A Fé Surpreendida | Atos de Discípulos (15)

“E Saulo estava ali, consentindo na morte de Estêvão. Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria.”- Atos 8:1.

“Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor. Dirigindo-se ao sumo sacerdote, pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, de maneira que, caso encontrasse ali homens ou mulheres que pertencessem ao Caminho, pudesse levá-los presos para Jerusalém. Em sua viagem, quando se aproximava de Damasco, de repente brilhou ao seu redor uma luz vinda do céu. Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Ele respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você persegue. Levante-se, entre na cidade; alguém dirá o que você deve fazer…e, depois de comer, recuperou as forças. Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os que o ouviam ficavam perplexos e perguntavam: “Não é ele o homem que procurava destruir em Jerusalém aqueles que invocam este nome? E não veio para cá justamente para levá-los presos aos chefes dos sacerdotes?” Todavia, Saulo se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que viviam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.”- Atos 9:1-6; Atos 9:19; Atos 9:20-22.

Certa vez Jesus afirmou: “Também digo que, se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso será feito a vocês por meu Pai que está nos céus.” – Mateus 18:19.

Dentre tantas coisas extraordinárias que envolvem a dramática conversão de Saulo de Tarso, destaco a igreja de Damasco diante deste quadro inusitado. O texto de Atos nada nos diz sobre ela como igreja, neste momento. Apenas cita que ela existia e era o endereço certo para a fúria persecutória desse exator religioso, cuja perseguição estava generalizada contra os cristãos conhecidos como os do Caminho. Lucas se serve de uma figura de linguagem incomum para descrever o que movia o algoz contra o povo de Deus: “Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”. O impulso a que ele atendia era ódio. Ódio religioso. E na força desse ódio parte para cumprir sua sinistra missão. “Respirava ameaças de morte”, foi a forma achada pelo narrador, que era médico, para falar daquilo com que Saulo nutria suas aspirações. Se respiramos para viver, ele torturava cristãos, para respirar.

É onde paro pensando na Igreja de Antioquia, fruto do discipulado dos que fugiram de Jerusalém debaixo de tão acirrada perseguição. Famílias inteiras: jovens, mulheres e homens. Damasco se deparou como um possível refúgio protetor por estar além das fronteiras. Mas o ódio religioso não respeita fronteiras, e por isso Saulo para ali vai, com escolta e devidamente autorizado para prender e “arrastar” essas criaturas pacíficas, para Jerusalém. Ali lhes estaria reservado injusto julgamento e provável morte insana, à semelhança daquela de que Estêvão foi precursor.

Penso que a igreja refugiada já estava devidamente avisada de que a perseguição estava em seu calcanhar. Penso nas reuniões de oração movidas pelos familiares cristãos reunidos, buscando no Senhor livramento e graça para suportar. Talvez  esperando um livramento semelhante ao dos antigos israelitas, encurralados entre Faraó e o Mar Vermelho. As notícias trágicas eram bem frescas. Quantos deles, tendo escapado da perseguição em Jerusalém, devem ter chegado junto aos irmãos em Antioquia, descrevendo com cores vivas o drama assistido, do qual puderam fugir!

Mas penso nessas vigílias de oração da igreja, precursora da Igreja Subterrânea dos lugares onde ainda hoje ela existe tentando sustentar sua fé e paixão, fazendo o que lhes pode custar a liberdade e até a vida. A Igreja em Damasco, com certeza orava a Deus. Então tento imaginar o teor de sua súplica: “Se for possível, Senhor, afasta de nós este cálice sem que o bebamos!” Permito-me pensar nas esperanças várias que ditavam o teor das orações. No mínimo deviam dizer: “Olha para a ameaça desse homem mau, enquanto estendes a Tua mão para operar sinais…” Ou, ainda mais pretensiosas: “Não deixes que ele chegue a nós. Afasta o cálice, Senhor”. Aí está um modelo mais contemporâneo, nesta última.

De repente, reunida a Igreja, eis que pelas portas da casa entra o irmão Ananias, acompanhado por um jovem cujo rosto temível alguns já deviam conhecer. Perplexos, encolhem-se, talvez. E antes que abram a boca, Ananias fala, e diz: “Este é o nosso mais novo irmão no Senhor. Acabo de batizá-lo, pois se converteu a Cristo Jesus”. Saulo, agora Paulo, apequenado, olha para eles, olhar brando, despido de fúria, e diz: “Graça e paz, irmãos, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, Aquele de Nazaré, que me achou no caminho para aqui, e mudou meu caminho, vida e coração.” Muito belo, e não tanto irreal, porque nosso texto se encerra dizendo que ele entrou ali e: “Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus“.

Creio ter sido esta a primeira e mais extraordinária experiência da Igreja com a oração que cumpre a Palavra quando diz: “… Muito pode, por sua eficácia, a súplica de um justo.” – Tiago 5:16.

Muito Além da Mediocridade

Isaías 32:8 – “Mas o homem nobre faz planos nobres, e graças aos seus feitos nobres permanece firme”. Ou, numa tradução literal – “O nobre planeja nobrezas; e ele sobre coisas nobres terá existência.”

 

Este texto me move a uma reflexão temática dada sua proposta urgente para um tempo de desvalores, de empalidecimento das cores de nossa honra como homens e mulheres evangélicos nesta geração.

Medíocre é uma palavra que incomoda sem ofender, mas que consegue ferir o orgulho pessoal quando aplicada a pessoas ou ações humanas. Significa primariamente aquilo que está entre o bom e o ruim, ou que é sofrível.

Embora seja um adjetivo antipático, via de regra as pessoas se acomodam ou preferivelmente se ajustam a esta classificação, pelo simples mas lamentável fato de que a mediocridade, ou atuar de forma medíocre, dá menos trabalho, atende à necessidade, “dá para o gasto”.

Contudo ninguém tolera a ideia de receber um salário medíocre; de ser visto e tido por medíocre; de receber uma gratificação medíocre ou uma classificação medíocre sobre sua realização. Tanto pior a ideia de ter um filho medíocre; um pai ou mãe medíocres.

Mas…e quanto à fé? Suportamos uma fé medíocre?

Jesus classificou as obras de uma igreja inteira e a própria igreja como medíocre, quando ela aprovava a si mesma: Laodicéia, a quem definiu como morna – Apocalipse 3:16.

Podemos aceitar e conviver bem com uma espiritualidade medíocre?

Creio ser importante lembrar que o fato de sermos chamados a crer em Cristo Jesus, estabeleceu um convite para andarmos como Habacuque: “Sobre as minhas alturas, ou altaneiramente”. Para avaliarmos isso, quero pontuar a diferença entre o medíocre e o excelente na espiritualidade cristã.

NO EXERCÍCIO DA FÉ

Mateus 5:41 – “Se alguém lhe convidar a andar uma milha, anda com ele duas!” Sempre estará diante de nós a opção de não ser necessário ou importante ir além do que nos é requerido ou esperado de nós. Ainda há aqueles que se satisfazem a ficar aquém, ou no máximo agir até o mínimo necessário, apenas. Ou nada fazer.

Na obra de Deus;

No ser servo e útil;

Nas contribuições, orações, vida devocional.

E a mediocridade confessional? Ela transita pela magia, pelo imediatismo, pela visibilidade que dispensa a esperança. Faz-nos lembrar a palavra de Jesus para Tomé  em João 20:29. “Por que viste, creste? Bem-aventurados os que não viram  e creram”. Não há nobreza na confissão que precisa ter sinais, visibilidade para crer!

NO TESTEMUNHO DE VIDA

Neste particular, a nobreza está em pensar, avaliar e reavaliar valores morais. Ouçamos o que disse o Filho de Deus em Mateus 5:20. “Se a justiça de vocês não exceder a dos fariseus, de maneira nenhuma vocês entrarão no Reino de Deus”. Aqui ele usou o verbo exceder, que traz em seu núcleo o conceito de excelência.  E vale para muitas áreas mais. É duro constatar que existem pessoas em nossa sociedade que, sem compromisso algum com a fé evangélica, trazem uma justiça comportamental superior a de crentes na gentileza, no trato com o outro, na linguagem, no comportamental, na lucidez, na atenção e no zelo por não se  deixar levar por veículos populistas e medíocres que nada acrescentam à inteligência ou às boas maneiras. São autênticos e sinceros representantes da justiça dos fariseus, que clama contra nós diante do Deus Eterno e Santo, que é nosso Pai.

Mas a mediocridade inclina o crente a eleger companheiros de conteúdo  medíocre, com os quais se nivela, esquecendo a Palavra que diz: “As más companhias corrompem os bons costumes”. Noutro extremo o salmista disse: “Meus olhos procurarão os fiéis da terra para que estejam comigo”.

Aponta a santificação pessoal e a sabedoria que precisam ser notórios no crente: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”- Mateus 5:16; “para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo,” – Filipenses 2:15.

Também na autenticidade de sabedoria espiritual. Jesus afirmou em Lucas 7:35, que a sabedoria é conhecida por seus filhos. Menos do que isso é ser medíocre.

NO ENVOLVIMENTO COM O REINO DE DEUS

Muitos de nós entendem que é bastante tratar o Reino de Deus periféricamente. Por periféricamente aludo à superficialidade, ausência de espontaneidade, de criatividade, de voluntariedade. Entendem que doar coisas, dinheiro, assistir a cultos, são suficientes para atender ao que Deus pretende como envolvimento. Nada que não nos desinstale ou mesmo aquilo que usamos para nos representar, está acima de ser medíocre no serviço cristão. Jesus aponta essa perspectiva de excelência quanto ao Reino na parábola registrada em Mateus 13:44, quanto ao homem que achou no campo uma jóia de grande valor. “Vendeu tudo o que tinha  e comprou o campo”, é como Ele compara aqueles que têm no Reino de Deus a supremacia de suas vidas.

Paulo aponta essa excelência quando fala dos macedônios e sua visão do Reino, em II Co. 8:1-5, onde descreve que eles do extremo de sua pobreza, ofertaram para os irmãos sofridos de Jerusalém.

Mas alguns se contentam em viver as realidades espirituais como ilustra o encontro do rei Jeoás com o profeta Eliseu, em II Reis 13: 18 e 19. O profeta orientou o rei a lançar flechas pela janela com seu arco. O rei pegou apenas três flechas em sua aljava e as atirou. O homem de Deus ficou irritado e o repreendeu dizendo que ele só feriria os sírios três vezes, pois reputou por suficiente esse investimento minguado de sua fé.

Deus pensou e pretendeu muito mais a nosso respeito, meus irmãos. Ele planejou coisas nobres para realizarmos.Foi o que Ele disse em Jeremias 29:11: “Eu é que sei os planos que tenho para vocês. Planos de bem e não de mal”… Deus  planejou coisas nobres para realizarmos. Ele não pensa de forma medíocre, porque é excelente.

Há uma máxima bíblica que serve como aferidor de nossa posição espiritual: ela  se encontra em I Coríntios 15:19: “Os que esperam em Cristo somente quanto às coisas desta vida, são os mais infelizes de todos os homens”.

Sabe por que não pode ser medíocre? Porque tudo o que você é e faz, é culto, adoração. Tem de acontecer para o louvor da glória Dele.

Precisamos nos posicionar nesta geração como vidas nobres, crentes que atendem à exortação que diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.” – Filipenses 4:8.

Caminho de Rupturas

Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. – Marcos 8:34-38.

Esta palavra desafiadora do Filho de Deus, Autor da fé, é tão solene, e está tão comprometida com o tudo que a obra Dele e o Evangelho significam, que é registrada pelos quatro evangelhos, ainda com detalhes mais especiais em João 12.

É desafiadora.
É explícita.
É admoestativa.
É apelativa.

