Ele Faz de Novo

 Esta é a palavra que veio a Jeremias da parte do Senhor: “Vá à casa do oleiro, e ali você ouvirá a minha mensagem”. Então fui à casa do oleiro, e o vi trabalhando com a roda. Mas o vaso de barro que ele estava formando estragou-se em suas mãos; e ele o refez, moldando outro vaso de acordo com a sua vontade. Então o Senhor dirigiu-me a palavra: “Ó comunidade de Israel, será que eu não posso agir com vocês como fez o oleiro?”, pergunta o Senhor. “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó comunidade de Israel.”   – Jeremias 18:1-6.

Este clássico texto do profeta Jeremias, inspirador de incontáveis números de sermões e livros, é muito rico em toda a sua extensão. Via de regra é lido e aplicado até o verso 6. Nós reduziremos nossa aplicação dele até o verso 4, porque nosso propósito é extrair dele um tema que ele fundamenta e que é importante para a edificação de nossa fé em Cristo.

Poderíamos pensar nos aplicativos possíveis da linha que mostra o oleiro entregue à sua obra, mas pretendo apenas salientar o que além disso o profeta viu na olaria e no trabalho do oleiro, para o que também Deus chamou sua atenção.

Muitas vezes o Senhor Se serviu de imagens simbólicas para comunicar uma palavra profética, geralmente usando o próprio profeta como sinal da Palavra, caso de Isaias e de Ezequiel. E aqui, o sinal era um oleiro em sua oficina de trabalho, e este cenário continha a mensagem que o profeta teria de ouvir. Então chamo sua atenção para esse trocadilho divino: Jeremias entraria na olaria para ouvir uma mensagem. Qualquer de nós se prepararia para deparar-se com um outro profeta, um mensageiro verbalizando um discurso divino. Provavelmente Jeremias também esperava por isso. No entanto entra ali e nada acontece. Se houve algum som, era o da roda do oleiro e do atrito de sua mão na massa de barro enquanto moldava um vaso. Deus esperou que ele observasse tudo em seus detalhes pormenorizados. E o profeta assim fez. Viu que o oleiro estava tão ocupado, “entregue à obra de suas mãos “, que provavelmente não se apercebeu dele por ali. Viu que ele estava moldando um vaso, e se surpreendeu quando a tarefa foi bruscamente interrompida porque a peça se deformou ainda nas mãos do artesão. Jeremias continuou silenciosamente esperando a mensagem que lhe seria entregue. Possivelmente pensou: “Estamos só nós dois aqui. Certamente agora que seu trabalho se perdeu, esse homem vai se virar para mim e me dizer o que Deus me mandou ouvir aqui”. Mas nada disso aconteceu. Ainda sem se voltar, sem cessar o que fazia, o oleiro tomou a massa disforme do vaso, e com ela foi refazendo o vaso, dando um novo formato sobre o tipo anterior. Até que o terminou por completo.

E então, para surpresa do profeta, Ele ouve a voz divina, ali, no pé do seu ouvido ou dentro do seu coração: “…será que eu não posso agir com vocês como fez o oleiro?”, pergunta o Senhor. “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos…”

E Jeremias entendeu a mensagem que tinha agora nas mãos. Era um recado para a comunidade do povo de Deus. Será que nós a temos entendido hoje? Porque o povo de Deus continua sendo barro em Suas mãos, desde o dia em que Ele formou Adão do barro da terra.

Deus estava comunicando verdades que precisavam ser fixadas nas mentes com tamanha eloquência que requeriam um áudiovisual. Não bastava Jeremias chegar e dizer ao povo que Deus avisava que podia fazer com ele como faz um oleiro com o barro em suas mãos. Era necessário que Jeremias visse a Palavra sendo montada, para que a anunciasse com as cores vivas do efeito que as imagens produziram em seu ser inteiro.

E até onde tais verdades nos alcançam hoje?

Primeiramente é importante lembrar que Deus continua sendo o mesmo Deus dos dias de Jeremias.

Depois, também é importante considerar o indiscutível fato de que continuamos a ser esse elemento da terra, matéria prima de nossa estrutura biológica: barro.

Ainda importa dar-nos conta de uma declaração divina que nos é pertinente: somos barro em Suas mãos. Mesmo que nos esqueçamos disso vezes sem conta, o fato imutável é que estamos em Suas mãos. Esperneamos muitas vezes, querendo sacudir esse jugo de sobre nossos ombros, alguns se escondem num veredito humanista: “recebemos o livre-arbítrio”, para pretenderem uma autossuficiência que no fim sempre se prova frustrante ou fatal. Mas o fato é que, para nossa segurança, quer esperneemos ou não, somos barro em Suas mãos.

Há ainda que avaliar o desdobramento dessa declaração feita pelo próprio Senhor, na forma de uma ampliada metáfora. Não somente barro em Suas mãos, mas tal como o barro nas mãos do oleiro. E é neste particular que faz sentido Jeremias ter de entrar naquele olaria para entender a dimensão e o alcance desta palavra. O que Deus queria que Jeremias visse para nos comunicar? Que o oleiro refazia o vaso a partir de sua deterioração.

Foi este o ponto em questão. Era só o que o Senhor pretendia que fosse visto. Foi justamente o que impressionou o profeta. Se o vaso não tivesse se estragado e o oleiro assumir refaze-lo, sem jogar fora a massa que já vinha sendo trabalhada, a visita à olaria nenhuma mensagem teria para Jeremias.

Algumas importantes nuances de sentido se desenham aqui para nós: o vaso, ainda que sendo trabalhado pelo oleiro ocupado com ele, seguro em Suas mãos, se estragou. O verbo usado originalmente , também traduz “se corrompeu”, “se arruinou”. Isto nos diz respeito muito de perto. O fato de estarmos sendo formados no propósito divino, não impede que percamos a forma, que nos estraguemos, ou nos corrompamos. Às vezes uma pequenina pedra na massa, e toda a estrutura se estraga. Foi assim com Daví. Um grande e valioso vaso. Mas se estragou várias vezes. Foi assim com Jonas, profeta.  Foi assim com Pedro, apóstolo. Foi assim com Tomé. É assim comigo e com você.

Mas o que mais Jeremias ouviu? Que Deus nos comunicava que fazia conosco como fez o oleiro. Sempre olhei este texto, com o constrangimento de pensar que o Deus soberano estaria pedindo autorização para agir em nossas vidas como o oleiro fez. Isso me confundia, porque é um paradoxo quanto à soberania divina. Até que me dei conta que Deus não estava pedindo permissão ao barro para poder mudar a forma do vaso. Ele não disse que somos como o vaso na mão do oleiro, mas como o barro. O vaso é o produto final, o resultado da obra do oleiro no barro, o propósito desse trabalho. Logo, Deus estava apenas informando ao povo o Seu jeito de agir. Seria como dizer em outras palavras: “Não se incomodem, não estranhem o que ocorre em suas vidas. Estou fazendo como o oleiro quando torna a fazer outro vaso a partir do estrago do primeiro. Eu não poderia? Ora, vocês são barro em minhas mãos “.

E então vem a magna lição da mensagem profética: Deus refaz sempre. Ele não remenda.

Ele refez, não desistiu, quando o vaso Daví se estragou. Refez Jonas; Pedro; Tomé.

Ele sempre faz de novo. Novos céus e nova terra; nova criatura; novo nascimento; nova vida em Cristo; novo começo. Sempre. Até que o vaso atinja o formato próprio ao propósito de nosso supremo Oleiro.

Sabedores desta verdade comunicada, o que nos cabe? Qual deve ser o nosso procedimento?

Primeiro: entender que neste barro de que somos formados, Deus constrói o vaso para cujo propósito nos chamou em Cristo.

Em segundo lugar: que nos estragamos muitas vezes, pelo simples fato de sermos barro e não metal sólido ou rocha. A rocha é Cristo.

Terceiro: que de igual forma, Deus toma a Seu cargo reconstruir em nós o que se deteriora. É um processo, e muitas vezes voltamos ao ponto de partida nele.

Quarto: Só Ele é o oleiro, e uma vez em Suas mãos, não nos cabe pretender arbitrar livremente a forma de nossa vida, mas aceitarmos com humildade e temor Sua Palavra que nos posiciona dizendo: “Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus? “Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim?’ ” – Romanos 9:20.

Importa trazer ao coração a confiança na vontade de Deus que é boa, agradável e perfeita, lembrando o que também em Jeremias (29:11), Ele nos assegurou: “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês’, diz o Senhor, ‘planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro.” Louvado seja Seu santo Nome. Sua vontade seja feita e nada mais.

A Essência da Necessidade

João 3:1-10.

Nicodemos só aparece no Evangelho de João. Aqui; também em 7:50, onde defende Jesus entre os demais fariseus; e no capítulo 19 onde se envolve no sepultamento do corpo de Cristo, ocupando-se com José de Arimatéia em ungir o corpo do Senhor com mirra e aloés para ser sepultado.
Jesus o identifica como mestre em Israel. Ele fazia parte do grupo dos religiosos fariseus, a que também Paulo pertenceu.

O ponto de realce se dá no fato de Jesus fazer com ele a mesma coisa que fez com a mulher samaritana: levou o diálogo para o cerne da necessidade de seu interlocutor e sobre ele estabeleceu uma doutrina fundamental para a fé. Mais: Jesus pontuou uma necessidade de que nem um nem outro se davam conta. A necessidade da samaritana era saciar uma sede maior que a da água, que é recorrente. A necessidade de Nicodemos era ver e entrar no Reino de Deus, e não apenas se certificar de que Jesus era um enviado de Deus.
Mas, tal como a samaritana, ele desconhecia sua verdadeira necessidade. E tal como diante da samaritana, Jesus aqui também universalizou a necessidade dele. Para todos, importa saciar em Cristo sua sede de eternidade. Para todos, é necessário nascer de novo. E este é o assunto deste nosso texto.

Sem o Novo Nascimento, impossível ver e impossível entrar no Reino de Deus, disse o Senhor.

E então explica em que isto consiste: nascer do Espírito, do Alto ou de novo. A palavra traduzida por “de novo”, também significa “do alto”.

É nos ensinamentos de Paulo que podemos apreender o significado desse novo nascimento, ou aquilo em que ele consiste. Está detalhado em II Coríntios 5:17 – “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação (presente). As coisas antigas já passaram (passado); eis que surgiram coisas novas (futuro)!” Percebe-se que nascer de novo é um ato instantâneo. Ninguém “vai nascendo de novo cada dia mais”. Depois, Paulo detalha essa radical transformação em Efésios 4:20-24, onde mostra a resposta consciente e externalizada que devemos dar, acompanhando a nova natureza que em nós foi implantada: “Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, vocês ouviram falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade.”

Em seguida, vemos Jesus mostrar a evidência ou resultados desse processo de novo nascimento. Ele afirma que o novo nascimento resulta  em:

1-Capacitação para ver o Reino de Deus

Você só pode entender isto à luz do que o Filho de Deus afirmou quando disse o que ficou registrado em Lucas 8:10: “Ele disse: “A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, mas aos outros falo por parábolas, para que “ ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam’.” – isto por si só explica em que consiste a possibilidade de ver o Reino de Deus.  Os olhos do entendimento espiritual são abertos para que se entenda as coisas espirituais, espiritualmente. Esses olhos antes estavam cegados pelo deus deste século, conforme Paulo ensina em II Coríntios 4:4 – “nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.”

E: Lucas 10: 9 -“Curem os doentes que ali houver e digam-lhes: O Reino de Deus está próximo de vocês.”

Entende o que ocorre aqui? A missão redentiva e sanadora da Igreja provando que o Reino de Deus está sendo manifesto através da ação do Corpo místico de Cristo: a Igreja. São possibilidades decorrentes da fé, que nos dá acesso ao sobrenatural de Deus, porque a vida no Evangelho não é mera intelectualidade, mas como disse o Senhor, um equilíbrio entre Escrituras e poder de Deus.
E ainda Lucas: 11:20 – “Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus.” –
De novo, a ação da autoridade no mundo espiritual. Não se trata de ver fenômenos, mas de ver a supremacia do Nome de Jesus atuando contra o império das trevas. E qual o efeito prático disso? Uma vida livre de medo do oculto, de operações tenebrosas e correlatos.

E em seguida Jesus afirma que o novo nascimento, por conseguinte, consiste em:

2-Capacitação para entrar no Reino de Deus

Agora o verbo tem ênfase mais comprometedora. Há duas formas de entendermos esta capacitação para entrar:

Escatologicamente: “O tempo é chegado”, dizia ele. “O Reino de Deus   está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas-novas!” – Marcos 1:15,   que fala de uma chegada nesse Reino, um ato final, passada a vida, ou melhor ainda, a manifestação desse Reino historicamente no mundo, na vinda de Cristo, no final de todas as coisas. Os que nascem de novo, quer morram ou estejam vivos quando Jesus vier, têm segura entrada no Reino  de Deus, tal como Jesus garantiu ao ladrão arrependido, crucificado ao Seu lado no Calvário.

Mas também,
Experiencialmente: “nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está no meio de vocês”.” – Lucas 17:21.
E este é o sentido presente e solene de poder entrar no Reino de Deus, porque fala da ambiência dos que nasceram de novo. Eles vivem  no Reino, pelo Reino e para o Reino na presente era, no meio da sua geração.
No que fazem e como fazem.
No que falam e como falam.
Estão no mundo, mas não são do mundo. O Reino é o seu ambiente e eles o trazem para dentro deste século, do mundo tenebroso.

Não se trata de uma espiritualidade nominal. Ela é factível, comprobatória, porque os filhos do Reino são identificados por seus frutos.

E ainda há mais. No verso 8 Jesus diz a Nicodemos que nascer de novo também consiste em:

3- Capacitação para ouvir a voz do Espírito.

