e para mim”, porque como está escrito: “Pois nenhum de nós vive apenas para si, e nenhum de nós morre apenas para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.” – Romanos 14:7-8.

Segui-Lo, de verdade, exige que façamos ruptura de todas as nossas amarras. Livres, podemos ser soprados pelo Vento, muito diferente de ser arrastados por “ventos de doutrina”.

Espírito e o Discípulo | Atos De Discípulos (14)

“Os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem. Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo. Quando a multidão ouviu Filipe e viu os sinais milagrosos que ele realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia. Os espíritos imundos saíam de muitos, dando gritos, e muitos paralíticos e mancos foram curados. Assim, houve grande alegria naquela cidade…No entanto, quando Filipe lhes pregou as boas-novas do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, creram nele e foram batizados, tanto homens como mulheres. O próprio Simão também creu e foi batizado, e seguia Filipe por toda parte, observando maravilhado os grandes sinais e milagres que eram realizados… Um anjo do Senhor disse a Filipe: “Vá para o sul, para a estrada deserta que  desce de Jerusalém a Gaza”. Ele se levantou e partiu. No caminho encontrou um eunuco etíope, um oficial importante, encarregado de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes. Esse homem viera a Jerusalém para adorar a Deus e, de volta para casa, sentado em sua carruagem, lia o livro do profeta Isaías. E o Espírito disse a Filipe: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a”…Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe repentinamente. O eunuco não o viu mais e, cheio de alegria, seguiu o seu caminho. Filipe, porém, apareceu em Azoto e, indo para Cesareia, pregava o evangelho em todas as cidades pelas quais passava.”  Atos 8:4-8, 12-13, 26-29, 39-40

O ambiente de Atos é o cenário do Espírito Santo. Ele ocupa o centro das ações como o protagonista do livro, de tal forma que muitos estudiosos disseram que o livro deveria se chamar “Atos do Espírito Santo”, porque, de fato é esta Terceira Pessoa da Trindade Santa Quem Se destaca e age, desde que é citada em 1:8 até o final da narrativa. Ele opera a Igreja e na Igreja. Nós O vemos agindo incessantemente e criando uma familiaridade com os discípulos que parece cumprir literalmente a promessa: “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Conselheiro para estar com vocês para sempre” – João 14:16. E aí está Ele, fazendo esta missão de estar com a Igreja em substituição ao Senhor.  Outro,  aqui, parece funcionar como “também Este”. Ele decide, Ele faz acontecer, determina, convoca, potencializa: realiza! E a Igreja comporta-se ciente de que  não pode passar sem Ele.

Entra em foco outro discípulo: Filipe. Já tínhamos visto seu nome na diaconia, distinguido como um dos escolhidos por ser reconhecidamente cheio do Espírito.  E as cenas que ele desenha com sua vida e serviço, frisam para nós o que pode e faz o Espírito na vida do discípulo.

Duas vezes a narrativa salienta que Filipe era usado pelo Espírito para operar sinais milagrosos com grande destaque para cura. Mas antes de apontar para este fato que chamava a atenção dos ouvintes, destaca que ele pregava, o povo o  ouvia e cria. Pregava o evangelho. Pregava, e batizava os que criam. E com isso a gente percebe que o serviço deste discípulo estava marcado por esse trinômio: pregação, batismo e sinais milagrosos. Nesta ordem. O Espírito realizava todas estas coisas em Filipe, por meio dele e com ele. Mas há outra coisa a apontar  aqui: a movimentação de Filipe. Começa com esta singular forma  de mostrar como literalmente se cumpria nele o que Jesus ordenou: “Indo, façam discípulos”. Veja o texto, de novo: “Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo”. Uma vez em Samaria, Filipe não ficava num mesmo lugar, pois o texto diz que ele era seguido “por toda parte”, por Simão, o mágico. Depois o vemos seguindo para Gaza, tendo recebido orientação de um anjo para dirigir-se até lá, e antes de chegar, onde nem mesmo entra, encontra um oficial da Etiópia, prega-lhe o Evangelho e o batiza. Foi o Espírito que disse no ouvido de Filipe que se chegasse ao etíope. Ato contínuo, arrebata-o e o faz aparecer em Azoto, onde não fica, mas segue para Cesárea, e ali, “pregava o evangelho em todas as cidades pelas quais passava”. Todas as cidades pelas quais passava. O homem não cessava. O que desponta é esse movimento contínuo, sempre soprado pelo Espírito, de forma até assombrosa. Vai abrindo frentes, por onde passam outros e vão consolidando o seu trabalho iniciado.