Jesus a pronunciou no exato momento em que pontuou que havia vindo ao mundo para morrer uma morte vicária. Repreendeu a Pedro que tentou desviar o significado dessa palavra. E afirmou que o Evangelho é um caminho de rupturas e renúncias, na contramão de tudo o que os líderes religiosos oferecem àqueles a quem buscam atrair como adeptos.

De vez em quando esbarro com pessoas vestindo umas camisetas com estes dizeres: “ É fácil levar Jesus no peito. Difícil é tê-Lo no coração”. Se por “ter Jesus no coração”, devemos entender a experiência de uma nova vivência confessional, tipo ser evangélico, então não é nem de longe difícil. É mais fácil ainda do que “levar Jesus no peito”. Mas se “por ter Jesus no coração“, devemos entender o “nascer de novo e viver como quem é soprado pelo Espírito” (João 3:6-8), então é muito difícil. É mais que difícil: é desafiador, mas nunca impossível. E nada menos surpreendente.

É desse segui-Lo com tal comprometimento de que fala o Senhor nesses textos. A mensagem se repete em Mateus 16:21-28; Lucas 9: 22-27 e João 12: 23-26, onde temos o reforço da alegoria: “Digo verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas, se morrer, dará muito fruto.” (V.24).

Por que é uma mensagem desafiadora? Porque o Filho de Deus deixa claro que segui-Lo implica em renúncia e numa mortificação. Pontua que essa mortificação redunda em não se envergonhar dEle. Pois não é uma proposta de vida com brilhos, mas renunciar implica em perder crédito e posições diante dos que nos querem marchando segundo o compasso deste mundo em suas ordens e pensamentos acerca da moral e do glamour. Também segundo seus próprios critérios e vontades. Seguir Jesus é romper com tudo isso. Sem presunção, nem esnobismo; sem perfeccionismo pietista, mas vendo esta geração como Ele a viu: submersa em pecado. Isto decorre de uma visão realista da vida pecaminosa.

É uma mensagem explícita porque o Filho de Deus deixa claro que é uma caminhada solitária, para poder produzir frutos que sejam abundantes. É uma caminhada de pontes queimadas, sem volta. Não se pode seguir Jesus como quem faz programas, pluga e despluga conforme seus apetites e interesses. Do tipo: “Estou envolvido hoje. Não sei se amanhã vou querer”. Não. Ele afirmou que é caminho ao Calvário, não ao pódium. Seguir Jesus é romper com perspectivas de brilhos. É assumir compromisso de se descompromissar com os desvios.

É uma mensagem admoestativa porque Ele adverte que a única via de viver, é perdendo a vida. Não fala de morte biológica, mas daquela morte de planos e sonhos que podem implicar “nos negócios desta vida” que impedem de militar-se legitimamente. Isto calca mais fundo o conceito de renúncia. Desinstala-nos de nosso conforto. E pode ser medido em ações práticas, socorristas, filantrópicas, missiológicas, devocionais. E a advertência se acentua quando ele delineia que de igual forma, fazer esta caminhada com a pretensão de ganhar, barganhar eu diria, redunda em morte. Perda de tempo na história. Morte da sabedoria, dignidade e sensatez, também. Seguir Jesus implica nessa ruptura.

Por fim, percebo nesta palavra seu tom apelativo. Ela é uma mensagem apelativa porque contém grande dose de convite. Quando Ele diz “se alguém quiser acompanhar-me”, Ele abre espaço, faz uma oferta. Ao mesmo tempo Ele acentua que é um convite a não sentir vergonha Dele, como a dizer: “Não se envergonhe de ser meu seguidor apesar dos transtornos e possíveis embaraços que isso possa lhe acarretar”.

No apelativo eu O vejo como a dizer: “Eu te convido a morrer como eu; a não querer ganhar o mundo, como eu. A deixar tua vida perder-se em Mim e para mim”, porque como está escrito: “Pois nenhum de nós vive apenas para si, e nenhum de nós morre apenas para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.” – Romanos 14:7-8.

Segui-Lo, de verdade, exige que façamos ruptura de todas as nossas amarras. Livres, podemos ser soprados pelo Vento, muito diferente de ser arrastados por “ventos de doutrina”.

Espírito e o Discípulo | Atos De Discípulos (14)

“Os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem. Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo. Quando a multidão ouviu Filipe e viu os sinais milagrosos que ele realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia. Os espíritos imundos saíam de muitos, dando gritos, e muitos paralíticos e mancos foram curados. Assim, houve grande alegria naquela cidade…No entanto, quando Filipe lhes pregou as boas-novas do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, creram nele e foram batizados, tanto homens como mulheres. O próprio Simão também creu e foi batizado, e seguia Filipe por toda parte, observando maravilhado os grandes sinais e milagres que eram realizados… Um anjo do Senhor disse a Filipe: “Vá para o sul, para a estrada deserta que  desce de Jerusalém a Gaza”. Ele se levantou e partiu. No caminho encontrou um eunuco etíope, um oficial importante, encarregado de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes. Esse homem viera a Jerusalém para adorar a Deus e, de volta para casa, sentado em sua carruagem, lia o livro do profeta Isaías. E o Espírito disse a Filipe: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a”…Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe repentinamente. O eunuco não o viu mais e, cheio de alegria, seguiu o seu caminho. Filipe, porém, apareceu em Azoto e, indo para Cesareia, pregava o evangelho em todas as cidades pelas quais passava.”  Atos 8:4-8, 12-13, 26-29, 39-40

O ambiente de Atos é o cenário do Espírito Santo. Ele ocupa o centro das ações como o protagonista do livro, de tal forma que muitos estudiosos disseram que o livro deveria se chamar “Atos do Espírito Santo”, porque, de fato é esta Terceira Pessoa da Trindade Santa Quem Se destaca e age, desde que é citada em 1:8 até o final da narrativa. Ele opera a Igreja e na Igreja. Nós O vemos agindo incessantemente e criando uma familiaridade com os discípulos que parece cumprir literalmente a promessa: “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Conselheiro para estar com vocês para sempre” – João 14:16. E aí está Ele, fazendo esta missão de estar com a Igreja em substituição ao Senhor.  Outro,  aqui, parece funcionar como “também Este”. Ele decide, Ele faz acontecer, determina, convoca, potencializa: realiza! E a Igreja comporta-se ciente de que  não pode passar sem Ele.

Entra em foco outro discípulo: Filipe. Já tínhamos visto seu nome na diaconia, distinguido como um dos escolhidos por ser reconhecidamente cheio do Espírito.  E as cenas que ele desenha com sua vida e serviço, frisam para nós o que pode e faz o Espírito na vida do discípulo.

Duas vezes a narrativa salienta que Filipe era usado pelo Espírito para operar sinais milagrosos com grande destaque para cura. Mas antes de apontar para este fato que chamava a atenção dos ouvintes, destaca que ele pregava, o povo o  ouvia e cria. Pregava o evangelho. Pregava, e batizava os que criam. E com isso a gente percebe que o serviço deste discípulo estava marcado por esse trinômio: pregação, batismo e sinais milagrosos. Nesta ordem. O Espírito realizava todas estas coisas em Filipe, por meio dele e com ele. Mas há outra coisa a apontar  aqui: a movimentação de Filipe. Começa com esta singular forma  de mostrar como literalmente se cumpria nele o que Jesus ordenou: “Indo, façam discípulos”. Veja o texto, de novo: “Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo”. Uma vez em Samaria, Filipe não ficava num mesmo lugar, pois o texto diz que ele era seguido “por toda parte”, por Simão, o mágico. Depois o vemos seguindo para Gaza, tendo recebido orientação de um anjo para dirigir-se até lá, e antes de chegar, onde nem mesmo entra, encontra um oficial da Etiópia, prega-lhe o Evangelho e o batiza. Foi o Espírito que disse no ouvido de Filipe que se chegasse ao etíope. Ato contínuo, arrebata-o e o faz aparecer em Azoto, onde não fica, mas segue para Cesárea, e ali, “pregava o evangelho em todas as cidades pelas quais passava”. Todas as cidades pelas quais passava. O homem não cessava. O que desponta é esse movimento contínuo, sempre soprado pelo Espírito, de forma até assombrosa. Vai abrindo frentes, por onde passam outros e vão consolidando o seu trabalho iniciado.

A ação do Espírito na vida de Filipe testifica e autentica de forma literal a Palavra que Jesus comunicou a Nicodemos, deixando claro que essa palavra é pertinente e caracteriza todo, toda, que é nascido do Alto: “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”.- João 3:8. Temos o mau hábito de ler este texto fazendo transferência de seu significado. Transferimos e o reduzimos como pertinente a crentes que têm um chamado ministerial ou missionário. Isto parece adequar-se mais à ideia de que para Deus somente algumas pessoas podem ser movidas, deslocadas de seus enraizamentos. Deixamos de nos conscientizar de que o título “ministerial” dado por Jesus àqueles que são deslocados pelo Espírito é “nascidos do Espírito”. No entanto, lemos, cremos e confessamos que

“nascidos do Espírito” é característica imprescindível e determinante para que alguém seja de Cristo, cristão genuíno, discípulo.

O Espírito está livre e expansivo como o vento na vida do discípulo, para soprar nele e movê-lo quando e para onde quiser. É assim que Ele nos faz cumprir a determinação do Senhor: “Indo, façam discípulos”. Com sinais ou sem eles, pregando as boas novas. À semelhança de Filipe, nosso “indo” não tem que necessariamente ser um lugar aqui, outro acolá. Na atualidade, dentro desta geração entre a qual vivemos, nosso “indo” ocorre todos os dias. Nos dias de Filipe, percorrer três, quatro quilômetros para chegar a um povoado ou encontrar uma carruagem para contatar seu usuário, requeria uma intervenção sobrenatural de Deus, arrebatamentos, e tais. Hoje, nossos veículos, ônibus, táxis, Uber, avião, nos levam a distâncias antes impensáveis no decurso de horas, apenas. E cada um desses movimentos representa nosso “indo”. Se neles há um discípulo, por certo há o Espírito. Para ser um Filipe, resta ouvir Paulo: “Deixem-se encher!” E então o mais Ele fará!

Intimismo Divino

“Como tenho saudade dos meses que se passaram, dos dias em que Deus cuidava de mim…Como tenho saudade dos dias do meu vigor, quando a amizade de Deus abençoava a minha casa.” – Jó 29:2 e 4.

Esta linguagem que expressa uma experiência colocada no vazio de um saudoso passado, aponta uma possibilidade oferecida à fé, que pode ser vista,  pelo  menos, em dois textos que devem cativar nosso interesse espiritual: “Cheguem-se a Deus e Ele Se chegará a vocês”(Tiago 4:8), e: “Aproximemo-nos, com sincero coração”(Hebreus 10:22). Pois falam de uma proposta intimista, impossível ao homem comum imaginar, na relação pessoal do homem com seu Deus, por meio de Cristo Jesus. No entanto, foi o que nos ofereceu Jesus, e também podemos visibilizar isto em dois textos que registram Sua fala: “Quantas vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus pintainhos sob suas asas”(Mateus 23:37); e: “Entra no teu aposento e fala em secreto com teu Pai. E teu Pai que está em secreto, te recompensará” – Mateus 6:6.

Outro tanto, além de Jó, temos o registro dessa possibilidade sublime, na súplica de Daví, no salmo 57:1 – …“pois em ti a minha alma se refugia. Eu me refugiarei à sombra das tuas asas, até que passe o perigo.” Belíssimo. Do mesmo nível da promessa que afirma: “Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao Senhor: “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”. – Salmos 91:1-2.