Não falo de profecias ou sinais. Ele não estava apontando o escutar como sendo uma experiência de fenômenos, mas exatamente a capacidade de ouvir a Voz que direciona a vida, que age por dentro trazendo movimentos livres, não premeditados ou sob controle de rédeas humanas. Ele fala dessa voz que não pode ser controlada como ocorre com o vento. Ele fala desses movimentos na existência que o vento tem e não podemos dizer em que direção vai ou de onde veio, mas a gente sente na pele, torna-se sensível ao seu toque e aromas. Ele surpreende sempre.
Porque não é voz de homens e nem com ela se confunde.
Há ainda um ponto relevante quanto a escutar a Voz. João diz que falamos do que ouvimos. O que nasce de novo adquire o idioma, a fala da Voz do Espírito, porque ela evidencia seus conteúdos de nova criatura.
Jesus disse que o nascido do Espírito age como o Espírito, ou, diríamos nós, pelo Espírito: Espontâneos; abertos; capazes de preencher todos os espaços; inerentemente perceptíveis e indispensáveis.
O vento possibilita fôlego, produz vida, alimenta a combustão.
Mas tudo isso aponta os sinais, as características próprias daquele ou daquela que nasceu de novo. Ele vê, ele entra, ele ouve.

Evidente que uma questão própria sobre tudo isso, também foi formulada  por Nicodemos: “Como pode isso acontecer?” A resposta de Jesus não parece ser exatamente uma resposta, num primeiro momento: “Respondeu Jesus: “Digo a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito.” (vv.5 e 6). Mas aí está exatamente a resposta: Vem do Alto. Vem do Espírito. É Ele quem faz. Ou Ele faz ou nada acontece.

E, a esta altura só uma conclusão cabe: ninguém decide por nascer de  novo. A única coisa que nos fica é o que Jesus apresentou a Nicodemos: ter consciência da necessidade deste fenômeno. Nasce de novo aquele que sente necessidade de ser nova criatura. A graça em Jesus nos oferece isto. Era o que Ele estava oferecendo a Nicodemos. E uma vez que ocorre, já vimos como se evidencia, e como nós correspondemos, vivendo de acordo com o que em nós foi feito.

Dentro dos dogmas cristãos, linhas de interpretação divergem quanto à experiência do Novo Nascimento.
Há aqueles que acham que a Igreja o produz. Jesus não disse isto.
Há aqueles que acham que pertencer à igreja corresponde a nascer de  novo. Jesus também não disse isto.
Há aqueles que pensam que ser batizado ou batizar-se corresponde a isto. Jesus não disse isto.
Há aqueles que entendem que é uma experiência que nossa própria fé produz. Jesus não disse isto.
Resta lembrar que Ele afirmou: você necessita disto, ou não verá, nem entrará no Reino de Deus. É o Espírito Santo que faz acontecer. E assim, resta saber: você necessita disto? Já dá provas a si mesmo de que nasceu de novo? Percebe que ainda não evidencia esta experiência em sua vida, de fato? Se         consegue           perceber           e               a   deseja,       você  está  pronto   para  ser regenerado pelo Espírito Santo de Deus. Nascemos de novo pelo Espírito de Deus agindo em nós, servindo-Se da Sua Palavra revelada. É o que afirma Pedro:           – “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” – 1Pedro 1:23 

Necessário é nascer de novo. Se somos nascidos de novo, somos Filhos do Vento. Todos percebem isto em nós. Os frutos na vida revelam que há uma nova natureza operante naquele que nasceu de novo. Ele é novo em sua forma de pensar. E porque seus conteúdos são da nova criação, ele fala conforme esses conteúdos. Vive no Reino. Comprometido a expandir a manifestação do Reino de Deus. É cúmplice nisto. Comporta-se  como nova criatura, entre seus pares, seja no trabalho, no lar, onde for. Quem convive com essa pessoa sabe, percebe que ela vive e respira outra realidade existencial, em função da qual é movida. As coisas antigas já passaram. Mais uma vez: as coisas antigas já passaram.

Você já nasceu de novo?

Sua maneira de viver, ver e sentir a vida, dão testemunho disto? Vamos orar agora sobre isto?

Bênção para Abençoar

Gênesis 12:1-3

São apenas 3 versículos em que a palavra bênção aparece 5 vezes. Três derivadas em verbo e duas como substantivo e adjetivo. Este foi o segundo ponto principal da fala de Deus a Abraão que a Bíblia define como chamado. O primeiro é visto no propósito pelo qual o chamou.

Quero lhe dizer duas coisas importantes antes de continuar a meditação: A primeira é que somos informados por Paulo em Romanos 1:1-7 que nós todos os que somos seguidores operantes de Cristo, somos chamados. Tidos e vistos por chamados, à luz da Palavra de Deus. A segunda coisa é que o mesmo Paulo também em Romanos, agora capítulo 4, diz que somos filhos na fé de Abraão, que por conseguinte é o pai dos que crêem, e então somos exortados a viver nossa fé nas pegadas da fé “que teve nosso pai Abraão”. O que pretendo com isso? Trazer à sua consciência que este chamado histórico de Abraão é o modelo, a forma do nosso chamado, dentro de nossa geração.

Chamados para quê? O texto é claro: para sermos abençoadores. Só isso.

Alguém diria: Mas o texto promete a Abraão que ele seria uma bênção! Verdade absoluta! Todavia esta seria uma verdade incompleta e suspeita,  se vista somente por este ângulo. Jamais Deus pretendeu abençoar Abraão, e fazer dele uma bênção para si mesmo, para ser desfrutada no seio de sua família, exclusivamente. Longe disso, a promessa de fazer dele uma bênção vem imediatamente comprometida com o propósito divino: para que por meio dele, todas as famílias da terra fossem abençoadas. Isto, de imediato secundariza a promessa no quesito pessoal.

O chamado mantém o mesmo propósito, hoje, como outrora, para os filhos na fé que teve nosso pai Abraão.

Em minha juventude, no início de minha caminhada na fé, era constante haver reuniões de oração ou de busca da face de Deus onde a tônica maior e quase exclusiva era buscar conhecer esse lugar de ser bênção no propósito de Deus. Tanto que era frequente termos nossas reuniões embaladas ao som de um cântico muito famoso, raramente entoado hoje, sequer conhecido pelas novas gerações: “Quero ser um vaso de bênção”.

Há algo muito significativo a informar aqui: o Evangelho não nos chegou para trazer soluções de problemas pessoais e satisfação de sonhos pessoais via a magia da fé. O Evangelho não tem este compromisso. O Evangelho nos alcançou para nos dar o privilégio de sermos instrumentos de bênçãos nas mãos de Deus que sempre olha por meio de nós, para além de nós.

Deus sabia que para fazer de Abraão um abençoador, teria de primeiramente fazer dele uma bênção. Do contrário seria dito a respeito dele: “Médico, cura-te a ti mesmo”. A questão é que Deus não mudou o Seu propósito ao nos chamar, dentro de nossa geração, e assim, o Seu modelo e processo continua o mesmo. Mas nós cobiçamos a bênção para nós mesmos, e a cercamos e encurralamos em nossa história pessoal. E pior: um bom número aprendeu erroneamente que o fim do Evangelho é entrar em nossa vida e realizar o que pretendemos por bênção. Em outras palavras, cada um de nós seria um fim em si mesmo, na dinâmica da vida espiritual. Lamentavelmente um grande número entre nós vive esse engano acalentado pelo egoísmo herdado de Adão.

Quando alguém faz do Evangelho um veículo mágico para ser bem sucedido, ele age na contramão do chamado de Deus, logo perde posição, alvo e desperdiça sua vida.

Infelizmente, muitos líderes usando de maligna esperteza investiram nessa contínua cobiça do ser humano por se dar bem na vida, e ensinaram a outros a promessa de ser bênção, omitindo a razão pela qual Deus nos quer uma bênção.

Só entende disso aquele que alcançou a revelação exclusiva que o apóstolo Paulo recebeu e de que nos fala em Atos 20:35 – “…lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus que disse: ‘Mais bem aventurada coisa é dar do que receber”.

Somente os que vivem a experiência de uma nova natureza espiritual conseguem compreender, viver e buscar essa bem-aventurança. Os demais, posicionam-se como o Mar Morto, que só recebe e não deságua. Por isso, morto.

Deus vê nossas lutas pessoais, sofrimentos diversos, sonhos, aspirações, e já deixou claro em Sua Palavra: “Eu sei que pensamentos tenho a respeito de vocês. Pensamentos de paz e não de mal, para lhes dar o fim que vocês desejam” (Jeremias 29:11). Outro tanto Ele afirmou, através do salmista: “Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará o desejo do teu coração”. Mas tanto quanto nos vê e manifesta Sua misericórdia, graça e socorro sobre nossas vidas, Ele já vê para além de nós, através de nós.

Nosso Deus opera no mundo através de cordas humanas. Ele disse isso em Oséias. Nós somos as cordas de que Ele dispõe, pelas quais Jesus pagou o alto preço de Sua vida na cruz. Em outras palavras, seria como dizer que, ao prometer a Abraão: ‘Tu serás uma bênção’, ou como melhor colocado: ‘Sê tu uma bênção ‘, estivesse o Senhor dizendo: ‘Eu vou treinar você com bênçãos para que você seja abençoador’. Algo do tipo, o médico ou o enfermeiro, ou o profissional em geral que estagia dentro de sua formação para aprender a exercitar suas ferramentas de trabalho. Aqui é vida, de que falamos.

Não pensemos que Deus olha os gemidos do mundo, todos os sofrimentos decorrentes da miséria, desgovernos, pecados e atrocidades, como mero fatalismo, e dá de ombros, insensível. Não. Mas tanto quanto para nos socorrer Ele encarnou na forma de Seu Filho Jesus Cristo, Ele continua a socorrer e abençoar, através do coração e mãos da Igreja, que somos nós, cada um de nós.

Não há honra nem valor em se sentir uma bênção e pronto. Seria como colocar uma pessoa muito rica ao lado de uma miserável e ouvir a rica dizer: “Eu sou muito abençoado, você não”. Isto é imoral, imperdoável, mas é o que acontece quando entendemos que somos abençoados e até desdenhamos daqueles que não o são, desdém que vem sob disfarce de mil justificativas. E uma delas é dizer: “Eu não sou a palmatória do mundo”. Não. Você é uma tentativa de Deus, ao lhe encher de Sua graça, de revelar ao mundo a Sua divindade graciosa, amorosa, compassiva.

1- As bênçãos só nos tornam abençoadores, quando atendemos ao que Deus determinou para Abraão:

Sai! Do nicho de suas raízes que lhe dão segurança pessoal. Do nicho de sua parentela que reduz o universo do seu investimento e desejo”. Isto fala de desprendimento.

2- Depois, na mesma medida, Deus disse a Abraão:

Vai!  Isto fala de dependência e obediência. Sob uma nova visão. “A minha”. Não mais aquela ditada por seus próprios sonhos e desejos, porque “há caminhos que ao homem parecem ser bons, mas o seu fim é a morte”. Não circunscreva seus sonhos somente à sua família, deixando os estranhos de fora.

3- Depois Deus assumiu o compromisso de ser Ele mesmo o capacitador de Abraão para Ele abençoar. E assumiu que amaldiçoaria os que tentassem atrapalhar essa corrida de bênção, esse fluir de abençoador. Outro tanto abençoaria os que o favorecessem nessa missão de vida. E gosto do veredito comprobatório de Deus, para provar que a bênção viria dEle: Deus assumiu que a posteridade de Abraão prosperaria na terra.

A gente percebe que uma pessoa não é uma bênção, geralmente porque os frutos da construção de sua existência desaparecem em poucos meses ou anos nas mãos de seus descendentes. Não têm continuidade, nem no caráter, nem no plano material do que foi conquistado e construído.

A Bíblia chama isso de ser rico para si e não para com Deus.

Mas a questão que se impõe sobre as considerações neste texto é mais à luz do que Paulo afirma ter sido dito por Jesus em Atos 20:35 do que na experiência de Abraão, que entra aqui somente como modelo de chamado: “Mais bem aventurado é dar do que receber”.

São poucos os que vivenciam isso. Não há bênção em receber, somente. A felicidade, segundo disse Jesus, reside em dar. Daí Ele ter dito que os que dão, recebem. Dão aos homens e recebem de Deus.

No atual contexto das prédicas evangélicas dentro desta geração, reduz-se a ideia de dar, a dinheiro, a bens. Eles contam, mas são fáceis. São difíceis apenas para os que têm crise de espiritualidade mas estão longe de uma experiência real com Deus. Estes não conseguem dar sequer dinheiro, quanto mais bens.

Mas dar envolve a vida, o ser. Isto vai além do que se tem, mas não deixa de fora o que se tem, seja muito ou pouco. Aliás, diga-se de passagem que o pouco nunca foi nem será desculpa para não dar. Jesus elogiou a mulher pobre que doou a única moeda que tinha. Também elogiou a mulher rica que deu um bem tão caro que todos tomaram por desperdício: o unguento do alabastro.

Dar é doar o que se é. Isto não tem preço. Porque envolve o coração mais que as mãos. Significa doar-se através daquilo que se doa, ou naquilo em que se doa.

Exige que se desça para lavar pés alheios; que se caminhe uma milha a mais, além daquela solicitada; que se priorize para o alheio, em detrimento das prioridades pessoais. Demanda o investimento de tempo, afeto, dons.

Abraão seria uma bênção na medida em que procurasse abençoar. Quando retém, não é abençoado. Quem contabiliza bênçãos pessoais, não é abençoado. É apenas uma pessoa que perdeu a oportunidade de construir um legado na vida, para que outros possam usufruir a memória do exercício de sua fé, depois que ele tiver cumprido sua missão existencial. Perdeu os frutos do que Deus lhe fez.

Porque o chamado do Evangelho para mim e você, se resume nesta palavra dita pelo Senhor Jesus, em João 15:16 – “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome”.

Entende agora porque às vezes parece a alguns que suas orações nunca são respondidas? São leis da Graça, leis espirituais.

Quero encerrar recomendando a você, à luz da Palavra de Deus para Abraão: “Seja você uma bênção ”. Menos que isso, é viver uma vida inútil, ainda que pareça aprovada entre seus pares. Deus lhe faça uma bênção, para abençoar. Única verdade na perspectiva de ser abençoado. Amém.

Aquele Que Te Guarda

Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra. Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda. É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel. O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua. O Senhor te guardará de todo mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre.” Salmos 121:1-8 ARA

Promessas! Nossa fé se alimenta delas. São inumeráveis a nosso favor na Palavra de Deus. Delas é dito por Paulo: “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio”, em II Coríntios 1:20 e outro tanto Pedro afirmou: “Dessa maneira, ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça”, em sua segunda carta, 1:4.

