A Fé Surpreendida | Atos de Discípulos (15)

“E Saulo estava ali, consentindo na morte de Estêvão. Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria.”- Atos 8:1.

“Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor. Dirigindo-se ao sumo sacerdote, pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, de maneira que, caso encontrasse ali homens ou mulheres que pertencessem ao Caminho, pudesse levá-los presos para Jerusalém. Em sua viagem, quando se aproximava de Damasco, de repente brilhou ao seu redor uma luz vinda do céu. Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Ele respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você persegue. Levante-se, entre na cidade; alguém dirá o que você deve fazer…e, depois de comer, recuperou as forças. Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os que o ouviam ficavam perplexos e perguntavam: “Não é ele o homem que procurava destruir em Jerusalém aqueles que invocam este nome? E não veio para cá justamente para levá-los presos aos chefes dos sacerdotes?” Todavia, Saulo se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que viviam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.”- Atos 9:1-6; Atos 9:19; Atos 9:20-22.

Certa vez Jesus afirmou: “Também digo que, se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso será feito a vocês por meu Pai que está nos céus.” – Mateus 18:19.

Dentre tantas coisas extraordinárias que envolvem a dramática conversão de Saulo de Tarso, destaco a igreja de Damasco diante deste quadro inusitado. O texto de Atos nada nos diz sobre ela como igreja, neste momento. Apenas cita que ela existia e era o endereço certo para a fúria persecutória desse exator religioso, cuja perseguição estava generalizada contra os cristãos conhecidos como os do Caminho. Lucas se serve de uma figura de linguagem incomum para descrever o que movia o algoz contra o povo de Deus: “Enquanto isso, Saulo ainda respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”. O impulso a que ele atendia era ódio. Ódio religioso. E na força desse ódio parte para cumprir sua sinistra missão. “Respirava ameaças de morte”, foi a forma achada pelo narrador, que era médico, para falar daquilo com que Saulo nutria suas aspirações. Se respiramos para viver, ele torturava cristãos, para respirar.

É onde paro pensando na Igreja de Antioquia, fruto do discipulado dos que fugiram de Jerusalém debaixo de tão acirrada perseguição. Famílias inteiras: jovens, mulheres e homens. Damasco se deparou como um possível refúgio protetor por estar além das fronteiras. Mas o ódio religioso não respeita fronteiras, e por isso Saulo para ali vai, com escolta e devidamente autorizado para prender e “arrastar” essas criaturas pacíficas, para Jerusalém. Ali lhes estaria reservado injusto julgamento e provável morte insana, à semelhança daquela de que Estêvão foi precursor.

Penso que a igreja refugiada já estava devidamente avisada de que a perseguição estava em seu calcanhar. Penso nas reuniões de oração movidas pelos familiares cristãos reunidos, buscando no Senhor livramento e graça para suportar. Talvez  esperando um livramento semelhante ao dos antigos israelitas, encurralados entre Faraó e o Mar Vermelho. As notícias trágicas eram bem frescas. Quantos deles, tendo escapado da perseguição em Jerusalém, devem ter chegado junto aos irmãos em Antioquia, descrevendo com cores vivas o drama assistido, do qual puderam fugir!

Mas penso nessas vigílias de oração da igreja, precursora da Igreja Subterrânea dos lugares onde ainda hoje ela existe tentando sustentar sua fé e paixão, fazendo o que lhes pode custar a liberdade e até a vida. A Igreja em Damasco, com certeza orava a Deus. Então tento imaginar o teor de sua súplica: “Se for possível, Senhor, afasta de nós este cálice sem que o bebamos!” Permito-me pensar nas esperanças várias que ditavam o teor das orações. No mínimo deviam dizer: “Olha para a ameaça desse homem mau, enquanto estendes a Tua mão para operar sinais…” Ou, ainda mais pretensiosas: “Não deixes que ele chegue a nós. Afasta o cálice, Senhor”. Aí está um modelo mais contemporâneo, nesta última.

De repente, reunida a Igreja, eis que pelas portas da casa entra o irmão Ananias, acompanhado por um jovem cujo rosto temível alguns já deviam conhecer. Perplexos, encolhem-se, talvez. E antes que abram a boca, Ananias fala, e diz: “Este é o nosso mais novo irmão no Senhor. Acabo de batizá-lo, pois se converteu a Cristo Jesus”. Saulo, agora Paulo, apequenado, olha para eles, olhar brando, despido de fúria, e diz: “Graça e paz, irmãos, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, Aquele de Nazaré, que me achou no caminho para aqui, e mudou meu caminho, vida e coração.” Muito belo, e não tanto irreal, porque nosso texto se encerra dizendo que ele entrou ali e: “Saulo passou vários dias com os discípulos em Damasco…Logo começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus“.

Creio ter sido esta a primeira e mais extraordinária experiência da Igreja com a oração que cumpre a Palavra quando diz: “… Muito pode, por sua eficácia, a súplica de um justo.” – Tiago 5:16.

Muito Além da Mediocridade

Isaías 32:8 – “Mas o homem nobre faz planos nobres, e graças aos seus feitos nobres permanece firme”. Ou, numa tradução literal – “O nobre planeja nobrezas; e ele sobre coisas nobres terá existência.”

 

Este texto me move a uma reflexão temática dada sua proposta urgente para um tempo de desvalores, de empalidecimento das cores de nossa honra como homens e mulheres evangélicos nesta geração.

Medíocre é uma palavra que incomoda sem ofender, mas que consegue ferir o orgulho pessoal quando aplicada a pessoas ou ações humanas. Significa primariamente aquilo que está entre o bom e o ruim, ou que é sofrível.

Embora seja um adjetivo antipático, via de regra as pessoas se acomodam ou preferivelmente se ajustam a esta classificação, pelo simples mas lamentável fato de que a mediocridade, ou atuar de forma medíocre, dá menos trabalho, atende à necessidade, “dá para o gasto”.

Contudo ninguém tolera a ideia de receber um salário medíocre; de ser visto e tido por medíocre; de receber uma gratificação medíocre ou uma classificação medíocre sobre sua realização. Tanto pior a ideia de ter um filho medíocre; um pai ou mãe medíocres.

Mas…e quanto à fé? Suportamos uma fé medíocre?

Jesus classificou as obras de uma igreja inteira e a própria igreja como medíocre, quando ela aprovava a si mesma: Laodicéia, a quem definiu como morna – Apocalipse 3:16.

Podemos aceitar e conviver bem com uma espiritualidade medíocre?

Creio ser importante lembrar que o fato de sermos chamados a crer em Cristo Jesus, estabeleceu um convite para andarmos como Habacuque: “Sobre as minhas alturas, ou altaneiramente”. Para avaliarmos isso, quero pontuar a diferença entre o medíocre e o excelente na espiritualidade cristã.

NO EXERCÍCIO DA FÉ

Mateus 5:41 – “Se alguém lhe convidar a andar uma milha, anda com ele duas!” Sempre estará diante de nós a opção de não ser necessário ou importante ir além do que nos é requerido ou esperado de nós. Ainda há aqueles que se satisfazem a ficar aquém, ou no máximo agir até o mínimo necessário, apenas. Ou nada fazer.

Na obra de Deus;

No ser servo e útil;

Nas contribuições, orações, vida devocional.

E a mediocridade confessional? Ela transita pela magia, pelo imediatismo, pela visibilidade que dispensa a esperança. Faz-nos lembrar a palavra de Jesus para Tomé  em João 20:29. “Por que viste, creste? Bem-aventurados os que não viram  e creram”. Não há nobreza na confissão que precisa ter sinais, visibilidade para crer!