E tudo isso nos aponta a possibilidade de um intimismo com Deus, possível ao  que O ama, ao qual Ele Mesmo nos convida, como expressa o salmo 25:14 – “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.”- Salmos 25:14 ARA.

Jó lamenta a perda desse intimismo, conforme ele supunha haver perdido, e indo na direção inversa do seu lamento, podemos alinhar alguns pontos de excelência dessa experiência, ou seja, os resultados que ela produz, dos quais ele sentia saudade. Isso para nos conscientizarmos do que podemos viver pela fé, quando vivendo em intimismo com Deus. Ao mesmo tempo, uma vez crentes veteranos, consciência do que provavelmente estamos perdendo.

Quero salientar cada um deles aqui, apontados em seu lamento no capítulo 29 do seu livro:

Efeitos internos 
  • “…dias em que Deus cuidava de mim,” Paulo usa desse verbo para significar do cuidado de Cristo pela igreja, em Efésios 5. Pedro afirma: “Ele tem cuidado de vocês”.
  • “ …a sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça e por sua luz eu caminhava em meio às trevas!” Lembram: “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” – Romanos 8:14.
Efeitos externos: 
  • Honra pública: “Quando eu ia à porta da cidade e tomava assento na praça pública; quando, ao me verem, os jovens saíam do caminho, e os idosos ficavam em pé; os líderes se abstinham de falar e com a mão cobriam a boca.”- vv7-9;
  • Vida de santificação: “A retidão era a minha roupa; a justiça era o meu manto e o meu turbante.”- 14;
  • Frutos da Sabedoria: “Os homens me escutavam em ansiosa expectativa, aguardando em silêncio o meu conselho. Depois que eu falava, eles nada diziam; minhas palavras caíam suavemente em seus ouvidos. Esperavam por mim como quem espera por uma chuvarada e bebiam minhas palavras como quem bebe a chuva da primavera.” 21-23;
  • “Era eu que escolhia o caminho para ..”(v.25) – Isto nos lembra: “O justo é um guia para o seu companheiro”.

Há algo mais que Jó nos ensina como fruto de uma vida íntima com  Deus: “quando o Todo-poderoso  ainda estava comigo…” – A companhia de Deus vista  em Seu poder. Jeremias fala disso quando diz: “O Senhor está comigo como valente guerreiro” (20:11). Mas a ênfase recai sobre a sentença “estar comigo”. Companhia. Companheirismo. A maior expressão de bênção que a Graça  promete. A fé que não nos move a este desejo, nem pretenda levar-nos até aí, é vazia em todos os sentidos. Mas somos convidados a chegar a esse nível de vida de comunhão. Menos que isso é desperdício.

Inconformação

I Samuel 17:16 e 23.

À luz deste texto, quero falar sobre inconformação, sobre ser inconformado. Não podemos nem devemos confundir os termos. Não falo de inconformistas nem de inconformismo. Estes dois apontam para um status quo, que só tem a ver com intemperança, intolerância. Não tem valor moral, é apenas sentimentalismo  político e psíquico. Inconformação, no entanto, fala de uma atitude, e esta de caráter espiritual, vinculada a uma nova natureza e a decorrente visão da vida que ela traz.

O texto que lemos é a autêntica réplica da diferença entre a conformação e a inconformação. A conformação aqui está muito bem caracterizada pelas atitudes   e reações do exército de 3 mil homens de Saul, ele inclusive. Toleraram durante 40 dias o filisteu Golias afrontá-los, tomando posição, duas vezes ao dia, o que dava um total de 80 vezes! Durante seis semanas! Por conta dessa tolerância, dia a dia o filisteu foi ganhando terreno.

A inconformação se mostra na atitude de Daví, a quem bastou ouvir o desaforo uma única vez para não aceitá-lo.

A conformação tem esse caráter: acostuma-se com o que é indevido, incorreto, injusto, até mesmo agressivo.

O mundo se ocupa em agir exatamente como Golias. Por mais bizarra seja sua forma, vai se posicionando devagar e sempre. Se não encontra a devida resistência, vai tomando posição, ganhando terreno.

O diabo se serve muito bem desse artifício para ganhar espaço na vida do crente em todas as dimensões. Daí a Palavra de Deus advertir: “Não deem lugar ao diabo”, e outra vez: “Resistam ao diabo e ele fugirá de vocês”.

Não dar lugar, guardar a posição, resistir; são movimentos em desuso hoje em muitas vidas, e os danos não se fazem esperar.

No lazer.

No descuido com as ferramentas espirituais. Na linguagem.

No uso do que é inerentemente mundano.

Lembram?: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém”. “As más companhias corrompem os bons costumes”. Estamos sujeitos a cada uma delas. Mas a vigilância reclama não conformar-se. Porque o resultado é perda de discernimento. Em seguida, perda de forças. Por fim, derrota, como aconteceu  com Sansão, herói de Deus.

Por isso somos alertados em Romanos 12: 2 – “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de

Deus.” Isto requer, maioria das vezes o sacrifício aludido no verso 1 do mesmo texto: “Portanto, irmãos, rogo pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.”

Conformar-se é atitude cômoda, mas desprovida de sabedoria. Não produz testemunho cristão, mas revela caráter de tolo.

O Discípulo e o Espírito | Atos de Discípulos (13)

“Estêvão, homem cheio da graça e do poder de Deus, realizava grandes maravilhas e sinais no meio do povo. Contudo, levantou-se oposição dos  membros da chamada sinagoga dos Libertos, dos judeus de Cirene e de Alexandria, bem como das províncias da Cilícia e da Ásia. Esses homens começaram a discutir com Estêvão. Mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava…Olhando para ele, todos os que estavam sentados no Sinédrio viram que o seu rosto parecia o rosto de um anjo… Mas Estêvão, cheio  do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus, e disse: “Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus”. Mas eles taparam os ouvidos e, dando fortes gritos, lançaram-se todos juntos contra ele, arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo. Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. Então caiu de joelhos e bradou: “Senhor, não os  consideres culpados deste pecado”. E, tendo dito isso, adormeceu.” – Atos 6:8,9,10, 15; 7: 55-60.

Tanto à força do relato do livro de Atos que registra as palavras de nosso Senhor estabelecendo a fonte do poder de nosso testemunho cristão, quanto pela doutrinação aprendida nas epístolas de Paulo, estamos convictos de que para sermos discípulos de Cristo, legitimamente, precisamos viver cheios do Seu Espírito Santo. Realça-se o texto exortativo de Gálatas 5:25 – “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.”

Mas essa terminologia, “ser cheio do Espírito”, acabou caindo para a formatação de um slogan técnico-piedoso, se me faço entender, e recebeu, por conta disso, vinculações de significado fantasioso, que a deixou longe de seu sentido e comprometimento real. Hoje, até há alguns que cobiçam uma “vida no Espírito”. E há ainda outros que a buscam, mas ou desistem no meio do caminho, ou se assustam e recuam quando se dão conta de que nem tudo flui magnífica ou fantasticamente como pretendido.

Estêvão, aquele mesmo visto anteriormente como escolhido para a diaconia por ser cheio do Espírito, de fé e de sabedoria, serve como ilustração real para nós, dos efeitos prováveis de uma vida na plenitude do Espírito Santo de Deus.

Podemos sinalar os efeitos ministeriais desse revestimento testemunhal: “Estêvão… realizava grandes maravilhas e sinais no meio do povo”.

Podemos sinalar evidências desse caráter sob o revestimento testemunhal: “Mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava…Olhando para ele, todos os que estavam sentados no Sinédrio viram que o seu rosto parecia o rosto de um anjo”.

Quem não quer, como cristão genuíno, discípulo comprometido, estar cheio do Espírito e viver em tais dimensões? Todavia, chama a nossa atenção uma palavra devidamente bem colocada por Lucas na descrição de seu texto, em 6:9, que não apontamos anteriormente. Após descrever os efeitos do poder de Deus através de Estêvão, Lucas diz: “Contudo…” e passa a falar da oposição que tal poder  desperta entre seus observadores hostis. “Contudo” significa: apesar de, a despeito de, embora… E mais especificamente quanto a Estêvão, contudo pode significar legitimamente “por causa disso”. Paulo, noutro tempo disse a Timóteo: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”- 2 Timóteo 3:12. À luz desta palavra já ouvi crentes darem graças por não serem cheios do Espírito. Impossível não pensar que a Palavra em Hebreus 11:16, “…Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles…” não lhes pertence.

O que queremos ressaltar é que um discipulado cheio do Espírito pode traduzir-se em frutos dignificantes, experiências sobrehumanas, e virtudes incomuns; mas também reserva espaço para perseguição e até sofrimento, porque vivemos no mundo tenebroso e pisamos num terreno que nos é hostil. Mas conquanto a vida no Espírito possa custar tão alto preço, é ainda mais atraente, e sublima tudo e qualquer coisa quando, por conta disso mesmo, os discípulos cheios do Espírito podem ser tomados da convicção de que tal como Estêvão, em algum momento podem dizer: “…cheio do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a  glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus, e disse: ‘Vejo os céus abertos e  o Filho do homem em pé, à direita de Deus”. Só por isso, e acima de tudo, compensa dar ouvidos à exortação paulina que diz: “…mas deixem-se encher pelo Espírito” – Efésios 5:18. Amém.

Assemelhados ou Deformados

“Ora, o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor ali há liberdade. E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.”  – 2 Coríntios 3:17-18

Transformação é a palavra. É o compromisso do Evangelho na vida em cujo coração sua verdade entra e permanece. É o programa de Deus com o homem que por viver longe da cruz, estava “vazio da glória de Deus”, e portanto deformado quanto ao plano divino original ao colocar nele a imagem e semelhança do Seu criador. Decaído, o ser humano passou a viver uma experiência de deformidades, na moral e na espiritualidade, revelada em seu comportamento, forma de ver e perceber a existência e o outro. Sem Deus no mundo, na linguagem de Paulo em Efésios 2:12. Mas, uma vez tendo nascido de novo, nascido do Espírito pela fé em Cristo e Sua obra, o Mesmo Espírito de Deus iniciou um programa de restauração a que a Palavra de Deus chama de transformação.

A transformação envolve todo o ser. Evidencia-se num crescendo contínuo no trato com a vida. Desde a afetividade até o colocar-se diante dos desafios existenciais. Minimamente traduz-se por mais presença divina na forma de ser humano. Mais sentimentos do céu, que longe de se agregarem aos afetos e desejos mundanos, substituem-nos, porque o apóstolo deixou claro em nosso texto: esta é uma operação que ocorre com o rosto descoberto, ou seja, longe da realidade do judaísmo antigo, na observância restrita da Lei, onde o rosto encoberto servia para esconder o que perdia força. Não. É com a cara limpa, sem hipocrisia, que vivemos e reagimos à transformação de natureza que se opera em nós.

Este é o processo: cada vez menos da natureza decaída, e cada vez mais natureza divina, a um só tempo correspondendo a duas figuras de linguagem de que se serve o apóstolo dos gentios: “Cristo em vós” e: “Bom perfume de Cristo”.

E onde se pode perceber esses “sintomas” de vida transformada, em primeiro plano? Seria numa postura litúrgica, ritualística, ou no uso da liberdade que a presença do Espírito traduz? Sim, nela. Evidenciando-se na vida pública, doméstica, cúltica e demais, denunciada pela aspirações elevadas que se revelam nas buscas pelo que é do Alto; na desistência do que não edifica; na linguagem que evidencia aquilo de que está cheio o coração, e este, antes de tudo, grato e adorador. Livre de artificialismos para se sentir e entender gente. Sem necessidade de outro “combustível” para existir, a não ser Cristo e Sua glória.

Vale lembrar um santo apelo: “Transformem-se pela renovação do seu entendimento” – Romanos 12:2.