Falar sobre promessas de Deus na Bíblia traz o desafio de qual delas escolher. Se este é o maior desafio, decidi compartilhar com vocês aquela que me afigura ser a mais messiânica das promessas do Velho Testamento, por trazer a natureza da proposta da encarnação do Messias de Deus, o Senhor Jesus Cristo. Daí a leitura deste maravilhoso salmo 121. E digo isto porque a profecia messiânica de Isaías 7:14, proferida mais de 700 anos antes do nascimento de Jesus, já O anunciava em Sua função precípua: Emanuel, Deus conosco. Acredito que nada supera a magnitude de tamanha promessa. E só a fé cristã a possui. Em nenhuma religião ou confissão jamais se ouviu falar de um deus que prometia estar junto do seu adorador, todos os dias, e que para provar a pertinência dessa proximidade e companheirismo, tomou forma humana e viveu entre os homens. E Jesus, nosso Deus e Senhor, ao deixar Seus seguidores garantiu-lhes estar com eles todos os dias, até o último deles.

E dentre as necessidades humanas, nenhuma supera a carência de companhia. E dentre as propostas de companheirismo, nenhuma supera a proposta de companhia divina. Jesus Se anunciou Emanuel, e para sempre. Ele é Emanuel para todo o que nele crer.

E é então que desponta a gloriosa promessa deste salmo 121 que nos auxilia a crer, ao descortinar para nós em que consiste esta guarda, a proteção da parte Daquele que nos guarda. Porque já adianto aqui, que a essência do sentido de guarda, protetor, de que fala este salmo, é companheiro, aquele que está junto, que come junto o mesmo pão.

Quais as dimensões desta proteção? Observemos o texto:

 

1- O Guardião é socorro garantido. V.2

Porque Ele fez os extremos: Céus e terra. Não há outras possibilidades ou ofertas de risco fora desses dois extremos.

De onde pode nos vir o perigo ou o mal? Do extremo de cima, ou do extremo de baixo. O salmista entendeu que Quem os criou é maior do que eles representam, seja em termos de bênçãos ou de riscos. No texto rabínico o salmista diz elevar seus olhos para o Alto. Ele parecia estar se sentindo apequenado, fragilizado. Pensa na necessidade de socorro e seu coração lhe oferece resposta na certeza de que no Deus que criou todas as coisas ele tinha socorro garantido.

Entre os extremos, se encontra Deus, Aquele em Quem podemos encontrar socorro.

Quem precisa de socorro? Quem se sente sob risco iminente; quem se sente em pânico; quem se vê em desamparo. Todas estas situações são possíveis a qualquer de nós, em circunstâncias variadas, ao longo da vida.

Depois de se assegurar ter socorro garantido no Senhor, ele começa a meditar na forma de exercício desse socorro.

 

2- O Guardião é Proteção Garantida Vv. 3 e 4

Há um jogo de palavras: se você tropeça, como quem perde a vigilância, como quem cochila, Ele nunca perde o compasso! Não pisca!

Diferentemente das divindades cultuadas pelos que rodeavam Israel, as quais precisavam ser acordadas (I Reis 28).

A primeira ideia que parece emergir do salmo é que a proteção divina é tal que jamais nos sobrevirá mal ou dano algum. Logo, a cada vez que um sinistro nos ocorre, temos que concluir que a promessa falhou. Mas, não é esta a proposta e aqui está o sentido maior deste salmo: o salmista começa questionando de onde pode vir o socorro de que ele necessita. Só depois disto é que apresenta o Senhor como sua resposta, e o posiciona como guardião. Ele é o guardião que socorre. Socorre como Aquele que protege. Nem sempre o mal é impedido, mas porque Ele está junto e não pisca nem cochila, sempre vigilante, tem o socorro certo no momento preciso; à mão. Isto concorda com o sentido de promessas que afirmam: “Em me vindo o temor, hei de confiar em Ti” – Salmo 56:3; ou: “Estarei com ele na angústia, livra-lo-ei, e o glorificarei” – Salmo 91:15. Também pertence a este entendimento a promessa tão atraente em Isaías 43:2 –Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.”

Acresço uma palavra de sabedoria, tão própria das promessas divinas e que nem sempre recebemos bem, mas que, a despeito de nossas pretensões, se cumpre conforme o propósito divino. Foi Paulo, apóstolo, que a ensinou para nós, dizendo, em I Coríntios 10:3 – “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele mesmo providenciará um escape, para que o possam suportar.”

 

3- Até Onde Ele Guarda?

  • Até onde Ele é: É do que fala a expressão: “O Senhor é quem te guarda”, para dizer que Ele não terceiriza. Não deixou isso a cargo de anjos. O Salmo 34:7 quando fala do Anjo do Senhor, usa de uma linguagem de teofania, fala de Jesus: “O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra”. Muitas vezes, em diversos eventos históricos no Velho Testamento, era Jesus, pré-encarnado. Com Jacó; com Moisés; com Josué; com os pais de Sansão; com Daniel na cova dos leões. Com os três companheiros de Daniel na fornalha em Babilônia. Era Ele sempre.
  • Até onde Sua Presença chega: Junto. Não desde o céu, mas como COMPANHIA. “Tua sombra à Tua direita”. (Ou, lit.: “O Senhor é a sombra ao lado da tua mão direita). Você se dá conta de que vigia a direita do seu corpo 24 horas por dia? Mesmo os não destros, estão atentos ao seu lado direito em todo o tempo. Nosso hemisfério cerebral direito é a porta de entrada e da administração de nossas emoções. O que nos toca os sentimentos, é percebido e recebido pelo lobo direito do cérebro. Isto nos faz pensar no fato de que “abrimos a guarda” da nossa esquerda. É onde Ele Se coloca como guardião. Pois, se projeta a sombra à direita, está posicionado à esquerda. É um lindo recurso de figura de linguagem. Também reforçado na metáfora onde os salmistas O proclamam pelo possessivo, “meu escudo”. O escudo via de regra ficava na mão esquerda.
  • Até onde nossas emoções reclamem e nossas ações, delas decorrentes, nos movam. Se Ele não guardar a saída, de nada servirá guardar a chegada, por isso Ele já guarda desde dentro da casa, onde nos pensamos seguros e achamos que podemos dispensar qualquer ajuda extra.

Isto nos lembra a fala do salmista no salmo 139: “Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim estendes a Tua mão”. Cercado! Como os pintainhos sob as asas da galinha, tal como Jesus propôs.

Isto explica por que disse o salmista: “…o Senhor é a fortaleza da minha vida; de quem terei medo?” – Salmo 27:1. Glória ao Seu Santo Nome! Avance e confie, se você crê no Senhor Jesus! Ele é Quem guarda sua vida.

Decorre daí o sentido poético da expressão: “De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua”. A tradução dos rabinos acrescenta: “nem sofrerás de noite sob o brilho da lua”. Quanto ao dia, sim, lemos que “Suas misericórdias se renovam a cada manhã”, e, concordando com isto, disse o salmista: “Contudo, o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida.”- Salmos 42:8 . Sob o sol, o guardião da alma nos cobre com a sombra de Sua misericórdia, e sob a lua, na escuridão da noite, o cântico da alma que pode com Ele conversar.

Descansa! O Senhor é quem te guarda.

Pastoreio

Salmo 23; João 10:1-15.

Simbiose é uma palavra de uso pouco comum, cujo  significado  figurado é a associação íntima entre duas partes para auxílio mútuo. E diz-se, das partes simbióticas, que elas são ligadas por razões afins.

A Bíblia nos revela a mais bela ilustração de uma estrutura simbiótica, estrutura espiritual, no salmo 23, entre o pastor e a ovelha. Todo cristão que se entende como tal, consegue identificar-se neste salmo como sendo uma ovelha, e Jesus como seu pastor, e isto devido ao texto de João 10 em que o Senhor Jesus Se anuncia como pastor de ovelhas.

Mas saber tais coisas não constitui uma simbiose. O que se destaca no salmo 23, é que o seu autor adora a Deus se sentindo uma ovelha, posicionando-se como ovelha, diante dAquele a Quem reconhece e confessa como seu pastor, de forma efetiva e real.

A linguagem se reveste de uma beleza espiritual, que na tradução do Espírito Santo para nós, torna-a profética para a nossa fé.

Outro tanto, é importante a leitura de João 10, para que o sentido  dessa simbiose fique pleno.

Primeiramente, desejo destacar a auto-visão desse homem de fé, o salmista, vendo-se como ovelha. Ele coloca voz numa ovelha grata, consciente e admirada, logo, adoradora.

O que ele sabe?

Que é ovelha. Sente-se ovelha a partir da visão que tem do Senhor como pastor. O verso primeiro acentua a consciência de ser ovelha, de forma que a interpretação linear da afirmação “O Senhor é o meu pastor”, funciona como alguém que já se sabia ovelha e agora estabelece ou confessa o Senhor como seu pastor.

É interessante que a palavra ovelha não aparece vez alguma no texto, mas os movimentos que se desdobram a partir da visão do pastor, deixam claro como o salmista se vê e se sente. De fato, é a fala de uma ovelha sob pastoreio. É uma fala conclusiva.

O Deus Eterno, no Velho Testamento, via Seu povo como ovelha, e Jesus declara que assim é que Ele vê os seres humanos. Isto indica que fomos criados para ter a natureza de ovelhas, cordeiros, mas na queda de Adão assumimos a natureza de lobos. É dito de Jesus que Ele era o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Ele veio como cordeiro e veio recriar em nós essa essência perdida.

Quando ovelhas tentam se portar como lobos, elas vivem uma ilusão desastrosa e autopredatória. Assim somos nós. Se nos assumimos ovelhas, elegemos pastores que nos guiem e nos deixamos guiar por conta do instinto de dependência próprio de ovelhas. Se procuramos viver como lobos devoradores, elegemos lobos-alfa que ditam nossa existência predatória. E isto no mundo espiritual, no mundo político, no mundo das ideias e das relações parentais e sociais.

O salmista ao se conscientizar de ser ovelha em sua natureza essencial, correu para confessar e assumir o Senhor como Seu pastor. Antes, penso eu, que outro ocupasse esse lugar em sua vida.

O que ele experimenta?

 E então, em decorrência, ele vai desfiando os movimentos de sua existência sob esse pastoreio:

  • “de nada tenho falta”. Bem diferente de “nada me faltará”, onde a ênfase cai sobre coisas, enquanto a primeira ideia expressa ausência da necessidade da busca das coisas. Pois:
  • tem sede saciada;
  • descanso assegurado;
  • coração sem

São movimentos frutos da Presença. Ele está junto ao Pastor, que primeiro o mantém junto a Si, capacitando-o ao descanso, antes de levá-lo aos enfrentamentos.

Como ele vê o pastor no pastoreio que lhe oferece?

Seus olhos o vêem nos efeitos desse pastoreio, daí os verbos “guiar”; “estar junto”, “preparar o pão”, “ungir a cabeça”, e esta, na tradução rabínica tem o sentido de “honrar”. E o clímax da segurança aponta a certeza de que Ele será sempre misericordioso e bondoso como pastor, renovando Suas misericórdias a cada dia.

Depois, veremos como o pastor responde a esta consciência de  ovelha, na fala de Jesus em João 10, e então poderemos ver o paralelismo entre a adoração da ovelha e a oferta do Pastor a ela. É esse paralelismo que estabelece a estrutura espiritual de nossa fé, como seguidores de Cristo nesta geração. Há uma reciprocidade. A ovelha O reconhece, e o Pastor devolve, vendo- Se como pastor dela e outro tanto, ela, como Sua ovelha.

O que Ele sabe? 

  • Ele disse: “Eu Sou o bom pastor”. Está consciente de Seu compromisso com a bondade a favor da ovelha. Ele não pode ser diferente.
  • Jesus assume esse lugar, como ocupando o espaço aberto pela confissão do salmista, como sendo a resposta ao salmo. E revela em que consiste esta bondade: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas…assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.” – João 10:11, 15

O que se deduz daqui, é que todos aqueles movimentos do pastor no salmo 23, traduzem também a forma como Ele doa Sua vida. E o que mais se destaca é o fato de que o Senhor, como pastor, cumpre literalmente o que é próprio à vida de um pastor: ele vive no ambiente de suas ovelhas. Ele entra e fica lá com elas.

O que Ele experimenta? 

  • Entra pela porta no aprisco. Pode ser nosso coração? Sim. Basta lembrar Seu apelo à igreja de Laodicéia em Apocalipse 3:20. O abrir é uma confissão: “Quem me pastoreia é o Senhor Jesus”.
  • Ele conhece cada ovelha pelo seu nome.
  • Sabe ser conhecido por cada ovelha em Isto fala de ambiência. O pastor vivendo tão junto que tudo conhece, pois de tudo participa.
  • Cabe uma pergunta: “Se Jesus realiza Seu pastoreio em sua vida,

Ele  participa   e  pode   participar   de  todos   os  seus  movimentos existenciais?”

“…conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai;…” – João 10:14-15

“…e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora.” – João 10:3. Intimismo. Nunca foi diferente. Sempre como Emanuel, companheiro.

Como Ele vê a ovelha para oferecer-lhe Seu pastoreio? 

  • Carente de ser guiada.

“Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz.”- João 10:4

A expressão “conduzir para fora”, fala da liberdade para viver, enfrentar a vida sob Seu cuidado.

Por que é importante e imprescindível vivermos pela fé a possibilidade desta simbiose que a graça de Deus nos oferece no pastoreio de Jesus?

Porque somos exatamente o que Jesus viu: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.” – Mateus 9:36

Temos a pretensão de ter respostas ou de achar que a carne, ou o mundo, têm as respostas que buscamos, mas eles não podem responder a necessidades eternas. Não nos dão segurança.

A metáfora criada por Jesus a nosso respeito é totalmente pertinente: Porque como ovelhas, não sabemos conduzir nossa vida sem riscos fatais pelos estreitos caminhos da justiça e perecemos. Comemos em mesas erradas, e bebemos em fontes que não saciam. Ele sabe conduzir.

Daí Sua gloriosa promessa: “…Eu cuidarei de ti”. – Oseias 14:8. Glória ao Seu Nome!

Ele Ouve!

Salmo 139: 1-12

“Ó, Tu que escutas a oração…” – Sl. 65:2

“…Eu te ouvirei, e cuidarei de ti.” – Oséias 14:8

“Então vocês clamarão a mim, virão orar a mim, e eu os ouvirei.”