NO TESTEMUNHO DE VIDA

Neste particular, a nobreza está em pensar, avaliar e reavaliar valores morais. Ouçamos o que disse o Filho de Deus em Mateus 5:20. “Se a justiça de vocês não exceder a dos fariseus, de maneira nenhuma vocês entrarão no Reino de Deus”. Aqui ele usou o verbo exceder, que traz em seu núcleo o conceito de excelência.  E vale para muitas áreas mais. É duro constatar que existem pessoas em nossa sociedade que, sem compromisso algum com a fé evangélica, trazem uma justiça comportamental superior a de crentes na gentileza, no trato com o outro, na linguagem, no comportamental, na lucidez, na atenção e no zelo por não se  deixar levar por veículos populistas e medíocres que nada acrescentam à inteligência ou às boas maneiras. São autênticos e sinceros representantes da justiça dos fariseus, que clama contra nós diante do Deus Eterno e Santo, que é nosso Pai.

Mas a mediocridade inclina o crente a eleger companheiros de conteúdo  medíocre, com os quais se nivela, esquecendo a Palavra que diz: “As más companhias corrompem os bons costumes”. Noutro extremo o salmista disse: “Meus olhos procurarão os fiéis da terra para que estejam comigo”.

Aponta a santificação pessoal e a sabedoria que precisam ser notórios no crente: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”- Mateus 5:16; “para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo,” – Filipenses 2:15.

Também na autenticidade de sabedoria espiritual. Jesus afirmou em Lucas 7:35, que a sabedoria é conhecida por seus filhos. Menos do que isso é ser medíocre.

NO ENVOLVIMENTO COM O REINO DE DEUS

Muitos de nós entendem que é bastante tratar o Reino de Deus periféricamente. Por periféricamente aludo à superficialidade, ausência de espontaneidade, de criatividade, de voluntariedade. Entendem que doar coisas, dinheiro, assistir a cultos, são suficientes para atender ao que Deus pretende como envolvimento. Nada que não nos desinstale ou mesmo aquilo que usamos para nos representar, está acima de ser medíocre no serviço cristão. Jesus aponta essa perspectiva de excelência quanto ao Reino na parábola registrada em Mateus 13:44, quanto ao homem que achou no campo uma jóia de grande valor. “Vendeu tudo o que tinha  e comprou o campo”, é como Ele compara aqueles que têm no Reino de Deus a supremacia de suas vidas.

Paulo aponta essa excelência quando fala dos macedônios e sua visão do Reino, em II Co. 8:1-5, onde descreve que eles do extremo de sua pobreza, ofertaram para os irmãos sofridos de Jerusalém.

Mas alguns se contentam em viver as realidades espirituais como ilustra o encontro do rei Jeoás com o profeta Eliseu, em II Reis 13: 18 e 19. O profeta orientou o rei a lançar flechas pela janela com seu arco. O rei pegou apenas três flechas em sua aljava e as atirou. O homem de Deus ficou irritado e o repreendeu dizendo que ele só feriria os sírios três vezes, pois reputou por suficiente esse investimento minguado de sua fé.

Deus pensou e pretendeu muito mais a nosso respeito, meus irmãos. Ele planejou coisas nobres para realizarmos.Foi o que Ele disse em Jeremias 29:11: “Eu é que sei os planos que tenho para vocês. Planos de bem e não de mal”… Deus  planejou coisas nobres para realizarmos. Ele não pensa de forma medíocre, porque é excelente.

Há uma máxima bíblica que serve como aferidor de nossa posição espiritual: ela  se encontra em I Coríntios 15:19: “Os que esperam em Cristo somente quanto às coisas desta vida, são os mais infelizes de todos os homens”.

Sabe por que não pode ser medíocre? Porque tudo o que você é e faz, é culto, adoração. Tem de acontecer para o louvor da glória Dele.

Precisamos nos posicionar nesta geração como vidas nobres, crentes que atendem à exortação que diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.” – Filipenses 4:8.

Caminho de Rupturas

Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. – Marcos 8:34-38.

Esta palavra desafiadora do Filho de Deus, Autor da fé, é tão solene, e está tão comprometida com o tudo que a obra Dele e o Evangelho significam, que é registrada pelos quatro evangelhos, ainda com detalhes mais especiais em João 12.

É desafiadora.
É explícita.
É admoestativa.
É apelativa.

Jesus a pronunciou no exato momento em que pontuou que havia vindo ao mundo para morrer uma morte vicária. Repreendeu a Pedro que tentou desviar o significado dessa palavra. E afirmou que o Evangelho é um caminho de rupturas e renúncias, na contramão de tudo o que os líderes religiosos oferecem àqueles a quem buscam atrair como adeptos.

De vez em quando esbarro com pessoas vestindo umas camisetas com estes dizeres: “ É fácil levar Jesus no peito. Difícil é tê-Lo no coração”. Se por “ter Jesus no coração”, devemos entender a experiência de uma nova vivência confessional, tipo ser evangélico, então não é nem de longe difícil. É mais fácil ainda do que “levar Jesus no peito”. Mas se “por ter Jesus no coração“, devemos entender o “nascer de novo e viver como quem é soprado pelo Espírito” (João 3:6-8), então é muito difícil. É mais que difícil: é desafiador, mas nunca impossível. E nada menos surpreendente.

É desse segui-Lo com tal comprometimento de que fala o Senhor nesses textos. A mensagem se repete em Mateus 16:21-28; Lucas 9: 22-27 e João 12: 23-26, onde temos o reforço da alegoria: “Digo verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas, se morrer, dará muito fruto.” (V.24).

Por que é uma mensagem desafiadora? Porque o Filho de Deus deixa claro que segui-Lo implica em renúncia e numa mortificação. Pontua que essa mortificação redunda em não se envergonhar dEle. Pois não é uma proposta de vida com brilhos, mas renunciar implica em perder crédito e posições diante dos que nos querem marchando segundo o compasso deste mundo em suas ordens e pensamentos acerca da moral e do glamour. Também segundo seus próprios critérios e vontades. Seguir Jesus é romper com tudo isso. Sem presunção, nem esnobismo; sem perfeccionismo pietista, mas vendo esta geração como Ele a viu: submersa em pecado. Isto decorre de uma visão realista da vida pecaminosa.

É uma mensagem explícita porque o Filho de Deus deixa claro que é uma caminhada solitária, para poder produzir frutos que sejam abundantes. É uma caminhada de pontes queimadas, sem volta. Não se pode seguir Jesus como quem faz programas, pluga e despluga conforme seus apetites e interesses. Do tipo: “Estou envolvido hoje. Não sei se amanhã vou querer”. Não. Ele afirmou que é caminho ao Calvário, não ao pódium. Seguir Jesus é romper com perspectivas de brilhos. É assumir compromisso de se descompromissar com os desvios.

É uma mensagem admoestativa porque Ele adverte que a única via de viver, é perdendo a vida. Não fala de morte biológica, mas daquela morte de planos e sonhos que podem implicar “nos negócios desta vida” que impedem de militar-se legitimamente. Isto calca mais fundo o conceito de renúncia. Desinstala-nos de nosso conforto. E pode ser medido em ações práticas, socorristas, filantrópicas, missiológicas, devocionais. E a advertência se acentua quando ele delineia que de igual forma, fazer esta caminhada com a pretensão de ganhar, barganhar eu diria, redunda em morte. Perda de tempo na história. Morte da sabedoria, dignidade e sensatez, também. Seguir Jesus implica nessa ruptura.

Por fim, percebo nesta palavra seu tom apelativo. Ela é uma mensagem apelativa porque contém grande dose de convite. Quando Ele diz “se alguém quiser acompanhar-me”, Ele abre espaço, faz uma oferta. Ao mesmo tempo Ele acentua que é um convite a não sentir vergonha Dele, como a dizer: “Não se envergonhe de ser meu seguidor apesar dos transtornos e possíveis embaraços que isso possa lhe acarretar”.