A Natureza dos Homens do Reino

I Samuel 16: 14-23; 18: 8-12;19:8-9; 26: 7-12.

Onde reside o grande diferenciador entre os que pertencem a Deus e os que nada querem com Ele? A participação em cultos? Conhecer a Bíblia? A certeza de salvação? O evangeliquês?

Ou é uma questão mais interior, de natureza transformada?

A natureza humana é revelada pela personalidade de cada um. O coração é o grande diferencial, como diz Provérbios: “Do coração procedem as saídas  da vida”. Por isso Jesus disse que “a boca fala do que está cheio o coração.”

O Senhor delimitou a diferença estabelecendo-a na comparação entre duas naturezas: lobos e cordeiros. Eis o texto: Lucas 10:3 – “Vão! Eu os estou enviando como cordeiros entre lobos”.

Ou temos a natureza de cordeiros ou a de lobos. Jesus nos mandou aprender com Ele, o Cordeiro de Deus. Antes de enviar Seus discípulos, chamou-os para estarem com ele.

Quero ilustrar esse grande diferenciador com a história de Davi e Saul que nossos textos registram. Eles ilustram perfeitamente essa aguda diferença pelo fato de serem os dois duas pessoas escolhidas por Deus e revelarem suas diferenças habitando num mesmo ambiente.

Chama nossa atenção o fato de os dois serem guerreiros e valentes, mas um trazia em si a natureza de cordeiro e o outro, de lobo.

O diferenciador maior está no uso que fazem do que têm à mão em casa.  O cordeiro Daví carrega uma harpa, e a usa, tocando para amansar e aliviar.

O lobo Saul carrega uma lança e a usa para ferir, encravar na parede e matar.

E então começa um jogo de naturezas diferenciadas:

  1. O lobo quer armar o cordeiro. Este não consegue usar as armas daquele.
  2. Quando o lobo ataca com a lança, o cordeiro toca a harpa para amansá-lo.
  3. Se não consegue, foge, mas não devolve a lança. Por que? Porque cordeiros não entendem de lança, só lobos a usam; porque se devolver, vai rearmar o lobo.
  4. Por fim, tocando harpa e saindo de cena, o cordeiro consegue desarmar o lobo. 26: 7-12.

Preciso lembrar o que Deus disse a respeito deste cordeiro? É bastante ler Atos 13:22 – “Depois de rejeitar Saul, levantou-lhes Davi como rei, sobre quem testemunhou: ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração; ele fará tudo o que for da minha vontade’.”

O que falam nossas mãos? O que carregam? Harpa ou lança? Dessa diferença depende saber a natureza que nos mobiliza: cordeiros ou lobos. Nunca é tarde para depormos nossas armas, mudarmos de instrumentos, e afinar nossas harpas pelo Espírito Santo de Deus.

Nossa história mostra que a diferença básica entre Davi e Saul é que Deus era com Davi, e em Saul operava um “espírito arruinador” ou maligno. A Bíblia afirma que nós temos o Espírito de Cristo. Devemos viver guiados por Ele, sob Seu domínio e controle, filhos do Cordeiro.

Um recado, a propósito: Nestes dias de tanto embate político desde as últimas eleições, tenho visto pastores e crentes outros, aferrados numa luta renhida partidária e ideológica, dispersando lanças, mais que farpas, de ambos os polos, revelando uma natureza que de cordeiro nada tem. Deplorável!

Liturgia de Servo | Atos de Discípulos (12)

Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: “Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra”. Tal proposta agradou a todos. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia. Apresentaram esses homens aos apóstolos, os quais oraram e lhes impuseram as mãos. Assim, a palavra de Deus se espalhava. Crescia rapidamente o número de discípulos em Jerusalém; também um grande número de sacerdotes obedecia à fé.” – Atos 6:1-7

Estêvão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas, Nicolau. Sete homens, para prestar serviço de assistência social a mais de cinco mil pessoas. Muito mais. Inauguraram o que padronizou-se e tradicionalizou-se nas igrejas no passar dos séculos, como diaconia, ou corpo de diáconos. Paulo mesmo, quando organizava as igrejas por ele inauguradas onde passava, preocupava-se a dar seguras orientações quanto a esse ministério que não podia faltar na igreja estabelecida.

Hoje encontramos igrejas com menos de duzentos participantes, no entorno de  um corpo diaconal formado muitas vezes por uma dezena de diáconos. Penso na objetividade do serviço na igreja de Jerusalém, fazendo inevitável comparação. Milhares de pessoas assistidas em suas necessidades diárias por sete homens apenas? Eles davam conta? Era bastante? O serviço era pouco? (Entre milhares…). O texto expõe que o trabalho deles era servir às mesas (está no plural) e para suprir as famílias em suas necessidades básicas. Diariamente.

Mas o que me chama a atenção é o critério adotado para eleger esses sete. E o fato de que dentre eles, dois sobressaíram e fizeram história na igreja através de seus testemunhos: Estêvão e Filipe.

A escolha seria feita pelo povo debaixo de um processo dedutivo de observação. Seria necessário nomear alguns (quantos? Eles delimitaram, e por isso o fruto da

observação resultou em sete nomes, apenas). E o que deveriam observar? Que para servir no corpo de Cristo, os homens só poderiam ser escolhidos dentre os que apresentassem este trinômio de virtudes: bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Não bastava bom testemunho? Não. Impossível dar bom testemunho sem estar cheio do Espírito Santo, pois Jesus havia dito (Atos 1:8)  que para ser testemunha era necessário estar cheio do Espírito. Outro tanto, estar cheio do Espírito precisa estar cingido à sabedoria, porque o poder espiritual desprovido dela, transforma o carisma em mau caráter. E falta de sabedoria jamais atesta bom testemunho, logo o trinômio era um cordão de três dobras indissociáveis.

Isso tudo para servir às mesas. Penso no que a Igreja deveria esperar dos que para além destes, tinham de manter o encargo do “ministério da Palavra de Deus!” Penso comigo, com temor e sem sarcasmo, apenas compartilhando um pensamento, que se as igrejas desta geração pudessem guarnecer-se de ministradores da Palavra sob tais critérios, que tipo de diaconia elas teriam? Porque a mim parece que os valores para a liturgia foram estabelecidos nesta ordem: a partir daqueles para esses.

E que diáconos! Um morre como mártir, vendo o céu se abrir e contemplando ali o Senhor Jesus! O outro é visto tempos depois, sendo levado pelo Espírito de Deus como instrumento de um grande avivamento na cidade de Samaria, e em seguida descendo até Gaza onde batiza um ministro do governo da Etiópia. Imagino um homem desses em nossos púlpitos. Imagino os que por ele foram servidos às mesas, na comunidade de Jerusalém, que talvez sequer se apercebessem que naquele ofício simples de distribuir víveres, estava o embrião de um evangelista a quem Deus usaria para fazer… o quê?: Servir no ministério da Palavra de Deus.

Em resumo, penso com meus botões, que, o critério de escolha tinha de ser de tal quilate, porque tanto quanto nos ministrantes da Palavra estava a verve do servir, quanto no serviço diaconal estava a verve do ministrar a Palavra. Porque Deus vê os serviços no mesmo nível. É liturgia, serviço ao Corpo de Cristo. Porque o Espírito é o Mesmo. Quem muda é o homem.

Deus “Tateado” | Atos De Discípulos (11)

O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas. De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’. “Assim, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem. No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu  provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. – Atos 17:24-31

Este extraordinário discurso de Paulo no areópago de Atenas tem o valor de um credo, uma bula confessional. Há nele uma boa quantidade de assertivas, que revela a natureza e o propósito do Deus Eterno, capaz de admirar qualquer inquiridor sincero das coisas espirituais. Deter-nos sobre cada uma é atraente,  mas tarefa que exige muito espaço. Uma, no entanto, merece um destaque especial pelo que traz de incomum. Repare: “Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós”. Primeiro, importa salientar a que ele se refere por “Deus fez isso”. Ele afirmou: Deus fez o mundo e todos os povos a partir de um só, tendo determinado tempo e lugares exatos em que deveriam habitar. E então, depois de dizer o que Deus fez, afirma por que o fez: para que esses homens O buscassem. E nos surpreende com a sentença: “talvez, tateando, pudessem encontrá-Lo…”

Ora, importa considerar que o apóstolo não está afirmando que Deus possa ser encontrado por meio de um apalpar, tatear, como quem anda em trevas e não consegue ver o que procura. Pois afirma categoricamente que Deus está perto, à mão, para ser achado por quem O busque. O “talvez” ou “ainda que”, de que se serve o apóstolo, tem por finalidade que os buscadores de Deus podem ter tal pretensão, mas o Deus Eterno está acessível, não brinca de “esconde-esconde”.

É o homem, como aqueles curiosos filósofos de Atenas, quem opta por tatear, para estabelecer uma busca em seus próprios termos. Sabemos que o Deus Eterno nos enviou Seu Filho como o Caminho, e a Porta de livre acesso à Sua presença e glória. Mas em geral as pessoas preferem criar atalhos. Um adágio popular assume que “todos os caminhos levam a Roma”, para significar também que “todas as religiões levam a Deus”. Atalhos não aproximam ninguém de Deus. Antes afastam.

Por conta disso, destaco um fato histórico de uma buscadora, nos dias de Cristo que pretendeu se aproximar Dele, tateando. É a história narrada nos três primeiros evangelhos, a respeito da mulher que sofria havia doze anos, de uma hemorragia que nenhum médico curava. A narrativa do evangelho de Marcos diz que ela ouviu falar de Jesus, e decidiu que podia chegar até Ele, tocá-Lo, ser curada, e fazer tudo isso ocultamente, sem se expor. Decide que vai chegar por detrás Dele, tocar na orla de Suas vestes, lá nas franjas, abaixadinha, para não ser percebida. Tanto que o fez, e pensou ter saído incógnita. Ninguém a viu aproximar-se. Ela literalmente tateou até encostar em Sua roupa. Não tocou em nenhuma parte do Seu corpo. Na roupa, e no extremo dela. Mas isso foi suficiente para que Ele dissesse: “Alguém me tocou”. O que nos surpreende é que tal afirmação foi precedida de uma pergunta: “Quem me tocou?” O texto continua e afirma que a mulher ao ver que não podia manter-se escondida, se expôs. Ora, o Jesus que aqui pergunta “Quem?”, é o mesmo que diz a Natanael quando o encontra: “Eis aí um israelita sem dolo” e quando o moço se espanta perguntando: “De onde me conheces?” Como quem diz: “Nunca nos vimos antes”, Jesus o surpreende dizendo: “Antes que Felipe te achasse, eu te vi debaixo da figueira”.  É  este mesmo Jesus com tal poder onisciente, que agora questiona: “Quem me tocou?”. Somos de imediato levados a comparar esta cena com aquela dos primórdios, após a queda de Adão , em que o Deus Onisciente lhe pergunta: “Onde estás?”. Nosso conhecimento dos atributos divinos não nos permite ver conteúdo real para esta questão. Ela pretende provocar uma resposta. A mesma coisa se passa entre Jesus e aquela senhora enferma. Ele a força a expor-se, e feito isto, aproximar-Se. E mais: a partir do momento em que ela se apresenta, expõe-se, Ele tanto Se aproxima quanto a aproxima de Si, ao chamá-la carinhosamente de “filha”. Este é um termo raro no trato de Jesus com os Seus.