Jeremias 29:12.

Deus assume este compromisso sobre o mais fascinante mistério da experiência de fé, que é a oração. Pensar que falamos ao Deus que ouve a oração, nos leva a querer saber o que Ele ouve, quando oramos; como Ele ouve e até onde Ele ouve. Nosso texto, de onde podemos declinar respostas a estas inquirições, é o Salmo 139, e nós nos ocuparemos em achá-las nos doze primeiros versículos deste texto.

É nosso propósito que estas respostas estimulem você a uma vida de oração eficaz, para viver o que Catherine Marshal um dia chamou de “aventuras na oração,” que é título de um dos seus livros.

Portanto, se falamos ao Deus que assegura nos ouvir, convém pensar:

1- O que Ele ouve. –       vv. 1-4
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos são bem conhecidos por ti. Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.”

Ele ouve o meu interior;

Ele ouve o meu agir;

Ele ouve o meu pensar;

Ele ouve o meu dever;

Ele ouve o meu comportamento;

Ele ouve a minha voz.

Ele é o mais completo e o único perfeito terapeuta da existência humana.

2- Como Ele ouve. –        vv. 5-7
“Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance; é tão elevado que não o posso atingir. Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?”

Ele ouve pelo mover do Seu Espírito em nós. É mais que um ato indicador de Sua onipresença. É habitação interior, intimismo. Ele ouve o coração pelo lado de dentro dele, pois foi Ele quem disse que “do coração procedem todas as saídas da vida” (Provérbios 4:23). E aqui está todo o diferencial entre o cristão e o incrédulo, este, esvaziado de temor e compromisso com Deus: a morada interior do Espírito Santo, o Deus que em nós habita. Paulo afirma isto textualmente em Romanos 8: 26 e 27 – “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.”

 

3- Até Onde Ele Ouve. –  vv. 8-12
“Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá. Mesmo que eu diga que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor, verei que nem as trevas são escuras para ti. A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.”

Até as dimensões do Seu amor eterno: Efésios 3: 18 e 19. Altura, profundidade, largura e comprimento. Está tudo aqui, neste trecho do Salmo 139. Para qualquer direção que nossa vontade ou desvios escolham, Ele tem medida para ela. Ele tem rota, tem rumo.

Glória ao Seu Nome, porque Ele não se limita a ouvir quando nos elevamos, subimos. Mas também quando descemos, caímos.

Não somente se estamos aproximados, mas ainda quando nos distanciamos. Mesmo quando esse distanciar resulta de uma tentativa de elevar-nos: “Se eu subir com as asas da alvorada…” Os atraentes êxtases existenciais, que mais depressa nos afastam de Deus. E Ele ouve, tomando posição em cada um desses extremos para onde somos levados ou decidimos seguir.

E mais: se a luz que há em nós se converte em trevas, seja pecado ou mal, Ele não perde o foco visual a nosso respeito. Daí o salmo 91:7 – “Mil poderão cair ao seu lado; dez mil, à sua direita, mas nada o atingirá.” E esta metáfora: “Mesmo que eu diga que as trevas me encobrirão”, fala de nossos pretensos esconderijos, quando por razões várias sentimos que podemos nos esconder dentro do mutismo de nosso silêncio. Ele nos vê ali e pode ouvir o silêncio falar por nós.

Ele lê os lábios do coração!

Se estivermos em trevas, Ele já disse a Salomão que habitaria nelas.

O que se impõe à nossa fé sobre o conjunto destes argumentos é o que Samuel aprendeu a respeito do significado do seu nome: “Ouvido por Deus”. Todos nós, de alguma maneira somos um Samuel, por causa do Deus que nos ouve, e que o faz com atenção. E sobre tudo o que aqui foi dito, deixemos nossa fé correr livre sobre o trilho da gloriosa verdade encontrada em Efésios 3: 20 e 21, onde o apóstolo Paulo adora, dizendo: “Àquele que é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo com o seu poder que atua em nós, a ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! Amém!”

A Escada do Pai Nosso

Mateus 6: 9-13.

Spurgeon disse ter encontrado num livro de palestras para jovens, cujo título nem autor ele cita, um esboço de sermão sobre o Pai Nosso que o comoveu com a emoção de quem contempla uma jóia perfeita (Sermões de Spurgeon sobre as Grandes Orações da Bíblia, Pão Diário: Curitiba, 2019, p. 161). Imaginem o que eu, tão longe da investidura desse experimentado servo de Deus, sentí ao ler esse curto esboço! Nele não há mais que uma amostragem dos tópicos principais. Tampouco Spurgeon desenvolve um sermão baseado nesse esboço. Mas me senti inspirado a tentar  dilatar esses argumentos, à luz do texto do Pai Nosso, fazendo uso desses tópicos originais e assim compartilhar aqui numa mensagem que estou certo ter   sido o Espírito de Deus que colocou em meu coração.

O pensamento do autor original, incógnito, definiu através da oração do Senhor, as características daquele que ora. E sobre essas características, Spurgeon entendeu que o Pai Nosso se apresenta como uma escada de acesso a Deus Pai, pela oração, que podemos percorrer numa direção descendente, começando pelo degrau mais elevado, e descendo até o último, que toca o chão. Eu pensei em convidar você a ir comigo, acompanhando o pensamento do Senhor, na posição inversa: de baixo para cima, ou seja, desde o primeiro degrau, o do rés do chão.

Na verdade, numa visão geral, percebe-se que o Senhor Jesus nos posiciona no degrau mais elevado, e nos leva a ir descendo a escada, conforme oramos, de maneira que a um só tempo nos apercebemos da posição que ocupamos e daquelas que nos constituem, e como de fato somos diante de Deus, de forma que a mais elevada não anula as anteriores.

Como esta é a oração conhecida de cor por todo bom cristão de qualquer denominação, de católicos a toda ordem de protestantes, convido você a repassá-la comigo agora.

Assim oramos:

Como o filho que tem acesso ao Pai;
Como o súdito dentro desse filho com acesso ao Rei;
Como o servo que constitui esse súdito, com acesso ao Senhor; Como o mendigo que esse servo é, diante do seu Provedor;
Como o pecador penitente que está nesse mendigo, diante de seu Redentor;
Como o pecador fraco e perecível, decaído, diante do seu Auxiliador;e como a criatura esvaziada de tudo, que se apequena diante do imenso poder do Deus Criador, destituída da glória dEle, a qual contempla  ao longe.

Essa caminhada descendente pode ser feita nesta oração, para lembrar-nos que sempre podemos subir por essa escada, a cada vez que nos sentimos junto ao último degrau. E como o número não poderia ser outro, temos na oração do Pai Nosso, sete degraus pelos quais nos chegamos a Deus. Vamos subi-los, um a um:

1- O primeiro degrau é o da criatura destituída da glória de Deus, que se vê dela vazia, mas reconhece que Ele tem poder e um reino. Nessa condição, dizemos: “Porque teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre, amém”. Começamos pelo amém o primeiro degrau. “Assim seja”, como quem diz: “aceito o que dizes a meu respeito. Pequei, e estou destituído da Tua glória, longe do Teu reino e reinado” (Romanos 3:23). E então toco neste primeiro degrau, como o ladrão penitente ao lado de Jesus, na cruz. A primeira coisa que ele fez foi reconhecer que Jesus tinha um reino, e pede que nesse reino Ele se lembre dele que ali morria. Assim começamos nós.

Em seguida, podemos galgar o segundo degrau:

2- Nele se encontra o pecador frágil diante de seus pecados e tentações. Aqui começamos a nos ver aos olhos de Deus: como pecadores decaídos, frágeis, sob tentações, sem poder pessoal algum, altamente perecíveis e fracos, que suplicam: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. É um começo muito bom, porque significa não apenas se ver   como pecador, mas como aquele que necessita do poder de Deus para sair dessa condição. Que sabe não poder se resolver sozinho. É a primeira abertura para percepção da oferta da graça de Deus.

3- Agora, podemos ascender ao terceiro degrau, que é o degrau do pecador arrependido e penitente, que confessa: “Perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores”. Encaramos o pecado, como dívida contraída contra a santidade de Deus. Este degrau é decisivo. Ou me reconheço pecador, confesso, busco perdão para avançar e me igualo a todos os outros como tão pecadores quanto eu, ou não avanço mais, e só me resta descer ao chão para começar tudo de novo. Porque  este degrau tem uma condicional: confissão, reconhecimento pessoal de pecado e compromisso de conceder perdão na mesma medida em que busco ser perdoado. Mas vale lembrar que podemos e até devemos voltar  ao terceiro degrau, sempre.

4- Nosso coração assumiu isso, de fato? Não foi verbalização vazia, sem coração junto, sem verdade? Então posso avançar, e agora o quarto degrau, o meio da escada, me eleva à posição de pedinte, ao reconhecimento de um estado de penúria, mendicância, em que reconheço que não posso e não sou eu nem minha força que pode prover a mim mesmo, mas Ele é a única fonte do meu pão, do que pode me prover a vida e ainda alimentar a alma, então eu peço: “O pão nosso, de cada dia, dá- nos hoje”. E esta forma de pedir: “dá-nos hoje”, ela fala de dependência diária, de nossa insuficiência contínua. Mas como Ele ouve? Ele vê que nossa alma precisa do pão do céu, Jesus, que disse: “Eu Sou o pão vivo que desceu do céu”, e também : “Quem comer a minha carne, por mim viverá”. E então Deus nos alimenta com Jesus, Seu Filho. Até o meio da escada, nada temos a Nada em nós.

5- A partir daqui, providos do pão, começamos a ter participação, a querer participar da vida de Deus e com Deus, e então galgamos o quinto degrau, e pedimos: “Seja feita a Tua vontade, assim na terra, como no céu”. Que traduz uma entrega muito significativa: “Quero ser Teu servo, quero Te servir, fazer Tua vontade”. Olhe onde já chegamos! Aleluia! Mas antes nos alimentamos de Jesus. Por isso foi possível chegar

6- E nossos olhos começam a se abrir, e então temos visão aproximada de Sua realeza e Seu Reino, porque podemos pisar no sexto degrau e dizer: “Venha o Teu Reino”. É a visão de súdito, daquele que por ser servo, aprendeu a estar sujeito e a estar comprometido, que o Vê como o Rei, e que deseja envolver-se na manifestação desse Reino. Aqui, já estamos rendidos, aproximados, porque estamos no penúltimo degrau, antes do topo da aproximação. Aqui estamos nos oferecendo, além de servos, a súditos, sujeitos, adjuntos. Viemos até aqui como servos. Mas também ouvimos Jesus nos dizer em João 15: 15 – “Já não os chamarei servos, e sim amigos”. De fato, amigos de Jesus, porque, por conta dEle, que é o pão de Deus do qual já nos alimentamos, adquirimos participação em Sua E então Deus nos alça ao sétimo e mais elevado degrau, porque nos constitui filhos que então podem com liberdade invocá-Lo como Pai, dizendo: “Pai Nosso”. 

7-O DEGRAU DE FILHO

É o degrau do filho, que quando nEle chega, sabe que tem em Deus seu Pai Celeste, o Pai que está nos céus, mas não afastado, não distante, tanto  que pode ser invocado, pois pode ouvir, e o filho

O invoca: Meu Abba!”, Pai. O adora: “Meu Abba!”, Pai.
E o anseia: “Meu Abba!”, Pai que estás nos céus, onde poderei chegar.”
E o filho entende que quando se aproxima desse Deus Pai em oração, desloca-se dos baixios da vida, da terra, e adentra à atmosfera do céu, ascende, se eleva, se achega, e é recebido.

O Evangelho de João nos diz o meio pelo qual fomos feitos filhos de Deus. E é na condição de filhos que começamos a orar: “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome.” Importante observar que parte de nós o nos oferecermos como servos e súditos, mas ser feito filho, é ação divina, parte dEle para nós (João 1:12). Esta também pode ser a razão por Jesus ter começado de cima para baixo.

A primeira marca de um filho, é herdar o nome de seu pai, e se sabercomprometido com ele. No sétimo degrau sabemos que somos filhos de um Deus que é santo, por isso está nos céus, e assim nos comprometemos a honrar a santidade de Seu nome, pelo qual passamos a ser conhecidos:  eu e você, temos o nome de Deus por sobrenome, por causa da obra de Cristo Jesus na cruz do Calvário.

E então desfrutamos as bênçãos dessa filiação.

O que aprendemos na oração do Senhor é que esse filho em que Ele nos tornou, a um só tempo é filho, é súdito, é servo, é um mendigo faminto de pão, que nunca está saciado, mas tem contínua fome de Deus e de Sua Palavra. Também é um pecador arrependido, é um pecador fraco e decaído, é uma criatura chamada à existência pelo Deus que a sonhou desde os dias da eternidade. Louvado seja Seu Santo e bendito Nome!

Que Segurança!

Romanos 8: 26-39.

 É imprescindível começar a pensar neste magnífico texto da Palavra de Deus, citando outros dois textos muito significativos: “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias  da antiguidade.”- Isaías 63:9 e: “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” – Isaías 64:4.

Pois é exatamente desta extraordinária notícia de que trata o texto de Romanos 8. Basta perceber o versículo 31, garantidamente um eixo desta palavra que lemos neste capítulo: “Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

Deus é por nós! É tudo quanto a fé precisa saber para dar lugar a descanso em nossos corações conturbados. Segurança é o termo que desponta como definição do resultado desta promessa sobre aquele que crê na Palavra de Deus.

Segurança é a mais necessária e imprescindível bênção para qualquer de nós em todos os tempos, e em especial nestes dias ameaçadores nos quais vivemos. A segurança produz descanso. O Deus da nossa salvação sempre insistiu em nos oferecer esse descanso. Jesus o prometeu. O Velho Testamento se serve de imagens verbais de segurança para falar de descanso: “Tirou-me de um lodo de lama e colocou meus pés sobre a  rocha e me firmou os passos” (Salmo 40); expressões de sentido paralelo apontam, nesta mesma direção: “Minha Rocha; Meu Refúgio; Minha Fortaleza; Torre forte; Esconderijo; Eis a Rocha!” E outras mais, de que se serviram os adoradores de Deus para falar de segurança.