No apelativo eu O vejo como a dizer: “Eu te convido a morrer como eu; a não querer ganhar o mundo, como eu. A deixar tua vida perder-se em Mim e para mim”, porque como está escrito: “Pois nenhum de nós vive apenas para si, e nenhum de nós morre apenas para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.” – Romanos 14:7-8.

Segui-Lo, de verdade, exige que façamos ruptura de todas as nossas amarras. Livres, podemos ser soprados pelo Vento, muito diferente de ser arrastados por “ventos de doutrina”.

Simples…Assim

“Sejam símplices como as pombas…” – Mateus 10:16.

Se você prestar mais atenção perceberá que o oposto da simplicidade é a complexidade. Que esta traz no seu bojo sempre, a sobrecarga, tanto de haveres quanto de deveres. E mais: Você pode se dar conta de que a simplicidade é inata ao ser humano, que dela desiste por influência externa ou por observação do externo.

Se temos que aprender com pombas… o que elas têm a nos ensinar? Não muito.  E exatamente por isso: são simples, diferentemente de outras aves. Elas procuram agregar-se a ambientes humanos para usufruirem as benesses destes. Fazem seus ninhos o mais próximo possível de construções humanas, ou mesmo dentro delas. Andam e voejam por seus quintais e praças. Entre usarem as águas de um regato ou de lagos citadinos, é nestes que elas preferem se banhar. Como se elas e nós fôssemos assemelhados. E aí está, a meu ver, o ponto mais conclusivo da simplicidade das pombas, pois deixamos de ser simples quando voltamos nossa consciência para a auto-importância que nos impõe ver o outro como diferente. Para mais (e então buscamos superá-lo) ou para menos (e sobre ele triunfamos).

Consigo equiparar pardais a pombas, no quesito simplicidade. Mas não vejo simplicidade nas andorinhas, nos sabiás, nos sanhaços, nos joãos de barro, estes com suas casas artísticamente artesanais. Por mais belos que sejam, e por isso mesmo, simples não são. Pombas são simples, desprendidas, entregues. O faisão está para a riqueza quanto a pomba está para a pobreza, até mesmo nos rituais dos sacrifícios da Lei de Moisés.

Jesus nos diz: sejam como elas.

Porque a contramão da simplicidade traz grife, luxo, luxúria, endividamento, sobrecarga, prazeres que desembocam em dissabores, ansiedades, fobias, depressão pós euforia consumista, soberba da vida, jactância e tudo mais que   não presta. Traz poder, mas este não traduz força.

Sempre gostei de pensar no fato de que ser simples é barato, e tudo que não é simples é caro, mas sem valor real. O valor é só aquele que é atribuído. Isso vale para coisas e pessoas. Por ser caro, o não-simples é efêmero: no uso e no tempo.

Já percebi que diferentemente do sofisticado, o simples está carregado de afeto.  O sofisticado costumeiramente é frio, seja objeto ou gente. E quando objeto, o afeto é aquele que ele pode inspirar. Positivo para o simples, com certeza, mas só para o simples.

Melhor é ser barato, ou se arriscar a cair nas palavras do Filho de Deus: “Assim é  o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.” – Lucas 12:21. Este troca a simplicidade por um vazio.

Fomos chamados a ser pombas. Não faisões, nem pavões. Ovelhas. Nunca lobos.

Intimismo Divino

“Como tenho saudade dos meses que se passaram, dos dias em que Deus cuidava de mim…Como tenho saudade dos dias do meu vigor, quando a amizade de Deus abençoava a minha casa.” – Jó 29:2 e 4.

Esta linguagem que expressa uma experiência colocada no vazio de um saudoso passado, aponta uma possibilidade oferecida à fé, que pode ser vista,  pelo  menos, em dois textos que devem cativar nosso interesse espiritual: “Cheguem-se a Deus e Ele Se chegará a vocês”(Tiago 4:8), e: “Aproximemo-nos, com sincero coração”(Hebreus 10:22). Pois falam de uma proposta intimista, impossível ao homem comum imaginar, na relação pessoal do homem com seu Deus, por meio de Cristo Jesus. No entanto, foi o que nos ofereceu Jesus, e também podemos visibilizar isto em dois textos que registram Sua fala: “Quantas vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus pintainhos sob suas asas”(Mateus 23:37); e: “Entra no teu aposento e fala em secreto com teu Pai. E teu Pai que está em secreto, te recompensará” – Mateus 6:6.

Outro tanto, além de Jó, temos o registro dessa possibilidade sublime, na súplica de Daví, no salmo 57:1 – …“pois em ti a minha alma se refugia. Eu me refugiarei à sombra das tuas asas, até que passe o perigo.” Belíssimo. Do mesmo nível da promessa que afirma: “Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao Senhor: “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”. – Salmos 91:1-2.

E tudo isso nos aponta a possibilidade de um intimismo com Deus, possível ao  que O ama, ao qual Ele Mesmo nos convida, como expressa o salmo 25:14 – “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.”- Salmos 25:14 ARA.

Jó lamenta a perda desse intimismo, conforme ele supunha haver perdido, e indo na direção inversa do seu lamento, podemos alinhar alguns pontos de excelência dessa experiência, ou seja, os resultados que ela produz, dos quais ele sentia saudade. Isso para nos conscientizarmos do que podemos viver pela fé, quando vivendo em intimismo com Deus. Ao mesmo tempo, uma vez crentes veteranos, consciência do que provavelmente estamos perdendo.

Quero salientar cada um deles aqui, apontados em seu lamento no capítulo 29 do seu livro:

Efeitos internos 
  • “…dias em que Deus cuidava de mim,” Paulo usa desse verbo para significar do cuidado de Cristo pela igreja, em Efésios 5. Pedro afirma: “Ele tem cuidado de vocês”.
  • “ …a sua lâmpada brilhava sobre a minha cabeça e por sua luz eu caminhava em meio às trevas!” Lembram: “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” – Romanos 8:14.
Efeitos externos: 
  • Honra pública: “Quando eu ia à porta da cidade e tomava assento na praça pública; quando, ao me verem, os jovens saíam do caminho, e os idosos ficavam em pé; os líderes se abstinham de falar e com a mão cobriam a boca.”- vv7-9;
  • Vida de santificação: “A retidão era a minha roupa; a justiça era o meu manto e o meu turbante.”- 14;
  • Frutos da Sabedoria: “Os homens me escutavam em ansiosa expectativa, aguardando em silêncio o meu conselho. Depois que eu falava, eles nada diziam; minhas palavras caíam suavemente em seus ouvidos. Esperavam por mim como quem espera por uma chuvarada e bebiam minhas palavras como quem bebe a chuva da primavera.” 21-23;
  • “Era eu que escolhia o caminho para ..”(v.25) – Isto nos lembra: “O justo é um guia para o seu companheiro”.

Há algo mais que Jó nos ensina como fruto de uma vida íntima com  Deus: “quando o Todo-poderoso  ainda estava comigo…” – A companhia de Deus vista  em Seu poder. Jeremias fala disso quando diz: “O Senhor está comigo como valente guerreiro” (20:11). Mas a ênfase recai sobre a sentença “estar comigo”. Companhia. Companheirismo. A maior expressão de bênção que a Graça  promete. A fé que não nos move a este desejo, nem pretenda levar-nos até aí, é vazia em todos os sentidos. Mas somos convidados a chegar a esse nível de vida de comunhão. Menos que isso é desperdício.

Inconformação

I Samuel 17:16 e 23.

À luz deste texto, quero falar sobre inconformação, sobre ser inconformado. Não podemos nem devemos confundir os termos. Não falo de inconformistas nem de inconformismo. Estes dois apontam para um status quo, que só tem a ver com intemperança, intolerância. Não tem valor moral, é apenas sentimentalismo  político e psíquico. Inconformação, no entanto, fala de uma atitude, e esta de caráter espiritual, vinculada a uma nova natureza e a decorrente visão da vida que ela traz.