Este fato histórico ilustra para nós, minimamente, quanto é verdadeira a afirmação de Paulo de que o Senhor está perto dos que O buscam, mas os quer procurando-O abertamente, sem subterfúgios, sem terceirizar a busca, fora de seus termos racionais, mas segundo Seus meios revelacionais. Daí Ele não ter

deixado aquela mulher sair, levando sua cura, sob o risco de fundar uma nova  seita que apregoasse a possibilidade de achá-Lo e segui-Lo pelo tato, às apalpadelas, segundo seu imaginário ditando meios à força das necessidades, de forma a pretender que bastaria chegar escondida, tocar em uma relíquia que O represente, e sair incógnito, sem nenhum envolvimento pessoal e direto. Não. O Filho de Deus queria revelar àquela mulher que não basta chegar perto e se servir, e sair satisfeita com o resultado de suas tentativas de aproximação. Ele revelou  por fim, que Quem quer tocá-Lo deve vê-Lo de frente, expor-se, porque Seu propósito é fazer dos buscadores filhos diletos, numa relação pessoal e aberta  com Ele, onde se possa dizer, muito mais que “se tão somente eu tocar em Sua veste”, um “Aqui estou. Sou eu. Eu mesmo, que te busco e quero ser visto por Ti”. Sem tatear, mas diretamente, diálogo aberto e franco. Face a face, usando a mesma fé para dizer sem medo: Preciso de Ti.

Por fim, aprendemos que quem pretenda se achegar tocando naquilo que O representa, apenas tateia. Limita-se a ser visto por Ele como um pronome:  “quem”; “alguém”. Mas os que O buscam abertamente e a Ele se expõem, são surpreendidos por uma solene declaração: “Filho!”

Sementeira da Vida

Semeiem a retidão para si, colham o fruto da lealdade e façam sulcos no seu solo não arado; pois é hora de buscar o Senhor, até que ele venha e faça chover justiça sobre vocês. Mas vocês plantaram a impiedade, colheram o mal e comeram o  fruto do engano…” – Oseias 10: 12-13.

Sempre achei por demais significativa a alegoria criada por Paulo em Gálatas 6:7, trabalhando com a ideia de causa e efeito, ali exposta na forma de semear e  segar. E mais me chama a atenção o fato dela trazer uma advertência agregada: “de Deus não se zomba”, como se para enfatizar a assertiva como sendo uma lei irreversível sobre a qual se debruçam a justiça e a honra de Deus.

Todos os nossos movimentos na vida, sem exceção de um sequer, redundam nesse binômio de viés cartesiano: semear e segar. Do momento em que despertamos no dia, até cessarem nossas atividades e pensamentos, esse exercício está em plena funcionalidade. Até mesmo no ócio, cumprimos a lei de causa e efeito. Das coisas que perpetramos a nosso favor, ao que produzimos em favor de outros, a lei inexorável do semear e colher está em ação. É tal que nela não cabem justificativas nem desculpas que amenizem seus efeitos. Lamento por aqueles que dela não se apercebem, e ainda dos que pretendem que por sermos filhos da graça, estamos livres dos efeitos de sua mecânica. Eis por que, aconselhando quanto a semear bens, Paulo dilata a alegoria, trabalhando com outra assertiva lógica, dizendo que colheremos na proporção de nossa sementeira: se semearmos pouco, pouco colheremos. Se semearmos muito, segaremos muito. Importante ressaltar que, conquanto o apóstolo no texto de II Coríntios 9:6 aluda a dinheiro, a lei do semear e segar vale para todo e qualquer tipo de semente.

Por conta disto, a Palavra de Deus exorta conosco com  advertências sábias, como vistas em Oséias , no texto acima, ao qual acrescentamos ainda Oseias 8:7 e Jó 4:8, respectivamente: “Porque semeiam ventos e segarão tormentas;…”; “Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam.” Jó 4:8.

Posto isto, e imbuídos do temor que a Palavra de Deus produz nos sábios que creem, convém reflexionar: Quais sementes devo priorizar como cristão para abençoar e ser abençoado?

O Senhor Jesus começou Seus ensinos nos mostrando as sementes que  trazemos conosco, por obra do Seu Espírito, e que fazemos bem em cuidar de lançá-las em nossa caminhada na vida, em todos os seus âmbitos e interrelacionamentos. Vamos a elas:

Mateus 5: 3-9 : “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem- aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”

1- Sementes de humildade. A colheita: O Reino dos céus
2- Sementes de lágrimas. A colheita: Consolação
3- Sementes de mansidão. A colheita: Conquista de espaço, liberdade
4- Sementes de fome e sede de justiça A colheita: Saciedade, plenitude.
5- Sementes de misericórdia A colheita: Misericórdia
6- Sementes de santificação A colheita: Ver a Deus, comunhão com
7- Sementes de Paz A colheita: Identificação com Deus.

Se você atentar bem, elas obedecem a uma espécie de ordem, onde uma  favorece o exercício da outra, cumprindo uma interdependência. A humildade implica em arrependimento, reconhecer-se pecador; o efeito inevitável é lágrimas do despojamento que esse “descer” de si mesmo causa. Abre-se espaço para  uma nova forma de ser e reagir ante os desafios da vida: mansidão. E aqui a identificação com o Senhor Jesus começa a alçar vôo (“Aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração”). A vida agora quer alimentar-se de outros insumos: justiça, retidão. Inevitavelmente a misericórdia se torna a  nova ferramenta nesse processo. Uma vida cujas sementes têm esse caráter, já está separada do todo no seu devir: santifica-se, como quem limpa o coração, e tudo o que dela advém se revela fruto de paz.

Veja bem: nenhuma semente destas, uma vez lançada, deixará de dar o fruto que a ela se segue, na colheita, porque Aquele que prometeu é fiel para cumprir.

Mas vale também lembrar que cada um de nós traz sementes próprias de nossa natureza adâmica: ira, maledicência, egoísmo, cobiça, infidelidade, injustiça,  e uma lista interminável delas, que uma a uma, se não destruída, cairá no solo e brotará, com certeza. E então, mais uma vez cabe lembrar a exortação: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá. Quem semeia para a sua carne da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito do Espírito colherá a vida eterna.” Gálatas 6: 7 e 8.

Se Esta Obra For De Deus… | Atos De Discípulos (10)

Então o sumo sacerdote e todos os seus companheiros, membros do partido dos saduceus, ficaram cheios de inveja. Por isso, mandaram prender os apóstolos, colocando-os numa prisão pública. Mas durante a noite um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere, levou-os para fora e disse: “Dirijam-se ao templo e relatem  ao povo toda a mensagem desta Vida”. Ao amanhecer, eles entraram no pátio do templo, como haviam sido instruídos, e começaram a ensinar o povo. Quando chegaram o sumo sacerdote e os seus companheiros, convocaram o Sinédrio— toda a assembleia dos líderes religiosos de Israel—e mandaram buscar os apóstolos na prisão. Todavia, ao chegarem à prisão, os guardas não os encontraram ali. Então, voltaram e relataram: “Encontramos a prisão trancada com toda a segurança, com os guardas diante das portas; mas, quando as abrimos   não havia ninguém”…Nesse momento chegou alguém e disse: “Os homens que os senhores puseram na prisão estão no pátio do templo, ensinando o povo”…Tendo levado os apóstolos, apresentaram-nos ao Sinédrio para serem interrogados pelo sumo sacerdote, que lhes disse: “Demos ordens expressas a vocês para que não ensinassem neste nome. Todavia, vocês encheram Jerusalém com sua doutrina e nos querem tornar culpados do sangue desse homem”. Pedro e os outros apóstolos responderam: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens! O Deus dos nossos antepassados ressuscitou Jesus, a quem os senhores mataram, suspendendo-o num madeiro. Deus o exaltou, elevando-o à sua direita como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados. Nós somos testemunhas destas coisas, bem como o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que lhe obedecem”. Ouvindo isso, eles ficaram furiosos e queriam matá-los. Mas um fariseu chamado Gamaliel, mestre da lei, respeitado por todo o povo, levantou-se no Sinédrio e pediu que os homens fossem retirados por um momento. Então lhes disse: “Israelitas, considerem cuidadosamente o que pretendem fazer a esses homens…Portanto, neste caso eu os aconselho: deixem esses homens em paz e soltem-nos. Se o propósito ou atividade deles for de origem humana, fracassará; se proceder de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, pois se acharão lutando contra Deus”. Eles foram convencidos pelo discurso de Gamaliel.”- Atos 5:17-18, 20-35, 38-42.

Este é o trecho em que somos pela primeira vez apresentados a Gamaliel. Vamos ouvir falar dele de novo, por Paulo, muitos anos mais tarde, quando o aponta  como seu principal mestre entre os fariseus, e o faz, enfatizando a honra usufruída

por ter sido seu discípulo (Atos 22:3). Neste quesito percebemos no entanto, que Paulo não foi bom aluno, pois a natureza e a filosofia de Gamaliel eram: “perseguição não”, e o Saulo que surge após os anos de aprendizado é o principal perseguidor da Igreja. Mas, felizmente, mau discípulo de Gamaliel como Saulo, agora como o Paulo, ele veio a tornar-se um dos melhores discípulos do Senhor Jesus.

Mas nossa ênfase está no poder do discurso de Gamaliel. Em que ele pode ser percebido como poderosamente persuasivo? No fato de dobrar a cerviz dos religiosos de Jerusalém, que estava endurecida por ódio maligno no coração. Algumas coisas extraordinárias aconteceram entre eles, milagres de impactante evidência, como a soltura misteriosa dos apóstolos, mas eles resistiram como cegos e surdos à manifestação do poder de Deus. Os apóstolos, uma vez postos no cárcere por aquela gente, e fortemente guardados e vigiados em sua prisão, são extraordinariamente libertos dela pelo agir de anjos. A cena chega mesmo a ter resquícios de humor quando a vemos em seus detalhes, porque as autoridades religiosas os mandaram prender e foram para casa, sob o compromisso de ter como primeira pauta de sua reunião na manhã seguinte, o confronto e julgamento dos presos. Enviam, por conseguinte, os guardas para buscarem os prisioneiros  na cadeia, que em lá chegando, ordenam às sentinelas que os retirem para levá- los ao Sinédrio. E as sentinelas voltam de mãos vazias. O relato é divertido: “As portas estavam trancadas; as sentinelas estavam em seus postos, mas do lado de dentro não havia ninguém.” Em outras palavras, presos mesmos eram os carcereiros que guardaram o cárcere vazio a noite inteira. Em meio ao relato chega alguém e diz: “Os presos estão soltos. E lá no templo, falando como ontem”.

Houve um interregno em que eles saindo da cadeia, passaram juntos a noite, esperando o dia amanhecer para cumprirem a ordem angélica de ir ao Templo  falar “as coisas desta Vida”. Acredito que juntos celebravam o milagre, ansiando pela manhã de serviço.

Feita esta digressão, atentemos ao fato de que o ódio no coração daquela gente “santa” os impediu de verem o milagre e temerem. Impediu-os de crer no  eloquente discurso de Pedro que lhes dizia: “O Deus dos nossos antepassados ressuscitou Jesus, a quem os senhores mataram, suspendendo-o num madeiro. Deus o exaltou, elevando-o à sua direita como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados”. Gosto particularmente da ênfase: “Deus o exaltou…para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados”. Acredito que Calvino se empolgou com esta ênfase aqui.

Mas aquela gente capitulou não ao milagre, nem à pregação de Pedro. Foi ao discurso simples de Gamaliel. O texto diz que eles ouviram e atenderam. O discurso se resumiu em dizer, trocando em miúdos: “Dêem um tempo para ver. Se for de Deus, prevalecerá. Se não for, cessará. Cuidado, porque se for de Deus, vocês descobrirão que lutaram contra ele”.