Segurança pela fé não traduz escapismo nem negação da realidade. Muita gente, mesmo entre nós, se serve continuamente de um mecanismo de falsa segurança conhecido como negação. Bem longe disso, nosso texto fala de estabilidade da alma mesmo em meio às ameaças. A fé não tem compromisso com a negação. Este texto fala disto. Um coração em segurança desfruta paz em qualquer circunstância. É do calibre da oração  de Habacuque 3.

A segurança vem à fé pelo exercício de crer nas promessas de Deus. E aqui, em Romanos 8, nós as temos abundantes, e com todos os critérios  que nos dão suas garantias.

Por que podemos viver seguros? A começar pela informação do texto eixo: v.31 – Ele é por nós! A nosso favor! E o faz como o Deus Triúno que  Se manifesta em três pessoas distintas e benditas. Já nos seria bastante sabermos dessa garantia à luz daqueles textos de Isaías. Mas Romanos 8 traz um poderoso reforço, revelando a Trindade Santa ocupada em tornar a promessa do verso 31 bem explícita e delineada. Agora vejamos as garantias que o texto aponta para vivermos nossa segurança por fé. Ela é:

 

  • GARANTIDA PELA AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO DE DEUS – 26-27.

Costumamos cultivar o bom hábito de crer na eficácia da oração, e por isso, oramos e estamos sempre dispostos a pedir orações dos outros a nosso favor. Chamamos a estas, em particular, de orações intercessórias, em que aquele que ora, coloca-se diante de Deus no lugar daquele por  quem ora. Pois o texto nos diz tácitamente que o próprio Espírito Santo que passou a habitar em nós, ora a Deus a nosso favor, como intercessor.

É bela a figura criada por Paulo para nos comunicar esta bênção. Ele diz  que o Espírito de Deus, como nosso intercessor, “nos ajuda em nossa fraqueza”, que o apóstolo define como sendo “não sabermos orar como convém”. E nós que pensávamos que a esta altura da vida já sabíamos orar. Até sabemos. Mas como convém? A Bíblia diz que não.

E mais: Ele o faz numa identificação de tal ordem, que expressa com gemidos inexprimíveis o que Deus precisa ouvir a nosso respeito. Sei que o texto diz que tais gemidos são inexprimíveis. Nós sabemos exprimir um gemido muito comum em oração quando o que demandamos produz dor   em nossa alma. E então o usamos: Ah, Senhor! Mas quando se trata de orar por nós, nem este serve ao Espírito de Deus!

Dificilmente acharemos um ser humano orando assim por nós.

Mas a glória desta bênção reside no fato de que Ele sabe o que Deus quer ouvir (v.28). Sua intercessão tem deferimento garantido, porque Ele apresenta a oração de acordo com a vontade de Deus Pai, que é também a sua. Lembremos: Paulo diz que ao orar por nós, Ele o faz porque nós não sabemos orar como convém. Logo, Seus gemidos convêm a Deus.

Depois, nossa segurança se amplia pelo agir de Deus Pai.

 

  • GARANTIDA PELO PROPÓSITO DE DEUS PAI- 28-33

 

Ele atua em todas as circunstâncias a nosso favor. Nunca contra. Ele é por nós!

Não devemos confundir. O texto não diz que Ele cria ou impede situações. Não. Ele age nelas, uma vez que ocorrem. E o faz para que atendam a Seu propósito. Nada Ele perde!

Porque Ele nos atende, não como quem pega um número marcado numa agenda. O v.29 diz que somos conhecidos Dele. Não no momento em que chegamos para orar, ou quando o holofote das ocorrências chama Sua atenção para nós. Pelo contrário: o advérbio “antemão” fala de um tempo que remonta à eternidade. Nós não conhecíamos a existência, mas o Autor da Vida já nos conhecia em Seu propósito. E porque nos sonhou, nos predestinou, e chamou e justificou e glorificou, ou seja, colocou dentro de nós o Espírito da Sua glória (I Pedro 4:14).

E como se não bastasse, garantiu nossa redenção entregando Seu Filho à morte em nosso lugar e a nosso favor. Por isso foi dito: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo”.

Se somos acusados, seja pelo diabo, gente ou nossa consciência, Ele assume nos justificar por meio da fé em Seu Filho. Glória ao Seu Nome!

E assim temos que, por conta da ação de Deus Pai, podemos estar seguros: quanto à ação de Deus; quanto à aceitação de Deus; quanto a fazermos parte de Seu plano eterno, pessoalmente; quanto a sermos resgatados na morte de Jesus e quanto a sermos por Ele justificados se formos acusados como pessoas   que erram, que pecam. E ainda tem mais:

  • GARANTIDA PELA REALIZAÇÃO DO FILHO DE DEUS – 34-39.

E temos a segurança dilatada pela obra de Cristo Jesus a nosso favor. O texto diz que por causa Dele não podemos mais sofrer condenação;

E afirma ainda que Ele também intercede por nós. Esta informação se repete em Hebreus 7:25. E isto é simplesmente belo: Deus, diante de Deus, clamando pelos filhos de Deus. O Espírito Santo e o Filho, fazem de nossa vida objeto de Seu cuidado e oração diante do Deus de toda a criação. Entenda assim: a santidade de Deus intercede por nós; a identidade humana de Deus, o Deus Encarnado, intercede por nós. E então o Deus Eterno age a nosso favor.

E ainda, por conta de tamanha segurança, somos desafiados a crer que aquela expressão “todas as coisas” de que fala o v.28, ainda que possam  ser enunciadas, quaisquer que sejam, não podem esvaziar o amor  que Cristo assumiu por nós, cada um em particular. Por isso o apóstolo nos apresenta uma galeria delas, nos versos 35, 38 e 39. Inclui a morte como uma de suas possibilidades, e arremata: “Nada poderá nos separar desse amor que Cristo tem por nós”. Os versos 36 e 37 revelam que a segurança não consiste em escapismo, em não enfrentar. Sim, já vimos isso. Não é negação. Antes, é enfrentar e vencer. Isto nos torna conquistadores nEle. Aleluia!

A esta altura, ainda cabe perguntar se podemos nos sentir absolutamente em segurança? Toda a Bendita Trindade Santa age a nosso favor. É por nós. Voltada para nós.

Um dia atendi a uma mulher que padecendo de um transtorno somatoforme, vivia sempre se sentindo vítima provável de morte iminente por enfermidades que sua mente criava. Procurei fazê-la entender que seu  corpo havia sido criado para viver, não para morrer, e por isso ela tinha alguns “steps” aprovisionados. Lembrei a ela que estava dotada de dois pulmões, embora pudesse viver apenas com um. Dois rins; duas glândulas suprarrenais, de igual forma, e fui mostrando a ela o funcionamento de órgãos que supriam a falência hipotética de algum outro. Quando encerrei minha exposição, ela me disse: “Vendo dessa maneira, eu me sinto mais segura agora”.

E você? Diga à sua fé que se a oração de um justo a seu favor, pode muito em seu efeito, quanto mais saber que o Deus Espírito e o Deus Filho assumiram orar de contínuo diante de Deus Pai a seu favor, Esse Mesmo Deus que recebendo a oração atende, “agindo em todas as coisas a favor dos que O amam e são chamados segundo o Seu propósito.”

Isto é segurança para nós. Glória ao Seu Nome!

Limpo ou Sujo

Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.”- Efésios 4:29.

Às vezes o Evangelho de Jesus nos traz advertências que parecem “descer atravessado”, porque calca algo em nossa visão e comportamento na vida não condizente com o padrão e natureza próprios a quem nasceu de novo e que, portanto, tem o Espírito Santo de Deus habitando em seu interior. Via de regra essas situações se tornam embaraçosas quando tais advertências são tomadas como simples recomendação ou conselho. Do tipo daquelas máximas que fazemos bem em atender, mas que podemos desprezar ou suspender conforme nos for conveniente, sem qualquer prejuízo. Mas não funciona assim, num terreno sagrado onde foi dito que “por nossas palavras seremos julgados e por elas condenados”.

Esta questão de palavras, do que sai pela nossa boca, é levada muito a sério no Reino de Deus. É tida, a questão, no nível de confissão, de forma que somos por diversas vezes advertidos, desde os livros de sabedoria do Velho Testamento, a não precipitarmos palavras, nem gritarias, nem maldizer.

O presente texto, Efésios 4:29, pode servir para denúncia e condenação de muitos crentes hoje. A forma negligente, displicente, indecorosa ou ociosa de falar, compromete:

Moralmente, porque no terreno da psicanálise a linguagem chula denuncia caráter, e é lida como “portar fezes na boca”. “Coprolalia”. Minimamente repulsivo.

Espiritualmente, porque o texto de Efésios emprega um termo original, traduzido por torpe, na semântica, que significa “feder a peixe podre”.

Também espiritualmente, porque o mesmo texto nos proíbe, tacitamente, como cristãos, de fazer uso desse tipo de linguagem, para em seu lugar, só abrirmos a boca para dizer o que deve “conceder graça aos que ouvem”.

Ainda espiritualmente, porque na economia de Deus, o homem dará conta (prestará conta) a Ele de toda a palavra ociosa ou inútil, que disser. O texto é mais amplo e explícito: “O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado.” – Mateus 12:35-37.

Se isto tudo não bastasse quanto ao fato de que somos vistos e tidos como um povo de confissão, conhecido pela palavra que confessa e pela legitimidade do que fala (“seja o vosso falar sim, sim ou não, não; porque o que passa disso é de procedência maligna”), Jesus deixa claro que nosso falar é prova dos conteúdos que nutrimos dentro de nós, quando afirmou: “…a boca fala do que está cheio o coração” – Mateus 12:34.

E quanto a nos associarmos aos que usam de chocarrices e palavras vis, injuriosas e indecorosas, somos devidamente advertidos: “As más conversações corrompem os bons costumes” – I Coríntios 15:33. Pessoalmente, aprendi a prezar e me deixar sensibilizar pelo que me fazem ouvir, de maneira que às vezes opto por fazer profilaxia auditiva, para ficar em paz com minha edificação espiritual. Quando não dá para me servir de filtros “auditivos”, prefiro evitar o som e quem o articula indevidamente.

Bom seria se os crentes desta geração cuidassem em ter o Espirito Santo de Deus também em suas línguas, porque uma fonte não pode dar água doce ou amarga ao mesmo tempo.

Glorificação Sem Mito

Dias depois de dizer essas coisas, Jesus tomou a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago. Surgiram dois homens que começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. Apareceram em glorioso esplendor e falavam sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam dominados pelo sono; acordando subitamente, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. Quando estes iam se retirando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. (Ele não sabia o que estava dizendo.) Enquanto ele estava falando, uma nuvem apareceu e os envolveu, e eles ficaram com medo ao entrarem na nuvem. Dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido; ouçam-no!” Tendo-se ouvido a voz, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram isto somente para si; naqueles dias, não contaram a ninguém o que tinham visto.” Lucas 9:28-36.

Este relato vem descrito nos sinóticos, mas Lucas nos traz detalhes preciosos, como ao dizer que Moisés e Elias apareceram em glorioso esplendor e que falavam sobre a partida de Jesus a se cumprir em Jerusalém. Os três relatos concordam que essa transfiguração de Jesus ocorreu num monte, e que Jesus havia ido para ali somente na companhia de três de Seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Mateus registra que os três discípulos dormiram enquanto Jesus orava, e foram acordados pelo esplendor do fenômeno. Viram Jesus na companhia dos  dois célebres personagens do Velho Testamento e ouviram a voz que ecoou do céu, enquanto todos foram envoltos em nuvem.

Nossa reflexão corre sobre o discurso do Pedro estupefato com tamanha maravilha: “Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. E ainda a nota posta por Lucas: “Ele não sabia o que estava dizendo”.

Pedro é pareado por grande parcela dos adoradores de Deus na Igreja de nossos dias. Reagiu por movido pela emoção, pelo impacto do espetáculo visual, perdendo o senso racional da proposta do milagre.

Quais os possíveis propósitos daquele milagre? No que dizia respeito ao Senhor Jesus, a comunicação das coisas por acontecer com Ele em Jerusalém. Fica para fora de nosso alcance justificar as necessidades disto. Mas não deixa de ser emblemático saber que o primeiro profeta, Moisés, é ladeado pelo profeta por excelência, tipológico, Elias, para serem os portadores ao Messias de coisas concernentes à Sua partida, considerando-se todas as implicações do processo como ela se daria. Mais emblemático porque Jesus estava assessorado naquele momento pelo espírito da Profecia figurado nas pessoas de seus mais célebres representantes. E mais: aquele momento descortinava para a igreja minimamente representada pelos três discípulos, o fato da obra e morte de Cristo ser e ter o testemunho da palavra profética desde os primórdios anunciada: Ele iria cumprir em Jerusalém, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Mas no que tange ao propósito divino, também Pedro não entendeu que a Voz divina que irrompeu na cena, declarava à igreja a supremacia do Filho de Deus sobre a voz da Lei, representada por Moisés, e sobre a autoridade profética representada por Elias. Porque sobressai o fato do Pai ter dito em meio a tudo: “Ouçam-No!” Por que ordenar que Ele fosse ouvido? Ele vinha sendo  ouvido desde as primeiras articulações: “Sigam-me”, “Venham após Mim”. Mas o significado último da voz divina é, minimamente: “ouçam-no para além da Lei e  dos Profetas. Ouçam-No, daqui em diante. Ouçam, porque agora minha voz se traduz nEle, cumprindo a Lei e os profetas”.

Pedro também não entendeu que a proposta da transfiguração não visava a eles três, nem pretendia apresentar um espetáculo de culto a ser contemplado. Não entendeu que a manifestação era um momento singular, proclamador, não meramente pragmático; mas cumpria uma missão de alcance universal e  perpétuo, não somente imediato e ocasional. Os meios não eram significativos por si sós, nem os personagens contavam com ou além de Jesus. Eles desaparecem, tudo volta ao normal, tal como estava antes que ali subissem, e restou Jesus apenas, em meio a tudo aquilo.