O texto que lemos é a autêntica réplica da diferença entre a conformação e a inconformação. A conformação aqui está muito bem caracterizada pelas atitudes   e reações do exército de 3 mil homens de Saul, ele inclusive. Toleraram durante 40 dias o filisteu Golias afrontá-los, tomando posição, duas vezes ao dia, o que dava um total de 80 vezes! Durante seis semanas! Por conta dessa tolerância, dia a dia o filisteu foi ganhando terreno.

A inconformação se mostra na atitude de Daví, a quem bastou ouvir o desaforo uma única vez para não aceitá-lo.

A conformação tem esse caráter: acostuma-se com o que é indevido, incorreto, injusto, até mesmo agressivo.

O mundo se ocupa em agir exatamente como Golias. Por mais bizarra seja sua forma, vai se posicionando devagar e sempre. Se não encontra a devida resistência, vai tomando posição, ganhando terreno.

O diabo se serve muito bem desse artifício para ganhar espaço na vida do crente em todas as dimensões. Daí a Palavra de Deus advertir: “Não deem lugar ao diabo”, e outra vez: “Resistam ao diabo e ele fugirá de vocês”.

Não dar lugar, guardar a posição, resistir; são movimentos em desuso hoje em muitas vidas, e os danos não se fazem esperar.

No lazer.

No descuido com as ferramentas espirituais. Na linguagem.

No uso do que é inerentemente mundano.

Lembram?: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém”. “As más companhias corrompem os bons costumes”. Estamos sujeitos a cada uma delas. Mas a vigilância reclama não conformar-se. Porque o resultado é perda de discernimento. Em seguida, perda de forças. Por fim, derrota, como aconteceu  com Sansão, herói de Deus.

Por isso somos alertados em Romanos 12: 2 – “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de

Deus.” Isto requer, maioria das vezes o sacrifício aludido no verso 1 do mesmo texto: “Portanto, irmãos, rogo pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.”

Conformar-se é atitude cômoda, mas desprovida de sabedoria. Não produz testemunho cristão, mas revela caráter de tolo.

Assemelhados ou Deformados

“Ora, o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor ali há liberdade. E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.”  – 2 Coríntios 3:17-18

Transformação é a palavra. É o compromisso do Evangelho na vida em cujo coração sua verdade entra e permanece. É o programa de Deus com o homem que por viver longe da cruz, estava “vazio da glória de Deus”, e portanto deformado quanto ao plano divino original ao colocar nele a imagem e semelhança do Seu criador. Decaído, o ser humano passou a viver uma experiência de deformidades, na moral e na espiritualidade, revelada em seu comportamento, forma de ver e perceber a existência e o outro. Sem Deus no mundo, na linguagem de Paulo em Efésios 2:12. Mas, uma vez tendo nascido de novo, nascido do Espírito pela fé em Cristo e Sua obra, o Mesmo Espírito de Deus iniciou um programa de restauração a que a Palavra de Deus chama de transformação.

A transformação envolve todo o ser. Evidencia-se num crescendo contínuo no trato com a vida. Desde a afetividade até o colocar-se diante dos desafios existenciais. Minimamente traduz-se por mais presença divina na forma de ser humano. Mais sentimentos do céu, que longe de se agregarem aos afetos e desejos mundanos, substituem-nos, porque o apóstolo deixou claro em nosso texto: esta é uma operação que ocorre com o rosto descoberto, ou seja, longe da realidade do judaísmo antigo, na observância restrita da Lei, onde o rosto encoberto servia para esconder o que perdia força. Não. É com a cara limpa, sem hipocrisia, que vivemos e reagimos à transformação de natureza que se opera em nós.

Este é o processo: cada vez menos da natureza decaída, e cada vez mais natureza divina, a um só tempo correspondendo a duas figuras de linguagem de que se serve o apóstolo dos gentios: “Cristo em vós” e: “Bom perfume de Cristo”.

E onde se pode perceber esses “sintomas” de vida transformada, em primeiro plano? Seria numa postura litúrgica, ritualística, ou no uso da liberdade que a presença do Espírito traduz? Sim, nela. Evidenciando-se na vida pública, doméstica, cúltica e demais, denunciada pela aspirações elevadas que se revelam nas buscas pelo que é do Alto; na desistência do que não edifica; na linguagem que evidencia aquilo de que está cheio o coração, e este, antes de tudo, grato e adorador. Livre de artificialismos para se sentir e entender gente. Sem necessidade de outro “combustível” para existir, a não ser Cristo e Sua glória.

Vale lembrar um santo apelo: “Transformem-se pela renovação do seu entendimento” – Romanos 12:2.

A Natureza dos Homens do Reino

I Samuel 16: 14-23; 18: 8-12;19:8-9; 26: 7-12.

Onde reside o grande diferenciador entre os que pertencem a Deus e os que nada querem com Ele? A participação em cultos? Conhecer a Bíblia? A certeza de salvação? O evangeliquês?

Ou é uma questão mais interior, de natureza transformada?

A natureza humana é revelada pela personalidade de cada um. O coração é o grande diferencial, como diz Provérbios: “Do coração procedem as saídas  da vida”. Por isso Jesus disse que “a boca fala do que está cheio o coração.”

O Senhor delimitou a diferença estabelecendo-a na comparação entre duas naturezas: lobos e cordeiros. Eis o texto: Lucas 10:3 – “Vão! Eu os estou enviando como cordeiros entre lobos”.

Ou temos a natureza de cordeiros ou a de lobos. Jesus nos mandou aprender com Ele, o Cordeiro de Deus. Antes de enviar Seus discípulos, chamou-os para estarem com ele.

Quero ilustrar esse grande diferenciador com a história de Davi e Saul que nossos textos registram. Eles ilustram perfeitamente essa aguda diferença pelo fato de serem os dois duas pessoas escolhidas por Deus e revelarem suas diferenças habitando num mesmo ambiente.

Chama nossa atenção o fato de os dois serem guerreiros e valentes, mas um trazia em si a natureza de cordeiro e o outro, de lobo.

O diferenciador maior está no uso que fazem do que têm à mão em casa.  O cordeiro Daví carrega uma harpa, e a usa, tocando para amansar e aliviar.

O lobo Saul carrega uma lança e a usa para ferir, encravar na parede e matar.

E então começa um jogo de naturezas diferenciadas:

  1. O lobo quer armar o cordeiro. Este não consegue usar as armas daquele.
  2. Quando o lobo ataca com a lança, o cordeiro toca a harpa para amansá-lo.
  3. Se não consegue, foge, mas não devolve a lança. Por que? Porque cordeiros não entendem de lança, só lobos a usam; porque se devolver, vai rearmar o lobo.
  4. Por fim, tocando harpa e saindo de cena, o cordeiro consegue desarmar o lobo. 26: 7-12.

Preciso lembrar o que Deus disse a respeito deste cordeiro? É bastante ler Atos 13:22 – “Depois de rejeitar Saul, levantou-lhes Davi como rei, sobre quem testemunhou: ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração; ele fará tudo o que for da minha vontade’.”

O que falam nossas mãos? O que carregam? Harpa ou lança? Dessa diferença depende saber a natureza que nos mobiliza: cordeiros ou lobos. Nunca é tarde para depormos nossas armas, mudarmos de instrumentos, e afinar nossas harpas pelo Espírito Santo de Deus.

Nossa história mostra que a diferença básica entre Davi e Saul é que Deus era com Davi, e em Saul operava um “espírito arruinador” ou maligno. A Bíblia afirma que nós temos o Espírito de Cristo. Devemos viver guiados por Ele, sob Seu domínio e controle, filhos do Cordeiro.

Um recado, a propósito: Nestes dias de tanto embate político desde as últimas eleições, tenho visto pastores e crentes outros, aferrados numa luta renhida partidária e ideológica, dispersando lanças, mais que farpas, de ambos os polos, revelando uma natureza que de cordeiro nada tem. Deplorável!