Aí está uma verdade que mais de dois mil anos de pregação cristã atestam. De grupos a indivíduos, tudo que procede de Deus, vence os desafios e o tempo. Medra, mesmo a partir de um único grão, e cresce. Algumas vezes a colheita é feita após longa data e por outros que não a semearam. De igual forma, em sua sabedoria Gamaliel afirmou outra assertiva: o que não foi por Deus estabelecido, perece, finda, cessa, antes de frutificar. Mas com as assertivas, o mestre fariseu também fez uma advertência: é possível lutar contra uma obra e obreiros de Deus. Todavia se a obra procede Dele, toda luta humana será achada contra Ele. Foi exatamente o que Saulo, discípulo dele, ouviu e experimentou em sua pele, quando indo a Damasco: “Por que me persegues?”.

Penso por fim, que Gamaliel deu seu sábio parecer, por ter feito a observação que o ódio religioso não deixou que os demais percebessem. Houve um livramento milagroso, logo Deus estava naquele negócio. Também acredito que Gamaliel atentou à pregação de Pedro, e temeu. Se assim foi, o Gamaliel que discursou após Pedro, já falou a favor do Reino. Você pensa como eu, que após ouvir a pregação ele possa ter crido? Sabemos, pelo menos, que seu discurso comprova- se como verdade: quando a obra procede de Deus, prevalece, porque é Deus Quem a realiza.

Olhai os Lírios do Campo

A frase, extraída de uma antiga tradução da Bíblia em português, foi cunhada por Érico Veríssimo, como título de seu mais famoso romance lançado em 1938. Ela foi originalmente ditada pelo Senhor Jesus, como encontramos em Mateus 6:28. Em versões mais atualizadas, como a NVI, foi impressa na forma: “…Vejam como crescem os lírios do campo…”, conotando exclamação exortativa, onde o Filho de Deus assevera que o cuidado do Pai Celestial, em Seu fino labor ao criar e preservar os lírios, se agiganta a favor dos que nEle confiam, capaz assim de prover roupa, cobertura, que pode superar à de Salomão, feita à força do poder de sua riqueza.

Embora num primeiro momento, dentro do contexto do discurso registrado em Mateus 6, procuremos na exortação apenas o conforto da promessa que nos assegura cuidado divino, há muito mais que isso na proposta, daí ela assumir caráter exortativo. Até mesmo por conta da comparação entre o lírio e o vestuário do rei Salomão, onde Jesus sobrepõe aquele a este, a temática é a exortação contra a ansiedade, que a complexidade da vida, como engendrada pelos  homens, produz. Outro tanto, exorta à simplicidade onde reside descanso e  beleza. Veríssimo captou esta mensagem e desenvolveu seu romance em torno da vida de seu personagem que se perdeu nesse caminho, perdeu o sentido de simplicidade da vida, e perdeu-se na trama de suas  complexidades  ditadas à força de cobiça e vaidade, os dois grandes inimigos da simplicidade e outro tanto fomentadores da sobrecarga existencial.

Sei de uma coisa: Hoje esta exortação imprescindível do Filho de Deus enfrenta resistência férrea, a começar pelo fato de que os que vivem ansiosos pelas sobrecargas existenciais em torno das quais projetaram e procuraram desenvolver seu devir, não têm espaço cronológico para a contemplação, e tanto menos  espaço geográfico para a observação, porque lhes faltam campos e outro tanto os lírios.

Pela graça de Deus estou no extremo oposto. Habito num cenário que convida à contemplação. Quando as pressões da mídia consumista através de seus sedutores tentáculos começam a pretender me dizer que “tenho de ter” e que é indispensável “adquirir”; quando o contexto social começa infectar ditando que as grifes ditam os valores, posso olhar os lírios do campo, e me vejo neles, porque no meu contexto, eles florescem à beira de rios, em pequenos brejos.

Despontam alvinitentes em meio ao lodaçal. Sobem em direção ao sol e projetam seus cálices transbordantes de atraente perfume, muito acima do lodo e degradação. Então vejo sua beleza natural, não forjada por homens (sem grife), espontânea e gratuita. E lembro que o Filho de Deus me disse: “O Pai os fez e deles cuida. Você importa mais que eles, e Ele não faz menos a seu favor”.

A simplicidade da vida não tem preço. A sua complexidade, caminhos inventados, tem beleza fútil, cara demais, em alguns casos pagável a custo de altas dívidas, e que por fim cobra a conta final do desprazer e do “correr atrás do vento”.

Filhos de Deus, olhem os lírios no campo! Deixem que Deus os use para falar aos seus sobrecarregados corações. Saiam do asfalto. Pisem no chão de terra. Vivam! Como servos, sem pretensão de ser reis.

Sombra Eficaz | Atos De Discípulos (9)

Os apóstolos realizavam muitos sinais e maravilhas no meio do povo. Todos os que creram costumavam reunir-se no Pórtico de Salomão. Dos demais, ninguém ousava juntar-se a eles, embora o povo os tivesse em alto conceito. Em número cada vez maior, homens e mulheres criam no Senhor e lhes eram acrescentados, de modo que o povo também levava os doentes às ruas e os colocava em camas e macas, para que pelo menos a sombra de Pedro se projetasse sobre alguns, enquanto ele passava. Afluíam também multidões das cidades próximas a Jerusalém, trazendo seus doentes e os que eram atormentados por espíritos imundos; e todos eram curados.” – Atos 5:12-16.

A narrativa de Lucas está cheia de evidente entusiasmo. Não era para menos. Havia um alvoroço benéfico, porque agora, os milagres antes concentrados na Pessoa de Jesus, multiplicavam-se através dos apóstolos de forma incessante e num crescendo contínuo. E então, tanto quanto nos dias de Jesus as multidões afluíam ávidas por se beneficiarem dos milagres de cura, agora não menos. Mas depressa alguns excessos são criados pelo povo, que não se comportou de forma semelhante nos dias de Cristo. O povo começava a criar suas próprias fantasias a respeito dos eventos incomuns que ocorriam. A ênfase estava no milagre das curas de enfermidades. É sui gêneris o relato: “O povo também levava os doentes às ruas e os colocava em camas e macas, para que pelo menos a sombra de Pedro se projetasse sobre alguns, enquanto ele passava”.

Uma leitura menos atenta desta narrativa, pode levar alguém a concluir que essa proposta surtia efeito, que a pretendida cura ocorria por essa via. O texto não afirma isso. Antes faz recair sobre o povo e não sobre Pedro ou os demais apóstolos, a hipótese do benefício almejado. A conclusão do versículo 16 só se refere ao versículo 16. Não diz respeito ao v.15. O fato do povo pretender que a sombra de Pedro se projetasse sobre enfermos colocados em macas no entorno de sua passagem, não implica em resposta positiva ou benéfica para eles. Sequer o texto aventa essa possibilidade. Era uma superstição popular criada à força da necessidade e do entusiasmo. E a ênfase dessa expectativa correr em direção à pessoa de Pedro, o decano do grupo, só faz atestar que não passava de superstição popular ainda que forjada sob impulsos piedosos.

Lucas descobriu a motivação do povo, e eu penso no que sentiria Pedro ao ser informado de tal expectativa!

Mas, em contrapartida, sempre me sensibilizei por esse jogo de palavras que este único ponto da narrativa encerra. Quando Lucas escreve: “Ao menos a sombra de Pedro se projetasse sobre alguns”, ocorre-me que aquele desejo popular aponta para um compromisso que envolve todos nós, discípulos da atualidade. A sombra projetada traduz a ideia de uma influência que alcança quem sob ela se coloca. Conquanto seja irreal a perspectiva de uma sombra física produzir cura, isso não impede que sua figuração, ou imagem figurada, seja eficaz. Todos nós projetamos sombra, se estamos sob a luz. E a Igreja que é luz, nas palavras de Cristo, luz do mundo, outro tanto o é, e só o é, porque está colocada debaixo dEle, que é a verdadeira luz: “Eu sou a luz do mundo” (João 8:12 e 9:5). E então, projetamos sombra. A sombra refrigera, e também delineia em seu espectro, a identificação do objeto real. Quanto mais próxima à luz, mais nítida e melhor definida ela é.

Nossa sombra projetada, figuradamente pode ser muito mais eficaz do que o pretendido pelo povo nas ruas de Jerusalém quanto à sombra física de Pedro. A sombra projeta-se de nós e cobre outros. Foi dito pelo Senhor que “o justo é um guia para o seu companheiro”, e é onde eu vejo nossa sombra projetando-se de forma positiva e eficaz sobre nossos circundantes, aqueles que interagem conosco no cotidiano.

É incomum sermos procurados pela possibilidade de uma influência eficaz, mas sempre que isso ocorre, o episódio narrado em Atos 5 se repete em nosso devir de discípulos do Senhor.

Foi Pedro quem nos recomendou que devemos estar sempre preparados para responder a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós. Com isso ele nos fala da possibilidade dessa busca consciente da parte de outros, pela projeção de nossa sombra sobre suas vidas. E toda vez que essa procura acontece, é bastante provável que nosso testemunho cristão esteja pontuando algo próximo àquilo que há de redundar na glória de Deus através de nossas vidas.

A Contra-Corrente | Atos De Discípulos (8)

José, um levita de Chipre a quem os apóstolos deram o nome de Barnabé, que significa “encorajador”, vendeu um campo que possuía, trouxe o dinheiro e o colocou aos pés dos apóstolos. –Atos 4:31(ARC)

Um homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, também vendeu uma propriedade. Ele reteve parte do dinheiro para si, sabendo disso também sua mulher; e o restante levou e colocou aos pés dos apóstolos. Então perguntou Pedro: “Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para você uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade? Ela não pertencia a você? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus”. Ouvindo isso, Ananias caiu morto. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido. Então os moços vieram, envolveram seu corpo, levaram-no para fora e o sepultaram. Cerca de três horas mais tarde, entrou sua mulher, sem saber o que havia acontecido. Pedro lhe perguntou: “Diga-me, foi esse o preço que vocês conseguiram pela propriedade?” Respondeu ela: “Sim, foi esse mesmo”. Pedro lhe disse: “Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Veja! Estão à porta os pés dos que sepultaram seu marido, e eles a levarão também”. Naquele mesmo instante, ela caiu morta aos pés dele. Então os moços entraram e, encontrando-a morta, levaram-na e a sepultaram ao lado de seu marido. E grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos.”- Atos 5:1-11 NVI

Um homem e um casal são postos em evidência para formarem contraste de comportamento e caráter: Barnabé e Ananias com sua esposa Safira. O nome de Barnabé é colocado no final da narrativa que registra o espírito e comportamento da igreja em seu nascedouro. Ele é destacado para ilustrar o que estava sendo  dito quanto ao desprendimento e generosidade do povo a favor de todo o Corpo,   a Igreja. Em contrapartida desponta-se o casal como uma célula maligna dentro daquele corpo, contrariando e quebrando todo o espírito. Indo na contramão do fluxo do Espírito, para produzir o culto aparente que destaca o cultuador, em lugar de Quem é cultuado.

Destacam-se também como promitentes doadores, mas a ação é denunciada como falsa, apenas uma aparência de piedade, e para se fazerem passar como

desprendidos, generosos e participativos, mentem, usam de engano. O juízo de Deus e a forma como ocorreu, surpreendem. Eles não foram apenas denunciados e repreendidos. Foram extirpados do grupo. A pergunta que se levanta hoje, quando temos tanta leniência no trato com comportamentos assemelhados na igreja é: o que a atitude do casal representou, de fato, que exigiu tão drástico juízo? O nome de Barnabé não entrou aqui à toa.