Porque Pedro não compreendeu que todo o cenário e eventos corriam em torno  de Jesus e só em função dEle, propôs reter consigo e para eles, aquele momento de glória. Não se apercebeu de que o Cristo cheio daquela glória instantaneamente deslumbrante, era o mesmo visto ali na humildade de sua humanidade encarnada, tão gente quanto eles eram gente. E não entendeu ainda que não cabia à Igreja, por eles três representada, pretender fazer nichos dessa glória instantânea, com a pretensão de retê-la e poder usufrui-la sob  seus  critérios. Pedro não se deu conta de que sua proposta sugeria transformar a glória em mito, acondicioná-la num ambiente restrito, para onde todos que pretendessem dela usufruir, teriam de ir, como numa romaria. Contrariando tudo isso, Jesus não lhe dá qualquer resposta, e desce do monte da mesma forma como para lá subiu. Saiu dentre o povo até aquele espaço e momento, e retorna para o meio do povo, de igual forma. Era o mesmo antes, tanto quanto depois.

Quando copiamos Pedro, mitificamos o mistério da fé, e o culto. Queremos momentos de glória no seguir a Jesus, e procuramos fazer com que a glória se manifeste com evidências, deslumbres e encantamentos. “Enfeitamos” o Cristo de Deus com aparatos nossos, segundo nossos critérios e dogmas de culto, e dizemos ao povo que venha vivenciar essa experiência de glória em nossas tendas, porque presumimos poder e saber reter a glória em tendas para que ela se evidencie em dias, horas e locais sobre os quais decidimos ter o poder de fazer acontecer. Porque no fim de tudo, Cristo, a única Palavra, e somente como sendo  a Palavra, é simples demais para servir de chamariz e para ser adorado.

Estas são as deploráveis cópias de Pedro feitas em muitos de nossos arraiais cristãos dentro desta geração. Mas a glória do Filho de Deus está oculta naquilo que Ele é: a Palavra viva. Cada vez que ela é proclamada, Deus fala desde o céu, e a cada vez que fala Ele vai conduzir nossa atenção e interesse para a Pessoa do Seu Filho, simples em sua encarnação pela qual proclama redenção por meio do Seu sangue, que só podia ser vertido em sua humanidade real como a da igreja que marcha na terra. Quando a igreja “desce do monte” para os arraiais da vida, ela encarna seu Cristo e Senhor, tão gente e tão natural como o povo por quem se deu. Sem brilhos, sem impactos, sem fenômenos ou espetáculos.

A glória que resplandece nos aguarda no céu. Aqui, a Igreja é humana e percebida em sua simplicidade, tal como o Cristo que com ela do monte desceu.

Jamais Despreze

“Se Timóteo for, tomem providências para que ele não tenha nada que temer enquanto estiver com vocês, pois ele trabalha na obra do Senhor, assim como eu. Portanto, ninguém o despreze. Ajudem-no a prosseguir viagem em paz, para que ele possa voltar a mim. Eu o estou esperando com os irmãos.”- 1 Coríntios 16:10-11.

Havia a possibilidade de Timóteo, o jovem discípulo de Paulo, ir ao seu encontro passando por Corinto. Com toda certeza, ao chegar à cidade se deteria entre os irmãos, para descansar e prosseguir a jornada; para ter comunhão e com certeza se aprovisionar de recursos, ofertas dos irmãos para levar ao apóstolo. Isto por certo era esperado. Basta ver o verso 17 deste mesmo capítulo.

O que se destaca para mim é a ênfase do apóstolo aos coríntios quanto a receber Timóteo, numa advertência significativa: “ninguém o despreze”. Ao que parece, talvez por conta de sua juventude, Timóteo fosse propenso a ser desprezado, ou sofrer desprezo mesmo da parte dos crentes entre os quais militava, porque numa carta de orientação do apóstolo para ele, Paulo expressou um desejo, um voto, que soou como uma oração: “ninguém despreze a tua mocidade” (I Timóteo 4:12).

Fico pensando quão doloroso deveria ser para Timóteo a possibilidade de experimentar desprezo, mesmo no meio da Igreja de Cristo.

É meu parecer que o desprezo é o que de mais vil pode acontecer a um ser humano. Ele traz em seu bojo de dor e tristeza a carga do esquecimento, do se sentir rejeitado, apequenado, sem valor. O conceito desprezível carrega num significado que é um misto de nojo e não aceitação. É pior que o ódio, porque no ódio existe um objeto, uma presença e com significado. No desprezo o objeto deixa de ser. É como uma inexistência.

O desprezo ou o ser desprezado cai sobre sua vítima com o peso da menos valia, do ser tido por nada, ficar esquecido, à margem.

Por mais cruel que pareça, ser desprezado ou sentir-se desprezado é experiência vivenciada por muita gente em várias circunstâncias da vida, às vezes até mesmo dentro de seu lar. Lembro de ter ido visitar um idoso enfermo num lar de cristãos e encontrá-lo caído ao lado de sua cama, coberto por picadas de mosquitos, no escuro do quarto; e quando questionei os familiares, me responderam: “Já cansamos de sempre colocá-lo de volta na cama. Ele cai o dia inteiro”. Eu sabia que aquele pobre homem, antes do AVC que o vitimou, havia sido escorraçado pelos familiares por ter sido descoberto como adúltero. Uma tristeza profunda me invadiu naquele dia.

Quando adolescente, costumava ir aos sábados visitar idosos num lar de acolhimento que funcionava na rua em que residia o pastor de minha igreja. Ali chegávamos e cantávamos para os idosos, orávamos, ministrávamos a Palavra e depois tirávamos um tempo para conversar com os que estavam lúcidos. Duas situações me marcaram muito: o fato dos que haviam perdido a lucidez nunca mais terem sido visitados pelos familiares que ali os colocaram, e a história de um deles, lúcido, de ascendência árabe, que nunca mais vira a filha, a respeito de quem sempre falava conosco, saudoso, mas mantendo a esperança de que mais dia menos dia ela iria chegar. Eu saía dali com a dorida sensação de que aquele era um ambiente de vidas desprezadas, sem nunca terem sido desprezíveis.

E este é o nosso ponto: a diferença entre ser desprezível e desprezado. O desprezível é apodo próprio àqueles que são caracterizados por uma personalidade sórdida, caráter maligno e nefando. O desprezado é passivo, é vítima geralmente indefesa da indiferença de desprezadores. Mas Deus vigia sobre os desprezadores: “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei;… – Atos 13:41 ARC.

Em contrapartida, Ele Se volta gracioso a favor dos que são desprezados, rechaçados, diminuídos pelos soberbos, postos à margem da assistência, do cuidado e da valoração. E então a estes diz Sua Palavra: “…a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” – Salmos 51:17 ARC.

É ainda dEle que ouvimos o grande superlativo de oferta de amor, sobrepondo-se ao amor materno, quando fala da possível mãe abandonadora capaz de se esquecer do próprio filho: “Pode uma mulher esquecer-se tanto do filho que cria, que se não compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas, ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, me não esquecerei de ti.”- Isaías 49:15 ARC.

No coração amoroso de Deus há agasalho e acolhimento, porque Ele nos pretende junto a Si. Ele é o Deus cuja Palavra afirma: “Porque o Senhor não rejeitará para sempre”- Lamentações 3:31.

O antídoto contra o desprezo está numa atitude simples, que não custa nada: atenção. E atenção é atributo de pessoas educadas. Ainda mais quando cristãs. Jamais despreze. E ore pelos que têm sido desprezados em filas de busca de provimento e socorro. E no trato interpessoal do dia a dia, fique atento; ofereça atenção; e assim cada um de nós, num gesto tão simples, vai alçar vôo sobre o abismo que separa o empático do desprezador.

O Mistério da Tijela

Chamo sua atenção no texto a seguir para um ponto que despertou minha curiosidade: o texto de I Reis 19: 5 e 6, que registra a misteriosa história de uma visitação angélica, feita ao profeta Elias no deserto do sul da Palestina de seus dias – “Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”. Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.”

Nunca me prestei a especular sobre textos bíblicos e menos ainda a procurar resolver enigmas ou pretender respostas com as quais a Palavra de Deus nunca se ocupou. Mas, estou apenas espicaçado na minha curiosidade, se é que você pretende acompanhar-me nela. Explico:

Elias estava num lugar deserto, disposto a morrer. Estava em plena crise de desistência da vida. Não digo que ele pretendeu se entregar à inanição, mas fica óbvio que esta seria sua sorte inevitável, por estar num lugar deserto, sem fonte d’àgua e sem pão. É quando surge um anjo que o desperta do seu sono de esgotamento e o faz comer pão assado sobre brasas e beber água de uma jarra. Não era miragem nem delírio. Mas uma situação real que se repete. Elias come, bebe e torna a deitar-se para dormir. O anjo o desperta de novo e o estimula a comer outra vez, advertindo que ele teria um longo caminho de retorno a percorrer. Só aqui já somos surpreendidos pelo incomum do milagre: pão sobre brasas. Não sei quantos pães eram. Menos ainda de que tipo, mas o texto nos informa que Elias tornou a comer e com a força daquela comida, caminhou de volta 40 dias. A quantidade aqui não é o que conta. Nem o texto nos diz que ele passou 40 dias alimentando-se do mesmo pão, o que manteria ainda a natureza do milagre. Mas o milagre se agiganta para mostrar que o pão, uma vez comido, o sustentou por 40 dias.

Acredito ser possível ao nosso entendimento aceitar pela fé que um pão produzido por anjo tenha tamanha eficácia. E também que um anjo produza fogo para assar o pão que fez. Mas surge o enigma do jarro. De onde ele veio? Seria de fabricação humana? E se o fosse, como o anjo o obteve? De quem o “comprou” ou a quem pediu? Produziu um jarro num passe de mágica como Mandrake?

Não temos resposta. Pode parecer a você infantil minha inquirição, mas ela é importante para mim. Ela me faz pensar que a jarra veio do mesmo lugar de onde o anjo trouxe o “super” pão. Ela já existia nesse espaço, habitat do anjo; lugar este que o apóstolo Paulo chama de “regiões celestiais”, onde há artefatos físicos e sólidos tanto quanto os daqui. Um mesmo lugar a respeito do qual Jesus disse que ali beberá conosco do fruto da vide. As taças já estão lá. Jarras e taças. Sólidas e reais.

O mistério da jarra me espicaça a expectativa do céu, ao qual Cristo Se referiu como “a casa do Pai, lugar de muitas moradas”.

Não só. A jarra do anjo, tanto quanto o pão e a água naquele deserto, providos para que o homem de Deus consumasse sua missão na terra, me fazem pensar que servimos ao mesmo Deus, a quem sempre tudo é possível, em meio aos improváveis, para criar o novo e o surpreendente em nossas vidas, até que cumpramos cabalmente Seu propósito em nossa jornada.

Admirados

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!”- Salmos 8:1.

“Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.”- Salmos 19:1.

“E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.”- Isaías 6:3.

“Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

E quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles! – Salmos 139:14, 17.

“Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!”- Lucas 2:14.

O que estes textos têm em comum é a interjeição de um coração admirado e surpreendido por prestar atenção na glória de Deus vista no produto de Sua obra criadora. Daví, os serafins na visão de Isaías e os anjos da anunciação do primeiro natal, fazem eco entre si no coro de interjeições admiradas. Com abundância as palavras “glória”, “admirável” e “maravilhoso” são empregadas para expressar o que sente a alma alagada de beleza.

O que eles têm para nos ensinar desde seus ambientes escolhidos para a contemplação, (o céu aberto de uma escura noite, um templo de serviço espiritual, ou as campinas de uma noite fria em Belém), é que parar, deter-se para perceber, sentir, deixar-se inebriar; impõe-se contra a corrida do cotidiano incréu e vazio que nos leva à indiferença quanto ao belo e majestoso, impregnado das marcas do poder criador do Deus Eterno. No entanto, essa mesma indiferença sofre suspensão naqueles que não se apercebem e reputam por lugar comum aquilo que o homem não fez, quando detêm-se admirados ante os artefatos descartáveis do gênio humano: carros, grifes estéticas, robótica e que tais. É reedição literal de Romanos 1:25 – “pois mudaram a verdade de Deus em mentira e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador…” E quantos, dentre os que foram preenchidos com o Espírito da glória para adorarem em Espírito e em verdade, são achados nessa contramão do direito divino!

Adoradores são os que admiram o Criador a partir das coisas criadas. Rendem-se diante de belezas que o gênio humano não pode produzir: dos matizes ordenados de uma flor, aos olhos sorridentes de um neonato. De um vale profundo em direção ao seio da terra, ao pináculo dos cumes montanhosos que parecem aplaudir altaneiros a glória dAquele que habita nas Alturas. Do som de águas que fluem céleres, aos timbres variados de pássaros ocultos entre folhas. Na surpresa do exercício da misericórdia entre os homens aos seus pares.

E tudo isso permeado ainda pelo invólucro de uma natureza decaída, que gemendo, aguarda o dia da manifestação de sua glória, para o que foi criada.

E quando lemos que toda essa glória criada, disponível para ser contemplada e inspirar adoração, foi feita para nos embelezar a vida e dentro de nós suscitar  nosso melhor e o mais elevado dentre os nossos sentimentos!…

Eu e você, criados tanto quanto tudo mais, fomos dotados de capacidade de percepção, de sensibilidade cognitiva para ver, sentir e admirar, e então render adoração, agradecidos.

Deixe seu cântico de adoração rendida e grata, ao amanhecer. Admire o brilho da manhã ensolarada. Divirta-se com o som e a dança das gotas de chuva. Aspire o aroma da brisa da tarde e diga: “Ó, Senhor, Senhor nosso! Quão admirável é o Teu Nome na minha vida!” Pois Ele o fez para você também, como co-herdeiro pela fé, de Seu Santo Filho Jesus.

Deus Cuida

Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?” – Mateus 6:26-30

Foi Jesus quem o disse. E o fez para dissolver a ansiedade e inquietação de nossos corações, que sofre porque se sente o único responsável ou único capaz de dar conta do devir da vida.

Jesus o disse porque Lhe cabia comunicar esta boa nova, por ser fonte de Verdade e porque Lhe cabia revelar a vontade do Pai Celestial para com Seus filhos.

Jesus o disse porque sabia que a ansiedade, subproduto da queda que incutiu no homem o gérmen da independência quanto a Deus como sua fonte, não desaparece por conta desse homem nascer de novo, viver uma nova realidade espiritual por obra da graça. Não. A ansiedade como tantas outras fraquezas inerentes à queda, prevalece como erva daninha na alma, como parasita negativista na experiência espiritual. Precisa ser arrancada, anulada. É processo depurativo e como só a Palavra viva faz isso, é dela que Ele Se serve para depurar. É daí que decorre a fé que se aninha em Deus e aniquila a ansiedade.