A ação do Espírito na vida de Filipe testifica e autentica de forma literal a Palavra que Jesus comunicou a Nicodemos, deixando claro que essa palavra é pertinente e caracteriza todo, toda, que é nascido do Alto: “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”.- João 3:8. Temos o mau hábito de ler este texto fazendo transferência de seu significado. Transferimos e o reduzimos como pertinente a crentes que têm um chamado ministerial ou missionário. Isto parece adequar-se mais à ideia de que para Deus somente algumas pessoas podem ser movidas, deslocadas de seus enraizamentos. Deixamos de nos conscientizar de que o título “ministerial” dado por Jesus àqueles que são deslocados pelo Espírito é “nascidos do Espírito”. No entanto, lemos, cremos e confessamos que

“nascidos do Espírito” é característica imprescindível e determinante para que alguém seja de Cristo, cristão genuíno, discípulo.

O Espírito está livre e expansivo como o vento na vida do discípulo, para soprar nele e movê-lo quando e para onde quiser. É assim que Ele nos faz cumprir a determinação do Senhor: “Indo, façam discípulos”. Com sinais ou sem eles, pregando as boas novas. À semelhança de Filipe, nosso “indo” não tem que necessariamente ser um lugar aqui, outro acolá. Na atualidade, dentro desta geração entre a qual vivemos, nosso “indo” ocorre todos os dias. Nos dias de Filipe, percorrer três, quatro quilômetros para chegar a um povoado ou encontrar uma carruagem para contatar seu usuário, requeria uma intervenção sobrenatural de Deus, arrebatamentos, e tais. Hoje, nossos veículos, ônibus, táxis, Uber, avião, nos levam a distâncias antes impensáveis no decurso de horas, apenas. E cada um desses movimentos representa nosso “indo”. Se neles há um discípulo, por certo há o Espírito. Para ser um Filipe, resta ouvir Paulo: “Deixem-se encher!” E então o mais Ele fará!

Simples…Assim

“Sejam símplices como as pombas…” – Mateus 10:16.

Se você prestar mais atenção perceberá que o oposto da simplicidade é a complexidade. Que esta traz no seu bojo sempre, a sobrecarga, tanto de haveres quanto de deveres. E mais: Você pode se dar conta de que a simplicidade é inata ao ser humano, que dela desiste por influência externa ou por observação do externo.

Se temos que aprender com pombas… o que elas têm a nos ensinar? Não muito.  E exatamente por isso: são simples, diferentemente de outras aves. Elas procuram agregar-se a ambientes humanos para usufruirem as benesses destes. Fazem seus ninhos o mais próximo possível de construções humanas, ou mesmo dentro delas. Andam e voejam por seus quintais e praças. Entre usarem as águas de um regato ou de lagos citadinos, é nestes que elas preferem se banhar. Como se elas e nós fôssemos assemelhados. E aí está, a meu ver, o ponto mais conclusivo da simplicidade das pombas, pois deixamos de ser simples quando voltamos nossa consciência para a auto-importância que nos impõe ver o outro como diferente. Para mais (e então buscamos superá-lo) ou para menos (e sobre ele triunfamos).

Consigo equiparar pardais a pombas, no quesito simplicidade. Mas não vejo simplicidade nas andorinhas, nos sabiás, nos sanhaços, nos joãos de barro, estes com suas casas artísticamente artesanais. Por mais belos que sejam, e por isso mesmo, simples não são. Pombas são simples, desprendidas, entregues. O faisão está para a riqueza quanto a pomba está para a pobreza, até mesmo nos rituais dos sacrifícios da Lei de Moisés.

Jesus nos diz: sejam como elas.

Porque a contramão da simplicidade traz grife, luxo, luxúria, endividamento, sobrecarga, prazeres que desembocam em dissabores, ansiedades, fobias, depressão pós euforia consumista, soberba da vida, jactância e tudo mais que   não presta. Traz poder, mas este não traduz força.

Sempre gostei de pensar no fato de que ser simples é barato, e tudo que não é simples é caro, mas sem valor real. O valor é só aquele que é atribuído. Isso vale para coisas e pessoas. Por ser caro, o não-simples é efêmero: no uso e no tempo.

Já percebi que diferentemente do sofisticado, o simples está carregado de afeto.  O sofisticado costumeiramente é frio, seja objeto ou gente. E quando objeto, o afeto é aquele que ele pode inspirar. Positivo para o simples, com certeza, mas só para o simples.