Pelo discurso de Pedro vemos que ninguém estava obrigado a contribuir, menos ainda a se desfazer de tudo a favor de todos. Era uma ação exclusiva do Espírito Santo nos corações, e isso se traduzia em unidade. Barnabé era rico e se desprendeu de tudo. O casal não era rico, mas foi miserável e enganador, quebrando a unidade. A unidade quebrada gera interrupção do fluxo do poder de Deus, contraria o espírito de Corpo que define a Igreja. Faz-nos pensar que Deus não tolera a falsa promessa, o falso voto.

Tentar entender ou achar uma justificativa plausível para a fatalidade ali ocorrida, pode nos levar a sérios equívocos ou a uma pretensa necessidade de justificar a ira divina. Sequer sabemos se os dois foram fulminados por efeito de ira divina. Pode ter sido a reação da justiça de Deus. Mas podemos alinhavar algumas coisas:

Tal punição numa mais ocorreu, mesmo em face de pecados escandalosos como  o descrito em I Coríntios 5:1. É significativo que essas mortes não colheram Pedro de surpresa. Após o incidente com Ananias, ele estava seguro de que o mesmo juízo ou ira, cairia sobre a mulher, Safira.

Também é significativo apontar que essas fulminações aconteceram nos mesmos moldes dos milagres anteriores, produzindo os mesmos efeitos: o temor, que o poder de Deus despertava.

Não menos curioso é o fato de que a morte vem como punição, num contexto em que até hoje parece contradizer nosso entendimento da graça: perdoadora  sempre. E os que vivem e pregam a graça barata, preferem entender que ela perdoa mesmo quando não há arrependimento. Ledo engano!

Penso, por fim, que a morte do casal foi emblemática: morreram os dois, não exatamente por conta do engano perpetrado, ou mentira ou pela hipocrisia espiritual. Não foi tanto a natureza do erro, mas seu significado: era um fogo estranho oferecido no altar, com a pretensão de ser o mesmo fogo que Deus havia acendido pelo Seu Espírito. Mas apenas fingia ser o fluxo natural do agir do Espírito Santo na Igreja. E tanto quanto os filhos de Arão no passado, eles  também foram fulminados, para que Deus advertisse os filhos da graça quanto a saber que, fogo estranho no serviço da fé, fruto de engano, estereótipo de  “piedade com eficácia negada”, recebe dEle fulminação. Fulminação que  se  traduz em mortes invisíveis, não percebidas nem sentidas de imediato, mas ainda assim por Ele operadas e para Ele visíveis e reais, e com desdobramento futuro, previsto por Jesus quando disse: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!”- Mateus 7:21-23.

E assim, o Senhor da Igreja continua cumprindo a Palavra do Salmo 101:7(ARC) – “O que usa de engano não ficará dentro da minha casa…”

A Voz que Opera por Dentro | Atos De Discípulos (7)

Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus. Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.”- Atos 4:31-35.

Todos os que pretendem estabelecer pontos doutrinários ou dogmas sobre o texto de Atos dos Apóstolos (que não tem esse propósito), confundem-se ou cometem erros sérios. O livro tem o compromisso de ser um documento histórico, narrando a vida da igreja nos seus primeiros dias a partir de sua manifestação visível no contexto da sociedade da época. Por isso quando lemos textos como este acima, nós, militantes da Igreja de Cristo desta geração, sentimos uma sensação de vazio, de perda de posição no exercício da vida cristã em comunidade, porque nos comparamos ao comportamento daqueles irmãos e percebemos como estamos defasados não só da realização quanto da possibilidade dela em nosso contexto moderno. Por conta disso, houve alguns, e ainda os há, que tiveram a pretensão de reproduzir essa realidade da koinonia aqui descrita, tentando criar um equivalente a comunismo eclesiástico, ao qual deram nomes pomposos, sobre o que escreveram livros volumosos, em princípio atraentes, para provarem no fim das contas que o que faziam não passou de utopia desnecessária. E o fizeram com escopo doutrinário.

O equívoco se deu na forma, na tentativa de copiar a forma, que distante de nós no tempo, tornou-se inviável na práxis da igreja que explodiu em multidões confinadas em suntuosos espaços de culto, alguns reputados por catedrais, onde a prática evangélica assumiu um caráter piedoso, tipo sócio-cultural-religioso. Mas eficaz ainda, em sua proposta kerigmática. Tentar copiar aquela forma é minimamente infantil, e forçá-la é incorrer no falso, fora do texto que diz: “Não por força nem por violência, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”. A forma só se aplicava àqueles dias, e ainda à comunidade de discípulos que se organizou em Jerusalém.

A partir da diáspora dos discípulos, não mais; porque desnecessária se tornou a forma, mas eles levaram e semearam a sua essência. É bastante ler as cartas de Paulo, em especial a de I Coríntios capítulo 11, para constatar que a igreja passou a se reunir em casas diversas, ou como em Éfeso e em Corinto, em lugar reservado com dia marcado. Em Jerusalém eles ficaram por ali mesmo. Mudaram radicalmente sua situação social, movidos pela esperança de uma parousia iminente, mas o preço que pagaram, produziu a essência da unidade que Paulo depois exortou aos crentes de Éfeso e de Filipos, que deveria ser perseguida e mantida: “Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” – Efésios 4:3; “Se por estarmos em Cristo nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”- Filipenses 2:1-2.

A unidade espiritual, tão propalada por Paulo em Efésios 4, e aqui em Filipenses bem detalhada, é a essência daquilo cuja forma atrai e tanto faz pensar aos crentes sinceros que observam questionáveis, comparando, a prática da igreja de Jerusalém dos primeiros dias. Jesus repetidamente a suplicou ao Pai quando orou pela igreja que se formaria a partir dos Seus discípulos: “Que todos sejam um”; “que sejam perfeitos em unidade”. Deixou claro que esse seria um eloquente testemunho da fé nEle, no coração crente, dizendo em João 17 que nessa unidade da igreja todos saberiam que Ele, o Senhor, tinha sido enviado pelo Pai (v.23).

Unidade não é ajuntamento, forma. Não representa nem se deixa representar por multidões em ajuntamento político-religioso fazendo marchas ou gritando palavras de ordem, nosso conhecido evangeliquês, pelas ruas. A começar pelo fato de que por unidade não devemos entender proximidade física, localidade. A unidade só pode ocorrer, e continua a sê-la a despeito de distâncias geográficas (pensemos em missionários em campos distantes, cobertos pela oração e sustento de suas igrejas mantenedoras) quando se traduz nas demais manifestações essenciais apontadas pelo apóstolo, como vimos no texto acima: “mesmo modo de pensar, mesmo amor, um só espírito e uma só atitude”, e deixa claro que isso só é possível se “estivermos em Cristo e isso for para nós motivação, exortação de amor, comunhão no Espírito, profunda afeição e compaixão”.

É interessante notar no texto histórico, que a narrativa de Lucas quanto a essa unidade da igreja que se revelou tão explícita e factual, foi colocada entre algumas expressões superlativas: “cheios do Espírito Santo” eles pregavam, e o que isso produzia era “da multidão dos que creram, uma só mente e um só coração”. E continua com os superlativos: “Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar” e “grandiosa graça estava sobre todos eles”. O agir do Espírito de Deus, o lugar dado a Ele na práxis da fé, criava tais resultados, a essência que se manifestava em unidade, que por ser profunda e tão real, resulta em familiaridades, envolvimentos, entregas voluntárias e interrelacionamento intenso, cuja forma visível é só confirmação externa, consequente, do que está sendo operado por dentro.

Não se produz unidade com agendas e programas. Ou há lugar e busca do Espírito de Deus para que Ele o faça, ou o resultado é um arremedo que exige um esforço tremendo, e via de regra inócuo da parte de líderes, que o melhor que podem produzir é ajuntamento temporário e temático, sem vida longa, ou com um curto fôlego, do tamanho do entusiasmo de um momento. Mas se o Espírito de Deus age na igreja, Ele produz a unidade que vem do Alto (do contrário Jesus não a teria pedido ao Pai). Sem dúvida que, à luz das exortações paulinas, devemos entender que há um imbricamento de causa e resultado, ou uma vivência espiritual retro-alimentadora, onde a consciência da necessidade de unidade gera uma busca, diretamente ao Espírito de Deus, que encontrando corações dispostos, a produz e a mantém. Quando percebo que cristãos sinceros e operosos vivem inclinados a reconhecer e amar seus irmãos em Cristo, aí discirno o gérmen da unidade espiritual que viabiliza um testemunho eficaz, fazendo da prática da vida da igreja a verdade anunciada por Salomão: “Há amigo mais que chegado que irmão”, para dizer, num paradoxo, que para além de laços consanguíneos (o irmão aqui descrito) há irmãos na fé a quem podemos amar mais intensamente, mais achegados, mais próximos, mais entregues, porque em sua essência, preservam a mesma mente e o mesmo coração, ainda que nunca tenham sido aparentados entre si.

Ressurreição

Falamos coisas espirituais com os espirituais” – I Coríntios 2:13.

A magna esperança da fé cristã está sendo celebrada. De longe é a mais extraordinária bênção que marcou o cristianismo bíblico como a mais intensa, apaixonante e revolucionária experiência espiritual na história da humanidade. Nenhuma outra confissão ou proposta de comunicação transcendental  se compara a ela. Mas nem mesmo cristãos professos, em sua maioria, têm noção exata da glória desta doutrina e das implicações desta proposta. Até mesmo em funerais, ou lápides de cemitérios cujas sepulturas trazem como epitáfio o  versículo da promessa tal como Jesus a anunciou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” conseguem abarcar a dimensão de sua proposta. Geralmente os enlutados a ouvem como o resumo de que aquele seu morto não ficará morto para sempre. Ora, para boa parcela da cristandade, saber que seu morto crente está vivendo na presença de Deus, é um fato tal que a promessa da ressurreição parece perder sentido.

Lembremos o poder da ressurreição no seu efeito sobre a Igreja em seu nascedouro: os discípulos, depois que Jesus morreu, esconderam-se com medo dos judeus. Quem eram eles? Aqueles que haviam privado com Jesus mais de  três anos, sendo testemunhas e veículos de milagres em proporções e abundância incontáveis (João 21:25). Foram milagres impactantes, e todos cobertos pelo ensino do Senhor de viva voz. Morto Jesus, escondem-se aterrados. E eis que o Senhor redivivo manifesta-Se entre eles, e passa com eles 40 dias conversando, convivendo, comendo e ensinando, e até operando milagre de novo, como havia feito nos últimos três anos e meio. E Jesus Se despede deles, e eles de fato, finalmente ficam sem Sua presença física. Mas, revestidos do poder do Espírito de Deus, são imbuídos de uma ousadia que contrasta com o medo vivido há 50 dias passados, e dali em diante correm mundo testemunhando da ressurreição, ao custo de seu próprio sangue. Quarenta dias do Senhor Ressurreto, deram-lhes a convicção e paixão, que mais de três anos de milagres não conseguiram operar. E o poder da ressurreição veio consolidar tudo o que haviam aprendido com Ele naqueles três anos anteriores.

Mas e a força desta promessa?

Quando Adão caiu em pecado de desobediência, ganhou uma natureza condenada por Deus à morte, que Sua justiça santa impôs, tal como Ele antes advertira, e Adão transferiu essa natureza pecaminosa e seu consequente castigo de mortalidade a toda sua descendência. Os filhos de Adão adquirem um corpo que morre. Mas o juízo divino sobre o pecado não implicou apenas na morte  física, também na morte espiritual, que se traduziu por banimento eterno da presença de Deus. De forma que a equação formada ficava assim: a morte física separava o homem de sua vida na história, em sociedade, morto para os outros homens; a morte espiritual separava esse homem morto no corpo, de Deus.