Então ataca a ansiedade dizendo: Ele cuida. Cuida na qualidade de pai. Um Pai-Deus. É como se fizesse eco com a mensagem de Salmo 46: 10 que proclama: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus…”

Então metaforiza em cima de aves do céu e lírios do campo. Dizendo: “Olhem para eles!”

Quero olhar para eles agora, e convido você a fazer isso, à luz desta Palavra do Senhor. Lá estão eles: aves no céu; lírios no campo. Se eles pudessem pensar e ter noção de si mesmos, acredito que fariam estes arrazoados, sendo aves: “Nada me falha. Sou apenas o que sou, mas estou sob cuidados. Ele está cuidando. Vôo em busca de meu pão. Faço meu ninho. Vivo entre predadores, mas estou sob os cuidados dEle. Por que? Não sei. Sou apenas o que sou, mas por razões que não me pertencem, Ele cuida de mim. Há outros melhores que eu? Certamente! Há outros superiores a mim? Certamente! Mas Ele cuida de mim. Nada fiz para que Ele haja assim para comigo. Apenas sou. É coisa dEle. Ele dá conta. Então eu canto.”

Os lírios diriam: “Ele cuida. Não sei o que vê em mim, mas me vestiu de branco, como de justiça, embora eu tenha os pés no lodo. Há sujidades abaixo, mas resplandeço em minha alvura como que incontaminado. Minha forma de ser é um milagre, porque nada nem ninguém poderia produzir meus matizes e detalhes que me são peculiares. Há riscos ao meu redor? Muitos. Pode o solo secar; o sol tisnar minhas pétalas; não chover e vir a sequidão ou mesmo enxurradas que me arrastem daqui. Mas Ele cuida. Não teci minhas pétalas, mas estou vestido de gala. Ele o fez! Por isso exalo o meu perfume”.

Jesus disse que eu e você somos mais. Valemos mais. E isso porque para conosco Ele é mais. Mais que Deus criador. É Pai. Descanse. Ele cuida, porque Ele é.

Ouvidos Cavados

Salmo 40

Nós vamos dividir este salmo de Daví em três partes, não simétricas, mas de acordo com a significação de seus resultados em torno de um eixo revelacional que podemos ver no versículo 6: “Sacrifício e oferta não pediste, mas abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não exigiste.” – Salmos 40:6.

  1. A primeira parte compreende os vv 1-5, e eu dou a ela como título: O Adorador
  2. A segunda parte compreende os versos 7- 11, e a ela dou como título: O Adorador
  3. A terceira parte compreende os versos 12-17 e dou a ela o título: O Adorador Responsável ou Comprometido (Com a realidade da vida e a santidade de Deus).

Cada uma delas é decorrente do que o verso 6 informa. Qualquer de nós prefere ser achado apenas na primeira parte, mas isto não traduz o resultado de um trabalho divino que o verso 6 aponta, e nem nos capacita a viver na dimensão do que as duas outras partes revelam e que é a razão do processo divino anunciado no verso 6. Então comecemos por ele, que é o eixo em torno do qual tudo gira.

Para um confessor criado e doutrinado num sistema religioso onde toda e  qualquer tentativa de proximidade a Deus tinha de passar imprescindivelmente pelo ritual de sacrifício de sangue ou sacrifício pacífico, holocaustos e semelhantes, como era o caso dos judeus, entre os quais o salmista, a descoberta de que Deus abre mão de tais exigências para uma aproximação livre, onde o ofertante podia levar a própria vida como um sacrifício vivo e racional, só poderia ocorrer debaixo de ação divina incomum. Esta abertura teria de proceder do próprio Deus. Nós a conhecemos pelo nome de “graça” desde a Cruz de Cristo. O salmista a experimentou e traduziu isto para nós na expressão: “abriste os meus ouvidos”. O sentido original é muito intenso, significando antes: “cavaste ouvidos em mim”.

Há um sentido metafórico na expressão, muito significativo. Aponta na direção de que Deus tomou a Seu cargo capacitá-lo a ouvir além da mera letra, ouvir com ouvidos internos, capazes de discernir a voz divina que comunica Sua vontade  real para além dos significativos que as palavras traduzem.

O primeiro alcance foi descobrir que Deus está além de ofertas rituais, e mais, ou seja, segundo e terceiro alcances, respectivamente: É a mim que Tu queres: “Aqui estou!” e: Conto pessoalmente nos Teus  planos e propósitos: “No rolo do livro  está escrito a meu respeito”. Belo. Concorda com o pensamento visto no salmo 91:11 – “Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos;” e Salmo 56:8 – “Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro?”

A partir deste entendimento de “ouvidos abertos”, audição espiritual, então vem a validade das respostas vistas no corpo do poema, conforme alinhavamos acima. Medite nelas, texto e ouvidos abertos, cavados por Deus. Deixe que Ele lhe fale, além da letra.

Quando A Cegueira Deixa Ver | Atos De Discípulos (21)

“Enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. Chegando em Salamina, proclamaram a palavra de Deus nas sinagogas judaicas. João estava com eles como auxiliar. Viajaram por toda a ilha, até que chegaram a Pafos. Ali encontraram um judeu, chamado Barjesus, que praticava magia e era falso profeta. Ele era assessor do procônsul Sérgio Paulo. O procônsul, sendo homem culto, mandou chamar Barnabé e Saulo, porque queria ouvir a palavra de Deus. Mas Elimas, o mágico (esse é o significado do seu nome), opôs-se a eles e tentava desviar da fé o procônsul. Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse: “Filho do Diabo e inimigo de tudo o que é justo! Você está cheio de toda espécie de engano e maldade. Quando é que vai parar de perverter os retos caminhos do Senhor? Saiba agora que a mão do Senhor está contra você, e você ficará cego e incapaz de ver a luz do sol durante algum tempo”. Imediatamente vieram sobre ele névoa e escuridão, e ele, tateando, procurava quem o guiasse pela mão. O procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, profundamente impressionado com o ensino do Senhor.”
Atos 13:4-12

Um dos mais tradicionais cânticos evangélicos, datado do século XIX é o inglês Amazing Grace (Graça Admirável), em cuja letra um verso afirma: “Eu estava cego, mas agora eu vejo”.

Deixamos Paulo e Barnabé saindo de Antioquia e agora os encontramos em Pafos, acompanhados por João Marcos, que os auxiliava. Nosso texto registra um enfrentamento espiritual cujo desdobramento é notável pelos contrastes que estabelece dentro da maravilhosa saga que envolve a práxis da Revelação na missão da Igreja. Porque sinaliza nesse conflito entre luz e trevas, o primeiro desafio na vida do cristão, a diferença entre ser cego e ter visão, aqui vistos no paradoxo entre cegueira perpetrada pelo diabo e a cegueira produzida por Deus, em caráter punitivo ou transformador. Vamos entender isso, emparelhando os textos de Atos 9, com II Coríntios 4 e este de Atos 13.

Comecemos por II Coríntios 4:4 – “O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.”
A ideia de um entendimento cegado pelo diabo para impedir que a luz do evangelho seja percebida, é lógica para nós no terreno da fé. Evidente que o diabo, o “pai da mentira”, não quer que alguém enxergue a verdade e creia. Logo, uma vez sabedores que o homem natural está cego pelo diabo em seu entendimento, presumimos que Deus inverte o processo para que esse homem enxergue e creia. É o que aponta a letra de “Amazing grace”.

Então lemos em Atos 9 que Saulo de Tarso, perseguidor da Igreja, é barrado na estrada para Damasco por uma visão de Cristo, e se converte. Ato contínuo, é cegado pela mesma luz que lhe destampou os olhos do entendimento que o diabo mantinha cegos. Deus o cegou temporariamente, até que após a imposição das mãos de Ananias, escamas caem-lhe dos olhos e ele volta a ver.

Temos agora nosso texto em apreço mostrando que Elimas é cegado pelo poder de Deus, através da palavra de Paulo. Evidente que a diferença sensível entre as cegueiras mencionadas reside no fato de que o diabo opera a cegueira no entendimento, e Deus, nestes dois relatos, a opera no terreno físico. Em Elimas, em caráter punitivo, ferindo-o com juízo. E quanto a Saulo de Tarso?

A mim parece que ocorre com Elimas o cumprimento do juízo previsto em Romanos capítulo 1, onde somos avisados que aos que insistiram em permanecer endurecidos de coração mesmo em face da verdade, Deus os entregou a uma disposição contrária à possibilidade de virem a crer. Isto é afirmado por três vezes (v.24;26 e 28). Aqui o homem que já vinha cego pelo diabo, no seu entendimento, por conta de sua procrastinação, fica impedido por Deus de ter os olhos do entendimento abertos para crer na verdade. A ação divina gerando uma cegueira real em Elimas, serve como convincente ilustração disto, para nós.

Mas a sabedoria de Deus é vista na cegueira temporária feita a Saulo, onde não é operado um juízo, mas ao que parece, a preservação da visão revelacional que fica retida em suas retinas até o encontro com Ananias, como relatado em Atos 9. Dependência, quebra de autonomia, geração de obediência irrestrita à ordem divina, tudo isso ocorre em consequência dessa cegueira temporária. Outro tanto, Ananias se depara com o feroz ex-perseguidor dentro de sua casa, incapacitado, alquebrado, sem inspirar medo ou ameaça alguma. Na alma de Saulo aquela cegueira física operou a necessidade de buscar a luz da revelação de Deus em total dependência do que Deus poderia trazer, longe de sua mente arguta, outrora escrava de uma religiosidade tirana e cruel. Ele teria de enxergar na alma por total e exclusiva ação divina, vazio de seus próprios recursos “visuais”, fortemente engendrados na vida, e até mesmo “aos pés de Gamaliel”. A cegueira pelo poder de Deus, lhe traria a necessidade de receber, tanto quanto visão física, visão espiritual exclusivamente divina, de tal forma que, passados anos, o agora Paulo poderia dizer com autoridade, quanto e de quanto abriu mão, em termos de suas vias “visuais”, para poder enxergar via Cristo, quando disse: “Mas o que para mim era lucro passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte”. Filipenses 3:7-10.

Esta nítida e cristalina visão que o torna fascinado por Cristo e Sua glória, decorre de uma ação profunda do Espírito de Deus em seu coração. E me faz pensar que a cegueira por Deus operada nele no momento de sua conversão a Cristo, fechou-lhe para sempre os olhos para os atraentes e dispersivos brilhos deste mundo, que ficaram ofuscados diante de resplendor maior. Experiência que bem-vinda seria na vida de cada discípulo moderno, se se traduzisse na mesma proporção, em ter olhos ofuscados pela glória do Senhor, insensibilizados para se deixarem fascinar pelas luzes deste mundo tenebroso.

 

Carismas E Caráteres -2 | Atos De Discípulos (20)

Atos 13:2 – “…Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”.

E aqui mais uma vez nos admiramos na constatação dessa leveza com que o Espírito de Deus manifesta-Se dentro da igreja de Antioquia.

Fomos informados que estes homens, Barnabé e Saulo, contavam junto a mais outros como profetas e mestres. Isso parece esclarecer a pronta resposta com que atendem à voz do Espírito que os cita e alude a um chamado que já parecia previamente sabido por todos. Pode ser que soubessem que dois dentre eles seriam escolhidos para uma grande viagem missionária, a primeira de Saulo, e agora ficaram sabendo quais dentre eles seriam. Ou ainda que já soubessem anteriormente tratar-se daqueles dois, não hesitam em prepará-los para partir. Eles haviam ficado um ano inteiro ministrando entre aqueles irmãos a quem tutelaram, e que agora continuariam por si mesmos na orientação da igreja.

Mas penso nessa forma de comunicação divina: O Espírito de Deus poderia ter falado com exclusividade aos dois envolvidos, cabendo a estes darem ciência aos demais quanto ao chamado feito. Mas não. O grupo todo recebe a comunicação diretamente do Espírito de Deus, e a forma como Ele a faz, é surpreendente. É uma ordem, com tom de acordo, orientação. Traduzindo melhor, soa como se o Espírito dissesse: “Eu chamo, vocês concordam e enviam”. Parece falar de mutualidade, parceria.

Não há por que pensarmos em padrão de vocação aqui, como um dogma de chamado missionário. Contudo é inevitável ver que o Espírito Santo estabelece um princípio que torna evidente essa cumplicidade entre o corpo de Cristo e seus membros, a comunidade de discípulos. Seria demais pensar que devemos ver aqui um princípio espiritual operante, lastro do bom êxito de realizações missionárias? Pois o vejo. Vejo como o princípio em que o Espírito de Deus decide, informa Seu propósito e escolha, e deixa a critério da Igreja obedecer com seu envolvimento, participação e preparo (aqui visto na imposição das mãos), tanto quanto a disponibilidade dos escolhidos para atender. Tudo pode ser resumido nesta formulação tão bem colocada por Ele: “Separem-me a esses dois para a obra a que os tenho chamado”. E a consequente imposição de mãos, seguida da ação registrada no verso seguinte: “…e os enviaram”. Parece-me resumir-se num eficaz binômio: Ao Senhor cabe chamar, e à Igreja, reconhecer e enviar.

A formulação “Separem-me, separem para mim” , outro tanto, é forte indicador de que o chamado que Dele vem, faz do escolhido um servo para Ele, com exclusividade.

Vale pontuar: Sua igreja está dentro desse santo parâmetro? O Espírito de Deus nela tem despertado alguma vida para sair por Ele? E ela tem enviado? Quando o Espírito de Deus tem liberdade na igreja, desperta visão missionária, e dá conteúdo a essa visão.

Carismas 3 Caráteres -1 | Atos De Discípulos (19)

“Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. Enquanto adoravam o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram.”- Atos 13:1-3

A mim, causa admiração como um texto tão curto pode conter tanta riqueza de informação inusitada e tanto dinamismo espiritual.

A começar pela citação desse homem, Manaém, contado como um dos profetas ou mestres da igreja de Antioquia, aquela mesma que acabamos de ver anteriormente como o berço do título dos seguidores de Cristo. Talvez Manaém reunisse em sua pessoa os dois ministérios de uma vez: mestre e profeta, o que seria perfeito. Por que destacamos Manaém? Por conta da informação que Lucas acrescenta ao seu nome, com isso chamando a atenção para sua relevância no grupo. Ele foi criado como irmão adotivo de Herodes Agripa. Em Roma, desprezava-se a nova doutrina, reputando-a como religião de servos, escravos. Contrariando isso, só nesta relação de líderes de Antioquia temos Barnabé, o próspero; Saulo, o sábio; e agora somos informados de que Manaém era da casa do rei Herodes, tendo sido criado com ele.