Sementeira da Vida

Semeiem a retidão para si, colham o fruto da lealdade e façam sulcos no seu solo não arado; pois é hora de buscar o Senhor, até que ele venha e faça chover justiça sobre vocês. Mas vocês plantaram a impiedade, colheram o mal e comeram o  fruto do engano…” – Oseias 10: 12-13.

Sempre achei por demais significativa a alegoria criada por Paulo em Gálatas 6:7, trabalhando com a ideia de causa e efeito, ali exposta na forma de semear e  segar. E mais me chama a atenção o fato dela trazer uma advertência agregada: “de Deus não se zomba”, como se para enfatizar a assertiva como sendo uma lei irreversível sobre a qual se debruçam a justiça e a honra de Deus.

Todos os nossos movimentos na vida, sem exceção de um sequer, redundam nesse binômio de viés cartesiano: semear e segar. Do momento em que despertamos no dia, até cessarem nossas atividades e pensamentos, esse exercício está em plena funcionalidade. Até mesmo no ócio, cumprimos a lei de causa e efeito. Das coisas que perpetramos a nosso favor, ao que produzimos em favor de outros, a lei inexorável do semear e colher está em ação. É tal que nela não cabem justificativas nem desculpas que amenizem seus efeitos. Lamento por aqueles que dela não se apercebem, e ainda dos que pretendem que por sermos filhos da graça, estamos livres dos efeitos de sua mecânica. Eis por que, aconselhando quanto a semear bens, Paulo dilata a alegoria, trabalhando com outra assertiva lógica, dizendo que colheremos na proporção de nossa sementeira: se semearmos pouco, pouco colheremos. Se semearmos muito, segaremos muito. Importante ressaltar que, conquanto o apóstolo no texto de II Coríntios 9:6 aluda a dinheiro, a lei do semear e segar vale para todo e qualquer tipo de semente.

Por conta disto, a Palavra de Deus exorta conosco com  advertências sábias, como vistas em Oséias , no texto acima, ao qual acrescentamos ainda Oseias 8:7 e Jó 4:8, respectivamente: “Porque semeiam ventos e segarão tormentas;…”; “Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam.” Jó 4:8.

Posto isto, e imbuídos do temor que a Palavra de Deus produz nos sábios que creem, convém reflexionar: Quais sementes devo priorizar como cristão para abençoar e ser abençoado?

O Senhor Jesus começou Seus ensinos nos mostrando as sementes que  trazemos conosco, por obra do Seu Espírito, e que fazemos bem em cuidar de lançá-las em nossa caminhada na vida, em todos os seus âmbitos e interrelacionamentos. Vamos a elas:

Mateus 5: 3-9 : “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem- aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”

1- Sementes de humildade. A colheita: O Reino dos céus
2- Sementes de lágrimas. A colheita: Consolação
3- Sementes de mansidão. A colheita: Conquista de espaço, liberdade
4- Sementes de fome e sede de justiça A colheita: Saciedade, plenitude.
5- Sementes de misericórdia A colheita: Misericórdia
6- Sementes de santificação A colheita: Ver a Deus, comunhão com
7- Sementes de Paz A colheita: Identificação com Deus.

Se você atentar bem, elas obedecem a uma espécie de ordem, onde uma  favorece o exercício da outra, cumprindo uma interdependência. A humildade implica em arrependimento, reconhecer-se pecador; o efeito inevitável é lágrimas do despojamento que esse “descer” de si mesmo causa. Abre-se espaço para  uma nova forma de ser e reagir ante os desafios da vida: mansidão. E aqui a identificação com o Senhor Jesus começa a alçar vôo (“Aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração”). A vida agora quer alimentar-se de outros insumos: justiça, retidão. Inevitavelmente a misericórdia se torna a  nova ferramenta nesse processo. Uma vida cujas sementes têm esse caráter, já está separada do todo no seu devir: santifica-se, como quem limpa o coração, e tudo o que dela advém se revela fruto de paz.

Veja bem: nenhuma semente destas, uma vez lançada, deixará de dar o fruto que a ela se segue, na colheita, porque Aquele que prometeu é fiel para cumprir.

Mas vale também lembrar que cada um de nós traz sementes próprias de nossa natureza adâmica: ira, maledicência, egoísmo, cobiça, infidelidade, injustiça,  e uma lista interminável delas, que uma a uma, se não destruída, cairá no solo e brotará, com certeza. E então, mais uma vez cabe lembrar a exortação: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá. Quem semeia para a sua carne da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito do Espírito colherá a vida eterna.” Gálatas 6: 7 e 8.

Olhai os Lírios do Campo

A frase, extraída de uma antiga tradução da Bíblia em português, foi cunhada por Érico Veríssimo, como título de seu mais famoso romance lançado em 1938. Ela foi originalmente ditada pelo Senhor Jesus, como encontramos em Mateus 6:28. Em versões mais atualizadas, como a NVI, foi impressa na forma: “…Vejam como crescem os lírios do campo…”, conotando exclamação exortativa, onde o Filho de Deus assevera que o cuidado do Pai Celestial, em Seu fino labor ao criar e preservar os lírios, se agiganta a favor dos que nEle confiam, capaz assim de prover roupa, cobertura, que pode superar à de Salomão, feita à força do poder de sua riqueza.

Embora num primeiro momento, dentro do contexto do discurso registrado em Mateus 6, procuremos na exortação apenas o conforto da promessa que nos assegura cuidado divino, há muito mais que isso na proposta, daí ela assumir caráter exortativo. Até mesmo por conta da comparação entre o lírio e o vestuário do rei Salomão, onde Jesus sobrepõe aquele a este, a temática é a exortação contra a ansiedade, que a complexidade da vida, como engendrada pelos  homens, produz. Outro tanto, exorta à simplicidade onde reside descanso e  beleza. Veríssimo captou esta mensagem e desenvolveu seu romance em torno da vida de seu personagem que se perdeu nesse caminho, perdeu o sentido de simplicidade da vida, e perdeu-se na trama de suas  complexidades  ditadas à força de cobiça e vaidade, os dois grandes inimigos da simplicidade e outro tanto fomentadores da sobrecarga existencial.

Sei de uma coisa: Hoje esta exortação imprescindível do Filho de Deus enfrenta resistência férrea, a começar pelo fato de que os que vivem ansiosos pelas sobrecargas existenciais em torno das quais projetaram e procuraram desenvolver seu devir, não têm espaço cronológico para a contemplação, e tanto menos  espaço geográfico para a observação, porque lhes faltam campos e outro tanto os lírios.

Pela graça de Deus estou no extremo oposto. Habito num cenário que convida à contemplação. Quando as pressões da mídia consumista através de seus sedutores tentáculos começam a pretender me dizer que “tenho de ter” e que é indispensável “adquirir”; quando o contexto social começa infectar ditando que as grifes ditam os valores, posso olhar os lírios do campo, e me vejo neles, porque no meu contexto, eles florescem à beira de rios, em pequenos brejos.

Despontam alvinitentes em meio ao lodaçal. Sobem em direção ao sol e projetam seus cálices transbordantes de atraente perfume, muito acima do lodo e degradação. Então vejo sua beleza natural, não forjada por homens (sem grife), espontânea e gratuita. E lembro que o Filho de Deus me disse: “O Pai os fez e deles cuida. Você importa mais que eles, e Ele não faz menos a seu favor”.

A simplicidade da vida não tem preço. A sua complexidade, caminhos inventados, tem beleza fútil, cara demais, em alguns casos pagável a custo de altas dívidas, e que por fim cobra a conta final do desprazer e do “correr atrás do vento”.

Filhos de Deus, olhem os lírios no campo! Deixem que Deus os use para falar aos seus sobrecarregados corações. Saiam do asfalto. Pisem no chão de terra. Vivam! Como servos, sem pretensão de ser reis.