Melhor é ser barato, ou se arriscar a cair nas palavras do Filho de Deus: “Assim é  o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.” – Lucas 12:21. Este troca a simplicidade por um vazio.

Fomos chamados a ser pombas. Não faisões, nem pavões. Ovelhas. Nunca lobos.

Intimismo Divino

“Como tenho saudade dos meses que se passaram, dos dias em que Deus cuidava de mim…Como tenho saudade dos dias do meu vigor, quando a amizade de Deus abençoava a minha casa.” – Jó 29:2 e 4.

Esta linguagem que expressa uma experiência colocada no vazio de um saudoso passado, aponta uma possibilidade oferecida à fé, que pode ser vista,  pelo  menos, em dois textos que devem cativar nosso interesse espiritual: “Cheguem-se a Deus e Ele Se chegará a vocês”(Tiago 4:8), e: “Aproximemo-nos, com sincero coração”(Hebreus 10:22). Pois falam de uma proposta intimista, impossível ao homem comum imaginar, na relação pessoal do homem com seu Deus, por meio de Cristo Jesus. No entanto, foi o que nos ofereceu Jesus, e também podemos visibilizar isto em dois textos que registram Sua fala: “Quantas vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus pintainhos sob suas asas”(Mateus 23:37); e: “Entra no teu aposento e fala em secreto com teu Pai. E teu Pai que está em secreto, te recompensará” – Mateus 6:6.

Outro tanto, além de Jó, temos o registro dessa possibilidade sublime, na súplica de Daví, no salmo 57:1 – …“pois em ti a minha alma se refugia. Eu me refugiarei à sombra das tuas asas, até que passe o perigo.” Belíssimo. Do mesmo nível da promessa que afirma: “Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao Senhor: “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”. – Salmos 91:1-2.

E tudo isso nos aponta a possibilidade de um intimismo com Deus, possível ao  que O ama, ao qual Ele Mesmo nos convida, como expressa o salmo 25:14 – “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.”- Salmos 25:14 ARA.

Jó lamenta a perda desse intimismo, conforme ele supunha haver perdido, e indo na direção inversa do seu lamento, podemos alinhar alguns pontos de excelência dessa experiência, ou seja, os resultados que ela produz, dos quais ele sentia saudade. Isso para nos conscientizarmos do que podemos viver pela fé, quando vivendo em intimismo com Deus. Ao mesmo tempo, uma vez crentes veteranos, consciência do que provavelmente estamos perdendo.

Quero salientar cada um deles aqui, apontados em seu lamento no capítulo 29 do seu livro:

Efeitos internos 
  • “…dias em que Deus cuidava de mim,” Paulo usa desse verbo para significar do cuidado de Cristo pela igreja, em Efésios 5. Pedro afirma: “Ele tem cuidado de vocês”.
  • “ …a sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça e por sua luz eu caminhava em meio às trevas!” Lembram: “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” – Romanos 8:14.
Efeitos externos: 
  • Honra pública: “Quando eu ia à porta da cidade e tomava assento na praça pública; quando, ao me verem, os jovens saíam do caminho, e os idosos ficavam em pé; os líderes se abstinham de falar e com a mão cobriam a boca.”- vv7-9;
  • Vida de santificação: “A retidão era a minha roupa; a justiça era o meu manto e o meu turbante.”- 14;
  • Frutos da Sabedoria: “Os homens me escutavam em ansiosa expectativa, aguardando em silêncio o meu conselho. Depois que eu falava, eles nada diziam; minhas palavras caíam suavemente em seus ouvidos. Esperavam por mim como quem espera por uma chuvarada e bebiam minhas palavras como quem bebe a chuva da primavera.” 21-23;
  • “Era eu que escolhia o caminho para ..”(v.25) – Isto nos lembra: “O justo é um guia para o seu companheiro”.

Há algo mais que Jó nos ensina como fruto de uma vida íntima com  Deus: “quando o Todo-poderoso  ainda estava comigo…” – A companhia de Deus vista  em Seu poder. Jeremias fala disso quando diz: “O Senhor está comigo como valente guerreiro” (20:11). Mas a ênfase recai sobre a sentença “estar comigo”. Companhia. Companheirismo. A maior expressão de bênção que a Graça  promete. A fé que não nos move a este desejo, nem pretenda levar-nos até aí, é vazia em todos os sentidos. Mas somos convidados a chegar a esse nível de vida de comunhão. Menos que isso é desperdício.