Quando Jesus veio como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele matou com Sua morte na cruz, a morte adâmica, porque Sua morte de entrega voluntária em lugar de todos, diante de Deus e para Deus, satisfez a justiça divina e assumiu sobre Si a ira de Deus e o juízo consequente sobre os filhos de Adão. Jesus morria na cruz como o Último Adão (I Coríntios 15:45), o último a morrer a morte espiritual, o banimento eterno. E ressuscita três dias depois dessa morte, levantando-Se da sepultura como o Segundo Homem (I Coríntios 15:47), ou seja,  o cabeça de uma nova raça, a raça dos filhos de Deus que não morreriam mais eternamente. Todavia, esses filhos de Deus, ou seja, os que passavam a crer em Cristo, o Filho Unigênito e aceitavam seu sacrifício e sua justiça dele decorrente, pela fé nEle, em seu lugar diante do justo Deus, continuam habitando no corpo condenado a morrer em Adão. O espírito fica vivificado, mas o corpo continua mortal. A morte de Cristo garantiu a cessação da morte espiritual, mas, e quanto ao triunfo da morte física sobre a vida, fazendo cessar a história pessoal e o convívio entre seus pares? A ressurreição de Jesus veio confirmar a promessa de Deus da vitória sobre a morte, de forma que a ressurreição se tornou a solução do problema da morte do corpo adâmico. Paulo explica que todos nós aguardamos a redenção de nosso corpo (Romanos 8:23), como Jesus viveu a Sua própria. A ressurreição, em forma de promessa, foi confirmada na ressurreição do Filho de Deus, a “primícia” dentre os que dormem, para garantir que o corpo que foi semeado em carne e pecado, ressuscitará em glória e poder, reassumindo seu lugar no convívio entre seus pares; reassumindo o espaço do qual a morte o roubou. Evidente que esse corpo glorificado, necessita de um lugar apropriado para nele habitar, uma vez que o espaço adâmico foi com ele condenado à destruição. Esse novo lugar, a Palavra de Deus chama de Paraíso, e Pedro o descreve como sendo “os novos céus e a nova terra, nos quais habita a justiça” não mais deterioráveis, nem mais perecíveis, mas eternos, na presença de Deus, cujo sangue de Cristo nos garantiu, a vivermos e esperarmos pela fé. Eis por que  o Filho de Deus  assumiu:  “Quem  crê  em  mim,  ainda  que  esteja  morto,  viverá” (João 11:25). Aleluia!

Faz Outra Vez! | Atos de Discípulos (6)

Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus… Uma vez soltos, procuraram os irmãos e lhes contaram quantas coisas lhes  haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos. Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs?…agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus. Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus.” – Atos 4:13, 23-31.

Depois do milagre da cura do homem aleijado, Pedro e João foram presos pelas autoridades religiosas judaicas que tentaram intimidá-los e os proibiram de continuar a pregar a fé em Cristo Jesus. Eles declararam que não se calariam, porque não podiam deixar de falar daquilo que tinham visto e ouvido.

Esta narrativa sempre me entusiasmou por conta de enfatizar a palavra ousadia, aqui traduzida por intrepidez (4:13;30). Ousadia foi o resultado visível e contrastante quando o Espírito Santo encheu os discípulos, como recordamos anteriormente (Atos de Discípulos 2). De medrosos, que se escondiam dos judeus, levantaram-se ousados, discursando abertamente, confrontando autoridades e exortando o povo ao arrependimento, com palavras fortes de advertência. Jesus havia dito que eles estariam revestidos de poder para serem testemunhas. E poder foi o resultado daquele revestimento do Alto.

Mas é de singular notoriedade o que vemos descrito neste capítulo 4. Após o confronto com as autoridades de Jerusalém, Pedro e João juntam-se à igreja e com ela reunidos, oram. Dão graças pelos milagres realizados neles (ousadia), nos outros (a cura); pela bênção da perseguição sofrida; e fazem uma súplica, vertida em significativas palavras, cuja resposta de Deus é imediata. A súplica dizia: “agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para  fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus”.

E a resposta divina imediata foi: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus.” Exatamente o que pediram!

Qual a relevância disso para nós? Não tinham eles sido cheios do Espírito Santo, como visto em Atos 2 e isso produziu a intrepidez necessária ao testemunho, aqui vista como poder? Não estavam cheios dessa intrepidez, então, quando foram ao templo onde o milagre aconteceu? O verso 13 deste capítulo 4 não salienta que   foi com intrepidez (ousadia, poder) que Pedro resistiu às autoridades de Jerusalém, representadas por Anás, Caifás e auxiliares? Como lemos então que a resposta àquela oração da igreja reunida foi: “todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez…”?. Em Atos 2 lemos que eles haviam sido cheios do Espírito Santo. A nós parece que bastou o evento ali acontecido e eles estariam para sempre potencializados para fazer e acontecer. De fato, a narrativa de Atos 3 e 4 provam que estavam. No entanto, podemos traduzir a oração que fizeram posteriormente como “faz outra vez!”, ou, pelo menos: “continue fazendo!”. A resposta foi Deus renovando o revestimento de poder, como se tudo estivesse acontecendo pela primeira vez!

Duas coisas despontam para nós, discípulos da atualidade: Não devemos nos acomodar às experiências do passado como se por elas estivéssemos prontos e habilitados para sempre. A lenha queimada vira cinza, no altar. A cinza precisa ser removida para que o fogo continue a crepitar. E: necessitamos ser revestidos de novo, sempre. Ser cheios do Espírito, numa busca continuada, é o que se impõe sobre os discípulos, conforme a recomendação de Paulo em Efésios 5:18, que se traduz melhor como sendo: “deixem-se encher”.

Cabe-nos reabastecer-nos diligentemente na Fonte, rogando ao Senhor da seara, que sempre “faça de novo”, que sempre “faça outra vez”. Ele faz!

Metamorfose

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade.”    – Efésios 4:22-24.

Há pouco tempo estive ministrando em uma igreja aqui no interior, formada por irmãos muito queridos e espiritualmente zelosos. Encontrei no seu boletim uma citação atribuída a John Wesley, fundador do movimento de santidade na Inglaterra do século XVIII que influenciou poderosamente a igreja cristã no mundo inteiro. Disse Wesley: “A conversão tira o cristão do mundo e a santificação tira o mundo do cristão”.

Nada mais verdadeiro.

A doutrina da santificação perdeu lugar na experiência da práxis evangélica em nossa geração, de forma quase generalizada. O limiar que separa o crente do mundo ficou tão invisível quanto a insensibilidade a ele o tornou imperceptível, mesmo ausente. A mensagem da santificação converteu-se numa ideologia do fracasso ou passou a ser vista como religiosidade, legalismo ou estoicismo, na melhor das hipóteses. Para escapar de sua realidade missiológica, pretendeu-se que ela é ato interior operado pelo Espírito Santo no momento da conversão e que não se traduz em formas, ações ou comportamentos. Com isso criou-se uma conveniente filosofia que rapidamente tomou dimensão generalizada de conceito, onde santificação ficou reduzida à prática de serviços cúlticos, como ir à igreja, ler Bíblia, orar. Tais práticas piedosas seriam a resposta humana ao compromisso com a santidade pessoal. E como ainda há os que traduzem santidade por observações legalistas no terreno do “é proibido”, tão repulsivo e carnal quanto seu oposto que é o liberalismo com nuances de libertinagem, quanto mais distante de critérios e renúncias pessoais estiver o crente, melhor lhe parecerá.

Todavia uma clara distinção existe entre ser crente e ser mundano. E o fiel da balança que vai distinguir o compromisso e comportamento entre uma maneira e outra de ser, é a consciência de temor de Deus no coração. Pois à medida que cresce nosso conhecimento da santidade divina e dEle mais nos aproximamos, mais tementes a Ele nos tornamos e mais distantes do mundo com seus modismos, apelativos, comportamentos, filosofias, compromissos e sentimentos, ficamos.

Santificação é uma resposta consciente do crente ao que foi feito nele por Deus, em direção contrária ao mundo e seus valores, no qual ele vivia; e a favor do Reino de Deus, na proporção de inimizade com um, e amizade com o outro; de forma que santificar-se, expressão tantas vezes repetida na Palavra de Deus, torna-se a nossa medida pessoal de separação que tem parâmetro na Revelação divina, e uma vez pessoal, não pode nem deve servir para mensurar a forma alheia de viver. Por se tratar de uma consciência de temor a Deus, torna-se nosso culto pessoal de reverência a Ele. E o temor vem, na mesma medida em que entendemos a clara linguagem que diz: “Aquele que se faz amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus”, que é o correto entendimento sobre o texto de Tiago 4:4 e II Coríntios 1:12, que diz: “Este é o nosso orgulho: A nossa consciência dá testemunho de que nos temos conduzido no mundo, especialmente em nosso relacionamento com vocês, com santidade e sinceridade provenientes de Deus, não de acordo com a sabedoria do mundo, mas de acordo com a graça de Deus.”

Posto isto, é interessante revendo o texto acima, de Efésios 4: 22 a 24, perceber que o apóstolo ensina que a decisão pessoal e consciente por santificar-nos a nós mesmos, está diretamente ligada à “renovação do nosso entendimento”, expressão de que ele se serve de novo em Romanos 12:2, abordando o mesmo assunto, lugar onde diz que a mudança de forma conta na santificação, com o nome de metamorfose, a forma ultrapassada ou superada pelo crente, quando corre num mundo no qual está inserido. De forma clara ele nos faz saber que santificação é uma resposta racional que damos, positivamente, à mudança de nosso entendimento, ao que vamos aprendendo pela Palavra de Deus e ao agir do Espírito Santo a quem devemos dar espaço, na medida em que crescemos na “graça e conhecimento” de nosso Senhor Jesus Cristo.

Como a própria conversão implica numa mudança de mente, a santificação revela que a mente que dita a forma de ser e viver neste mundo, mudou, ou seja, passou a ser “mente de Cristo” em nós, na linguagem de I Coríntios 2:16.

Santificação implica em ser separado do que é comum a todos os outros. Ser diferente no pensar, sentir e consequentemente no comportar-se. E a Palavra de Deus define essa diferença em termos claros, aqui em Efésios colocados como troca de andrajos por roupas, despir-se e vestir-se, e noutros textos, sem metáfora:  “Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus.” – Gálatas 5:19-21. A lista é grande. Não se trata, no entanto, de conhecer uma lista, mas viver na dimensão do que vai além da lista, que por ser tão grande, Paulo, acrescenta a expressão: “e coisas semelhantes”.

Equivocam-se gravemente aqueles que pretendem que, copiar os valores e formas do mundo dando-lhes um verniz ou ambiência evangélica, do tipo vivenciar tais coisas dentro de um culto, na igreja ou na companhia de crentes, anula seu caráter de inimizade com Deus, tendendo à aprovação divina. Isso é reduzir a mente do Deus três vezes Santo à cabeça de mito religioso.

A santificação pessoal está diretamente ligada à forma como o crente vive sua relação individual com o Espírito Santo de Deus, que depois de dizer que em nós Ele tem ciúmes, adverte-nos quanto a não entristecê-Lo (Efésios 4:30), nem apagá-Lo (I Tessalonicenses 5:19).

Certa vez eu ministrava num Retiro em Campinas e fui interrompido por um irmão que disse: “Ora, pastor. Sou grato a Deus por ter sido chamado como sou. Não fui chamado para ser como Paulo, João, Daví, Pedro ou mesmo Moisés”. Ao que eu lhe respondi: “É fato, irmão. De acordo com Efésios 4:12 e I Pedro 2:21, você foi chamado para ser como Jesus”.

Por último, voltando a Wesley e seu ditado, convém acrescentar que só busca se santificar quem não perdeu a noção bíblica de pecado. Este quer uma forma superior de ser, reagir e viver: metamorfose.