Ressurreição

Falamos coisas espirituais com os espirituais” – I Coríntios 2:13.

A magna esperança da fé cristã está sendo celebrada. De longe é a mais extraordinária bênção que marcou o cristianismo bíblico como a mais intensa, apaixonante e revolucionária experiência espiritual na história da humanidade. Nenhuma outra confissão ou proposta de comunicação transcendental  se compara a ela. Mas nem mesmo cristãos professos, em sua maioria, têm noção exata da glória desta doutrina e das implicações desta proposta. Até mesmo em funerais, ou lápides de cemitérios cujas sepulturas trazem como epitáfio o  versículo da promessa tal como Jesus a anunciou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” conseguem abarcar a dimensão de sua proposta. Geralmente os enlutados a ouvem como o resumo de que aquele seu morto não ficará morto para sempre. Ora, para boa parcela da cristandade, saber que seu morto crente está vivendo na presença de Deus, é um fato tal que a promessa da ressurreição parece perder sentido.

Lembremos o poder da ressurreição no seu efeito sobre a Igreja em seu nascedouro: os discípulos, depois que Jesus morreu, esconderam-se com medo dos judeus. Quem eram eles? Aqueles que haviam privado com Jesus mais de  três anos, sendo testemunhas e veículos de milagres em proporções e abundância incontáveis (João 21:25). Foram milagres impactantes, e todos cobertos pelo ensino do Senhor de viva voz. Morto Jesus, escondem-se aterrados. E eis que o Senhor redivivo manifesta-Se entre eles, e passa com eles 40 dias conversando, convivendo, comendo e ensinando, e até operando milagre de novo, como havia feito nos últimos três anos e meio. E Jesus Se despede deles, e eles de fato, finalmente ficam sem Sua presença física. Mas, revestidos do poder do Espírito de Deus, são imbuídos de uma ousadia que contrasta com o medo vivido há 50 dias passados, e dali em diante correm mundo testemunhando da ressurreição, ao custo de seu próprio sangue. Quarenta dias do Senhor Ressurreto, deram-lhes a convicção e paixão, que mais de três anos de milagres não conseguiram operar. E o poder da ressurreição veio consolidar tudo o que haviam aprendido com Ele naqueles três anos anteriores.

Mas e a força desta promessa?

Quando Adão caiu em pecado de desobediência, ganhou uma natureza condenada por Deus à morte, que Sua justiça santa impôs, tal como Ele antes advertira, e Adão transferiu essa natureza pecaminosa e seu consequente castigo de mortalidade a toda sua descendência. Os filhos de Adão adquirem um corpo que morre. Mas o juízo divino sobre o pecado não implicou apenas na morte  física, também na morte espiritual, que se traduziu por banimento eterno da presença de Deus. De forma que a equação formada ficava assim: a morte física separava o homem de sua vida na história, em sociedade, morto para os outros homens; a morte espiritual separava esse homem morto no corpo, de Deus.

Quando Jesus veio como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele matou com Sua morte na cruz, a morte adâmica, porque Sua morte de entrega voluntária em lugar de todos, diante de Deus e para Deus, satisfez a justiça divina e assumiu sobre Si a ira de Deus e o juízo consequente sobre os filhos de Adão. Jesus morria na cruz como o Último Adão (I Coríntios 15:45), o último a morrer a morte espiritual, o banimento eterno. E ressuscita três dias depois dessa morte, levantando-Se da sepultura como o Segundo Homem (I Coríntios 15:47), ou seja,  o cabeça de uma nova raça, a raça dos filhos de Deus que não morreriam mais eternamente. Todavia, esses filhos de Deus, ou seja, os que passavam a crer em Cristo, o Filho Unigênito e aceitavam seu sacrifício e sua justiça dele decorrente, pela fé nEle, em seu lugar diante do justo Deus, continuam habitando no corpo condenado a morrer em Adão. O espírito fica vivificado, mas o corpo continua mortal. A morte de Cristo garantiu a cessação da morte espiritual, mas, e quanto ao triunfo da morte física sobre a vida, fazendo cessar a história pessoal e o convívio entre seus pares? A ressurreição de Jesus veio confirmar a promessa de Deus da vitória sobre a morte, de forma que a ressurreição se tornou a solução do problema da morte do corpo adâmico. Paulo explica que todos nós aguardamos a redenção de nosso corpo (Romanos 8:23), como Jesus viveu a Sua própria. A ressurreição, em forma de promessa, foi confirmada na ressurreição do Filho de Deus, a “primícia” dentre os que dormem, para garantir que o corpo que foi semeado em carne e pecado, ressuscitará em glória e poder, reassumindo seu lugar no convívio entre seus pares; reassumindo o espaço do qual a morte o roubou. Evidente que esse corpo glorificado, necessita de um lugar apropriado para nele habitar, uma vez que o espaço adâmico foi com ele condenado à destruição. Esse novo lugar, a Palavra de Deus chama de Paraíso, e Pedro o descreve como sendo “os novos céus e a nova terra, nos quais habita a justiça” não mais deterioráveis, nem mais perecíveis, mas eternos, na presença de Deus, cujo sangue de Cristo nos garantiu, a vivermos e esperarmos pela fé. Eis por que  o Filho de Deus  assumiu:  “Quem  crê  em  mim,  ainda  que  esteja  morto,  viverá” (João 11:25). Aleluia!

Metamorfose

Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade.”    – Efésios 4:22-24.

Há pouco tempo estive ministrando em uma igreja aqui no interior, formada por irmãos muito queridos e espiritualmente zelosos. Encontrei no seu boletim uma citação atribuída a John Wesley, fundador do movimento de santidade na Inglaterra do século XVIII que influenciou poderosamente a igreja cristã no mundo inteiro. Disse Wesley: “A conversão tira o cristão do mundo e a santificação tira o mundo do cristão”.

Nada mais verdadeiro.

A doutrina da santificação perdeu lugar na experiência da práxis evangélica em nossa geração, de forma quase generalizada. O limiar que separa o crente do mundo ficou tão invisível quanto a insensibilidade a ele o tornou imperceptível, mesmo ausente. A mensagem da santificação converteu-se numa ideologia do fracasso ou passou a ser vista como religiosidade, legalismo ou estoicismo, na melhor das hipóteses. Para escapar de sua realidade missiológica, pretendeu-se que ela é ato interior operado pelo Espírito Santo no momento da conversão e que não se traduz em formas, ações ou comportamentos. Com isso criou-se uma conveniente filosofia que rapidamente tomou dimensão generalizada de conceito, onde santificação ficou reduzida à prática de serviços cúlticos, como ir à igreja, ler Bíblia, orar. Tais práticas piedosas seriam a resposta humana ao compromisso com a santidade pessoal. E como ainda há os que traduzem santidade por observações legalistas no terreno do “é proibido”, tão repulsivo e carnal quanto seu oposto que é o liberalismo com nuances de libertinagem, quanto mais distante de critérios e renúncias pessoais estiver o crente, melhor lhe parecerá.

Todavia uma clara distinção existe entre ser crente e ser mundano. E o fiel da balança que vai distinguir o compromisso e comportamento entre uma maneira e outra de ser, é a consciência de temor de Deus no coração. Pois à medida que cresce nosso conhecimento da santidade divina e dEle mais nos aproximamos, mais tementes a Ele nos tornamos e mais distantes do mundo com seus modismos, apelativos, comportamentos, filosofias, compromissos e sentimentos, ficamos.