Saber quem e como foi Herodes, e o texto de Atos anterior a este o descreve como o tirano assassino de cristãos, vazio de todo e qualquer temor a Deus -tendo por isso mesmo sofrido um fim nada invejável como consequência de juízo divino -acentua o valor de Manaém, que tendo vivido sob as mesmas influências do mesmo ambiente, não foi impedido de converter-se num destacado e carismático servo do Senhor Jesus. Manaém no palácio de Herodes, à semelhança de Moisés na corte de Faraó, a despeito de toda aquela opulência e luxúria, foi encontrado pelo Espírito de Deus que o chamou à fé em Cristo. Não somente foi convertido, quanto cresceu na graça de Deus. Seu nome era um correlato grego para o nome de Barnabé. Barnabé significando filho da consolação, em hebraico, ou filho do profeta, da exortação; e Manaém, consolação. Embora neste grupo fiquem em destaque Barnabé e Saulo, por certo Manaém estava nivelado a eles em valores espirituais.

Em seguida, somos informados de que Manaém se juntava a Saulo, Barnabé, Simeão Níger e Lúcio para adorar a Deus com jejum. Era prática corriqueira entre eles o jejum na oração, porque o Espírito de Deus comunica a eles Sua vontade enquanto o fazem, e depois de conhecê-la, voltam ao jejum e oração para cumpri-la. Caráter espiritual, acima de prática. O que distingue uma prática ensejada por um carisma como celebração que define caráter espiritual, é a perseverança de seu comprometimento.

Carisma sem caráter é possível, mas ele não prevalece, porque a perseverança é moral. O carisma sem caráter dura o tempo de um culto, como um êxtase ou uma crise emocional. Mas quando o caráter espiritual está formado, então há mais que um momento, mais que um culto. Há uma forma permanente de viver as realidades espirituais, daí aqueles homens aqui apontados como adoradores que jejuavam. Não o faziam para a busca de um acontecimento, pois o Espírito de Deus serviu-Se dessa busca para comunicar Sua decisão, com certeza surpreendendo o grupo. E uma vez conhecida, ela foi cumprida sob os mesmos parâmetros de sua prática de fé. Adorar, orar e jejuar, era-lhes rotineiro, houvesse manifestação carismática ou não. A leveza com que Lucas descreve o ambiente testifica disto.

Destaca-se como pilares desse caráter por dentro do carisma, disciplinas de pouco uso hoje, ou quase desuso: oração, adoração, jejum e imposição de mãos, esta como um ato de cumplicidade espiritual para cumprir a soberana vontade de Deus.

Acredito que discípulos hoje, sobre tais pilares, conheceriam a mesma manifestação carismática que o Espírito de Deus estaria à vontade para operar. Se Ele pôde encher a vida de um Manaém criado no nicho da mundaneidade e riqueza, quanto mais não faria com vidas simples como nós?

Quando o Sonho é Realidade | Atos de Discípulos (18)

Atos 12:1-18.

Se ouvíssemos a narrativa deste extraordinário milagre por boca do seu protagonista Pedro, e não pela pena de Lucas, penso que ouviríamos algo  próximo ao que segue:

Nós estávamos entristecidos com a prisão e morte de nosso amado irmão Tiago,   a quem Herodes mandou matar à espada como forma de nos intimidar e fazer recuar de nossa missão de fazer discípulos em cumprimento ao que o Mestre determinara. Nos dias da festa que precede a Páscoa, resolvi ir ao templo participar das reuniões festivas, tanto para encorajar os irmãos, quanto para  provar aos nossos líderes religiosos que nos perseguiam, que nós  não deixávamos de ser judeus por seguir ao Senhor. Mas, infelizmente, Herodes viu que o povo judeu o aprovou pela prisão e morte de um de nossos líderes, e resolveu prosseguir com esse plano. Então, de repente, fui surpreendido pelo tumulto que um grupo de soldados provocou, afastando as pessoas enquanto vinha na minha direção. Deram-me ordem de prisão. Consegui sinalar com a mão para que os irmãos que comigo estavam não se manifestassem e de longe eles  me sinalaram também que estariam orando por mim. Apontaram para minha irmã  e para Marcos, meu sobrinho, e entendi que se reuniriam em casa deles em oração.

Com muita grosseria a soldadesca me levou à presença do rei que procurou se assegurar de que eu era quem diziam ser. Confirmei e ele declarou que eu estaria trancado a ferros até cessarem as festividades para me levar a julgamento  público. Eu sabia o que isso significava: o povo ser alvoraçado e ouvido como júri, o que resultaria em inevitável sentença de morte. Mas, isso de imediato me remeteu à memória do julgamento público de nosso Senhor, e meu coração se encheu de alegria e paz, pelo privilégio de seguir Seus passos na morte. E foi com esses sentimentos que me vi algemado a ferros presos a uma parede, que me deixavam muito desconfortável. Estou velho, e as energias não são mais vigorosas, e essas algemas não me deixavam dormir. Dois guardas me ladeavam  e outro tanto não paravam de falar e de me achincalhar, mas acabei vencido por um torpor de cansaço que me fez variar entre dormir e acordar, até que cercado por intenso silêncio, percebi que os soldados e as demais sentinelas adormeceram e de fato, dormiam profundamente.

Pensei ter caído em sono profundo, porque pareceu de repente que o dia amanheceu, mas apenas dentro da cela em que me amarraram; e um homem começou a me fustigar o lado, repetidamente, até que abri os olhos contra a claridade e vi que não se tratava de nenhum dos dois guardas, que continuavam dormindo. Era uma pessoa de paz, de bem, que me disse à meia voz: “Depressa, levante-se!” Mal tive tempo de pensar em como me levantaria sob o peso das algemas desconfortáveis quando elas se desprenderam e caíram de meus  punhos. Fiquei aturdido, pensando comigo: “Estou sonhando, ou tendo  uma  visão, como em Jope? Lá eu também ouvia uma voz!” E de novo ouvi o homem luminoso dizer: “Calce suas sandálias e vista-se!”. E continuou: “Ponha sua capa   e me siga!”. Ele conhecia cada um dos meus pertences! Eu olhei os soldados e eles pareciam longe, em profundo sono. Foi aí que comecei a agir automaticamente, porque não entendia nada daquilo como real, mas como me parecia: uma visão que só afetava a mim. No entanto, o bendito ser andou adiante e eu o segui, e passamos pelo primeiro e pelo segundo guarda externos, que também dormiam. Eu andava agora como que atraído a ele e me deparei com o imenso e pesado portão de ferro que dava para a cidade. De repente o anjo (agora eu entendia que só podia ser um anjo) passou pelo portão que se abriu sozinho para mim. E lá me vi eu, em plena rua, madrugada alta, frio da noite e escuridão. O anjo desapareceu tão fácil quanto surgiu e eu então entendi que nada era visão ou sonho, mas realidade pura e clara: eu estava livre da cadeia e em plena rua da cidade, a alguns quarteirões da casa de Maria, minha irmã.

A primeira coisa que me ocorreu foi: “Parece que o Senhor ainda precisa de mim por aqui”. Ato contínuo, decidi seguir para a casa de Maria, já que não havia ninguém me perseguindo. E cheguei ali. Bati à porta, mas ninguém atendeu. Vi iluminação no interior e ouvi o que me pareceu o som de pessoas orando. No dia seguinte seria a páscoa, e eu lembrei que os irmãos disseram que  estariam orando ali. Prestei mais atenção; encostei o ouvido e ouvi que de fato havia um grupo de pessoas em oração. Oravam por mim! Então comecei a chamá-los, à meia voz: “Irmãos, sou eu! O Senhor me libertou! O Senhor ouviu suas orações!” Porque me cortava o coração ver que choravam por mim, ainda abalados com o martírio de Tiago, por certo entendendo que eu teria a mesma sorte. Como eles não me ouviam, nem me atendiam, resolvi me unir a eles em oração, pelo lado de fora, e ali mesmo, junto à porta, comecei a orar e agradecer. Percebi que alguém se aproximou da porta, interrompi a oração e saudei quem ali chegou. Mas a pessoa se afastou. Minutos depois a porta se abriu, e pelo lado de fora eu vi que na casa havia um grupo grande de irmãos que oravam. Todos ficaram surpresos, aturdidos. Alguém falou pelo grupo: “Pedíamos ao Senhor que enviasse um anjo

para libertar você da cadeia. Quando Rode nos disse que ouviu sua voz à porta, alguém achou que o anjo solicitado a Deus veio até nós, em lugar de ir a você. Mas Rode insistia em dizer que era mesmo você. E aí está! O Senhor seja engrandecido! Como isso aconteceu, Pedro?” Então tive que detalhar o milagre, mas decidi não entrar, caso alguém viesse me procurar e isso poderia comprometer tanta gente. Portanto lhes disse que informassem disso o líder da igreja e demais irmãos, e saí dali depressa, deixando atrás de mim um grupo nada pequeno de irmãos que se regozijavam no Senhor, e encontravam consolo da morte de Tiago no milagre de minha libertação.

A conclusão a que cheguei é que o Senhor que havia encerrado a carreira de Tiago, assim como a de Estêvão, em cujas mortes consentiu, ainda não havia concluído a minha. A mesma igreja que orava por mim, havia orado por Tiago. Essa mesma igreja orou consciente de que podia submeter sua oração à vontade de Deus Pai, tal como Jesus ensinou. E foi isso o que aconteceu.

Infidelidade

Fidelidade é a mais moral de todas as manifestações comportamentais humanas. Requerida em todos os amplos setores de relacionamento interpares e interpartes, desde contratos comerciais a convulações outras de acordos, passando por alianças diplomáticas internacionais, a partidos políticos e agremiações religiosas.

A fidelidade é esperada até mesmo de uma pessoa para consigo própria.

Deus requer fidelidade incontestável para com Ele nas relações humanas que têm em seu centro, Seus princípios. E para com Sua Palavra, não menos. Até o ponto de enviar pelo profeta Habacuque uma mensagem em que disse: “O justo viverá por sua fidelidade”(Hc.2:4, NVI).

Por que a fidelidade é tão requerida? Por que é tão importante? Dentre as dores que os relacionamentos humanos podem vir a produzir, nada fere mais que aquela que a infidelidade causa. Se o amor falta; se falha o exercício da misericórdia; se a paz for quebrada; tudo isso inevitavelmente produzirá dor. Mas para cada uma dessas frustrações há uma remediação eficaz, dificilmente possível no caso da infidelidade, por aquilo que ela quebra e pelo ranço que deixa de um péssimo memorial. Ela quebra promessas, votos, e com isso, frustra a esperança, daí valer a Palavra de Deus advertindo: “Não faça voto de tolo”, para dizer dos votos que não são cumpridos. Como para tudo na vida, também a infidelidade é perdoável, mas embora o perdão anule o mau afeto produzido, nada pode fazer com a memória do fato que o produziu.

A infidelidade quebra a base de sustentabilidade de toda a razão para a confiança. Ela reclama mais que um perdão, um resgate seguido de uma transformação tal  no seu perpetrador, que equivalha a uma reparação onde a nova forma seja tão eloqüente que apague o eco da voz do fato antigo.

Nosso Deus é o exemplo supremo da fidelidade. Daí Sua Palavra comunicar: “Se formos infiéis, Ele permanece fiel. Não pode negar-Se a Si Mesmo”, para dizer que a fidelidade divina, antes de ser um compromisso conosco, é o caráter de Sua própria natureza imutável. E Deus é sempre fiel a Si e à Sua Palavra, daí “Fiel e Justo”. Fiel é o título atribuído a Cristo em Apocalipse. Nosso Deus não altera leis espirituais a favor dos que erram, anulando as consequências da infidelidade deles. Se assim fosse, não teria sido necessário Seu Filho subir à cruz em nosso

lugar para cumprir diante Dele toda a justiça, a nosso favor, recebendo sobre Si a punição divina pela nossa queda. Bastaria um decreto de perdão promulgado desde o céu.

Mas por ser essencialmente moral, a fidelidade não está isenta de sofrer violência, que ocorre sempre quando compromissos são descumpridos, ou quebrados. Seja entre sócios; entre o homem e Deus; entre crentes e ateus; entre ímpios e ímpios; entre cristãos e cristãos.

Infidelidades são costumeiramente cometidas quanto às coisas de Deus, sem que as pessoas se dêem conta delas( a não ser suas vítimas ), porque perdem, via de regra, o sentido de seu valor e impactos, e se acostumam ao seu mal e prática.

Infidelidades muito costumeiras, a gente ouve pela boca de vítimas nos campos missionários. Projetos inteiros, famílias inteiras, missionários individuais, homens ou mulheres, que repentinamente se vêem abandonados no campo, “esquecidos” no muito ou pouco sustento que algum outro cristão assumiu investir em sua vida, que ele ou ela pela fé traduziu como: “É meu Deus me dizendo, avança! Eu pagarei!”

Cada dia que passa fico mais pasmo, triste e por que não dizer, escandalizado, quando ouço o lamento de obreiros que no campo distante, viram-se desamparados por parte de cooperadores que “desapareceram” sem nenhuma nota de explicação (justificativa) e sem aviso prévio. De igrejas a indivíduos.

Esse tipo de infidelidade, além da perda material que gera de imediato, contribui para produzir nas vítimas, insegurança; tristeza; sensação de desvalor e de ser descartável dentro do cômputo geral das responsabilidades de seus cooperadores. E isso produz tristeza e lágrimas.

Será que Deus recompensaria a infidelidade? Não foi dEle a Palavra que disse: “Com a medida que você medir, lhe medirão de novo”? (Lucas 6:38).

Neste término de ano, lembre daqueles com quem talvez você esteja sendo infiel. A infidelidade é o mais vergonhoso pecado que a Igreja pode levar nesta vida. E a partir deste fim de ano, ponha-se atento(a) a seus movimentos na vida. A fidelidade será sempre a nota de destaque que revelará de que natureza você é. E isso vale outro tanto para toda a infidelidade que você nem ninguém poderá justificar diante de si e diante de Deus Seja Fiel!