Santificação é uma resposta consciente do crente ao que foi feito nele por Deus, em direção contrária ao mundo e seus valores, no qual ele vivia; e a favor do Reino de Deus, na proporção de inimizade com um, e amizade com o outro; de forma que santificar-se, expressão tantas vezes repetida na Palavra de Deus, torna-se a nossa medida pessoal de separação que tem parâmetro na Revelação divina, e uma vez pessoal, não pode nem deve servir para mensurar a forma alheia de viver. Por se tratar de uma consciência de temor a Deus, torna-se nosso culto pessoal de reverência a Ele. E o temor vem, na mesma medida em que entendemos a clara linguagem que diz: “Aquele que se faz amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus”, que é o correto entendimento sobre o texto de Tiago 4:4 e II Coríntios 1:12, que diz: “Este é o nosso orgulho: A nossa consciência dá testemunho de que nos temos conduzido no mundo, especialmente em nosso relacionamento com vocês, com santidade e sinceridade provenientes de Deus, não de acordo com a sabedoria do mundo, mas de acordo com a graça de Deus.”

Posto isto, é interessante revendo o texto acima, de Efésios 4: 22 a 24, perceber que o apóstolo ensina que a decisão pessoal e consciente por santificar-nos a nós mesmos, está diretamente ligada à “renovação do nosso entendimento”, expressão de que ele se serve de novo em Romanos 12:2, abordando o mesmo assunto, lugar onde diz que a mudança de forma conta na santificação, com o nome de metamorfose, a forma ultrapassada ou superada pelo crente, quando corre num mundo no qual está inserido. De forma clara ele nos faz saber que santificação é uma resposta racional que damos, positivamente, à mudança de nosso entendimento, ao que vamos aprendendo pela Palavra de Deus e ao agir do Espírito Santo a quem devemos dar espaço, na medida em que crescemos na “graça e conhecimento” de nosso Senhor Jesus Cristo.

Como a própria conversão implica numa mudança de mente, a santificação revela que a mente que dita a forma de ser e viver neste mundo, mudou, ou seja, passou a ser “mente de Cristo” em nós, na linguagem de I Coríntios 2:16.

Santificação implica em ser separado do que é comum a todos os outros. Ser diferente no pensar, sentir e consequentemente no comportar-se. E a Palavra de Deus define essa diferença em termos claros, aqui em Efésios colocados como troca de andrajos por roupas, despir-se e vestir-se, e noutros textos, sem metáfora:  “Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus.” – Gálatas 5:19-21. A lista é grande. Não se trata, no entanto, de conhecer uma lista, mas viver na dimensão do que vai além da lista, que por ser tão grande, Paulo, acrescenta a expressão: “e coisas semelhantes”.

Equivocam-se gravemente aqueles que pretendem que, copiar os valores e formas do mundo dando-lhes um verniz ou ambiência evangélica, do tipo vivenciar tais coisas dentro de um culto, na igreja ou na companhia de crentes, anula seu caráter de inimizade com Deus, tendendo à aprovação divina. Isso é reduzir a mente do Deus três vezes Santo à cabeça de mito religioso.

A santificação pessoal está diretamente ligada à forma como o crente vive sua relação individual com o Espírito Santo de Deus, que depois de dizer que em nós Ele tem ciúmes, adverte-nos quanto a não entristecê-Lo (Efésios 4:30), nem apagá-Lo (I Tessalonicenses 5:19).

Certa vez eu ministrava num Retiro em Campinas e fui interrompido por um irmão que disse: “Ora, pastor. Sou grato a Deus por ter sido chamado como sou. Não fui chamado para ser como Paulo, João, Daví, Pedro ou mesmo Moisés”. Ao que eu lhe respondi: “É fato, irmão. De acordo com Efésios 4:12 e I Pedro 2:21, você foi chamado para ser como Jesus”.

Por último, voltando a Wesley e seu ditado, convém acrescentar que só busca se santificar quem não perdeu a noção bíblica de pecado. Este quer uma forma superior de ser, reagir e viver: metamorfose.

Cristo, e Excelente

Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.” 1 Coríntios 1:24

Nossa ênfase é simples e direta: a excelência de Cristo, o Filho de Deus. Já seria bastante saber que Ele é o Filho de Deus para entendermos sua Excelência. Mas quando a Palavra de Deus declara que Jesus é a sabedoria de Deus, então o conceito se define. Excelente é o que excede, o que está acima de comparação. Nada nem ninguém lhe faz par. Isto significa que, somente enfileiram Jesus a outros nomes, aqueles que Dele pouco ou nada sabem. Ninguém pode ser pareado ao Filho de Deus. Seguir a Jesus é andar pelo caminho da excelência.

A Palavra de Deus reforça isso com várias expressões. Dentre elas, destaco Efésios 1:22 – “Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja”, que por sua vez se dilata diante do argumento de Colossenses 2:3, quando diz: “Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.”

É então que ao olharmos as características da sabedoria tais como descritas em Provérbios 4 e 8, percebemos o significado da excelência do Filho de Deus: “O conselho da sabedoria é: Procure obter sabedoria; use tudo o que você possui para adquirir entendimento. Dedique alta estima à sabedoria, e ela o exaltará; abrace-a, e ela o honrará.” – Provérbios 4:7-8. “Pois a sabedoria é mais preciosa do que rubis; nada do que vocês possam desejar compara-se a ela. Amo os que me amam, e quem me procura me encontra. Comigo estão riquezas e honra, prosperidade e justiça duradouras. Meu fruto é melhor do que o ouro, do que o ouro puro; o que ofereço é superior à prata escolhida. Pois todo aquele que me encontra, encontra a vida e recebe o favor do Senhor.”- Provérbios 8:11,17-19,35.

Cabe, pois, uma questão: de forma prática, em que importa à minha fé, saber que o Cristo a Quem sirvo e adoro é excelente? Ele não é um ídolo coberto de ouro que eu contemplo. Ele é excelente por Quem e pelo que é.

É então que uma parábola por Ele mesmo proposta, alusiva ao valor do Reino dos céus, quando revista aplicada a Si, nos faz entender como devemos reagir por fé à consciência de sua excelência: “O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.” – Mateus 13:44-46.

O texto da sabedoria em Provérbios 8 nos fala dessa necessidade de exclusão e renúncia pessoal para dar lugar à preciosidade maior. E porque Ele é excelente:

  1. Sublima nossos sonhos, nossas dores, nossas paixões, dissabores, conquistas temporais.
  2. Inspira avançar, conquistar, esperar.
  3. Arrebata a visão e provoca paixão.
  4. Atrai à busca por pertencimento e semelhança.
  5. Provoca reverência, admiração e adoração.
  6. Recebe primazia sobre afetos, o primeiro amor.

Tudo isso implica num movimento em direção a Quem Ele é, não ao que Ele pode fazer. Quem O busca somente pelo que Ele faz, ainda não entendeu nada sobre Quem Ele é: quão excelente.

Soberania e Obediência

Não compete a vocês saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade…” – Atos 1:7

Há uma explícita tensão entre autoridade divina e obediência humana. A autoridade divina está inerentemente ligada à soberania, e a obediência humana, que é uma resposta consciente, ao espírito servil ou submisso da vontade humana a essa autoridade soberana.

A tensão, que em casos singulares assume o caráter de conflito, reside mais no fato de que a obediência tem a tendência de questionar, de pretender entender antes de atender, porque este é um movimento inevitável de necessidade de controle que o ser humano tem. No entanto, se há controle, não há obediência, porque a soberania prescinde do controle, quando se trata de Deus.

E isso pode ser atestado em textos bíblicos como Jó 42:2 – “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos Teus planos pode ser frustrado”, ou Romanos 9:19 – “…Pois quem resiste à Sua vontade?”. Podemos ainda acrescentar Salmo 115:3, entre tantos outros mais: “No céu está o nosso Deus e tudo faz como Lhe agrada”(ARA).

À vista destes textos, alguns assumem que a vontade de Deus é irresistível e que por fim prevalece à revelia da resistência humana, mas os fatos bíblicos históricos e seus apelativos à obediência por fé, provam que a vontade humana precisa capitular conscientemente à vontade divina para que esta se cumpra. Tanto o Israel antigo nos prova isso, e os 40 anos de sua peregrinação pelo deserto a caminho de Canaã são o veredito final, quanto nos deparamos com apelos do nível de Hebreus 3:15 – “Se hoje vocês ouvirem a Sua Voz, não endureçam o coração, como na rebelião”. Ou Atos 7:51 – “Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo”.

Ao que parece, a vontade humana oferece resistência, porque alimentando a necessidade de controle está o enfraquecimento da fé. A soberana vontade de Deus (que Paulo postulou como boa, agradável e perfeita) não investe em sinalizadores que bloqueiam a capacidade de crer e depender, uma vez que dando visibilidade à fé, inibem ou anulam o processo de construção da esperança, no qual Deus investe sempre, porque “esperamos o que não vemos” e isto é um atestado de investimento nosso em confiança no caráter divino. Creio que é onde também entra a máxima do profeta Samuel: “Obedecer é melhor que sacrificar”.

O próprio Senhor Jesus deixou clara Sua rendição consciente à vontade de Deus Pai, quando orou dizendo: “Se não for possível que este cálice passe de mim sem que eu o beba, seja feita a Tua, e não a minha vontade”. E isso depois de afirmar, semelhantemente a Jó: “Tudo Te é possível!”. Outro tanto Hebreus registra que Ele, Jesus, “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”.

Sempre haverá essa tensão: a vontade de Deus precisa e deve ser cumprida, pois atende a um propósito elaborado na eternidade que envolve a nossa vida. Cumprir-se-á, se obedecida. Foi tudo quanto nos ensinou o Senhor: “…seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”. Isto prescinde de sinais e garantias. É rendição e confiança.

Chamado e Resposta

Quando andavam pelo caminho, um homem lhe disse: “Eu te seguirei por onde quer que fores”. Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. A outro disse: “Siga-me”. Mas o homem respondeu: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai”. Jesus lhe disse: “Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos; você, porém, vá e proclame o Reino de Deus”. Ainda outro disse: “Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e despedir-me da minha família”. Jesus respondeu: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. Lucas 9:57-62

Há um paralelo doutrinário entre este texto acima e o texto de Romanos 1:1-7 onde Paulo nos aponta o fato de que somos cristãos a partir de um chamado divino, pessoal. Nele podemos identificar que além de um chamado específico, visto na pessoa do apóstolo, há um chamado geral que alcança todos nós, e que tem desdobramentos interdependentes, onde se pode alinhavar: Chamado para obedecer pela fé; Chamado para pertencer a Jesus; Chamado para ser santo. Textualmente. Vejamos o texto referido: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, o qual foi prometido por ele de antemão por meio dos seus profetas nas Escrituras Sagradas, acerca de seu Filho, que, como homem, era descendente de Davi, e que mediante o Espírito de santidade foi declarado Filho de Deus com poder, pela sua ressurreição dentre os mortos: Jesus Cristo, nosso Senhor. Por meio dele e por causa do seu nome, recebemos graça e apostolado para chamar dentre todas as nações um povo para a obediência que vem pela fé. E vocês também estão entre os chamados para pertencerem a Jesus Cristo. A todos os que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos: A vocês, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.”

O chamado é fato. Tem seu ponto de partida em Cristo e através Dele.

As respostas podem variar, e ao variarem denunciam um mesmo obstáculo: “primeiro meu interesse, com nome de minha necessidade”. É o que se percebe de forma clara nas respostas de cada um dos três homens citados em Lucas, nesse momento de encontro com Jesus.

1- A oferta temerária  –  Porque não registra consciência de realidade, por ficar comprometida com o entusiasmo. E assim se mostra vazia para a vida de fé. É o que revela a fala desse primeiro interlocutor: “Eu te seguirei por onde quer que fores”. Depois, no segundo, aquele a quem Jesus chama diretamente, temos:

2- A resposta avaliadora – Vista naquela que não abre espaço para a especificidade: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai” É vazia para sujeitar-se ao senhorio de Cristo. E no terceiro, o outro que se apressa a se declarar seguidor temos:

3- A resposta inapta – Porque é aquela que não prioriza para o Reino, não se separa (santificação): “Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e despedir-me da minha família”. Não faz a inevitável ruptura proposta aos chamados como foi tipificada no primeiro que foi chamado por Deus a viver para Ele: Abraão.

Qual resposta define o chamado que temos recebido?

A Porta dos Céus

Jacó partiu de Berseba e foi para Harã. Chegando a determinado lugar, parou para pernoitar, porque o sol já se havia posto. Tomando uma das pedras dali, usou-a como travesseiro e deitou-se. E teve um sonho no qual viu uma escada apoiada na terra; o seu topo alcançava os céus, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Ao lado dele estava o Senhor, que lhe disse: “Eu sou o Senhor, o Deus de seu pai Abraão e o Deus de Isaque. Darei a você e a seus descendentes a terra na qual você está deitado. Seus descendentes serão como o pó da terra, e se espalharão para o Oeste e para o Leste, para o Norte e para o Sul. Todos os povos da terra serão abençoados por meio de você e da sua descendência. Estou com você e cuidarei de você, aonde quer que vá; e eu o trarei de volta a esta terra. Não o deixarei enquanto não fizer o que lhe prometi”. Quando Jacó acordou do sono, disse: “Sem dúvida o Senhor está neste lugar, mas eu não sabia!” Teve medo e disse: “Temível é este lugar! Não é outro, senão a casa de Deus; esta é a porta dos céus”.” – Gênesis 28:10-17

Não posso ler esta solene e histórica declaração de Jacó sem pensar na afirmação de Hebreus 3:6 quando diz que nós é que somos a casa de Deus.
A declaração de Hebreus é mais que solene. Não tivesse o poder profético de Palavra de Deus, eu diria que ela é ousada ou mesmo pretensiosa, ao afirmar que os crentes são casa de Deus. Mas não se trata de ousadia ou pretensão. A Igreja é o Corpo de Cristo, e somos declarados templo no qual Deus habita em Espírito, cada um de nós. Isso nos estabelece de fato como casa de Deus.

A ideia de pretensão surge quando associamos a essa metáfora a declaração de Jacó, que aqui entra como uma definição da casa de Deus, que nos alcança e compromete como igreja, pessoas cristãs, de forma direta e irretocável.

A experiência de Jacó se resume num sonho profético do qual Deus Se serviu para Se comunicar com ele. E foi quanto bastou para Jacó concluir
que aquele lugar equivalia para ele como a casa de Deus. A declaração era a capitulação dos sentidos a uma lógica: “se Deus está aqui e aqui Se manifesta, fala e toma decisões, então este lugar é a casa de Deus”. Também porque ali ele pôde ver anjos em intenso movimento, indo e vindo. Outro tanto havia essa visão de escada que servia de estrada aos anjos, no percurso entre a terra e o céu. Tudo era de fato sobrenatural, ou sobre- humano. Mais que a visão, no entanto, foi a palavra-promessa de Deus que deu a Jacó o êxtase ou ápice da bênção.

Mas, no que isso nos importa?

No tanto quanto a conclusão de Jacó significa. O que nos leva a uma questão: o que fez com que Jacó concluísse que a casa de Deus lhe era por porta dos céus? Mais que isso. Se a casa de Deus pode ser tida por porta dos céus, por conseguinte nós devemos também ocupar tamanho status? Teria Deus tal propósito quando decidiu que os que creem no Seu Filho sejam reputados por casa de Deus?

É então que devemos observar o que acontecia ali para levar Jacó a chegar a tal comparação conclusiva.

1- Presença perceptível de Deus ali “O Senhor está neste lugar”. Quanta diferença faz! Como muda tudo!
Não fala de coisas alusivas a Deus. Evidencia Sua presença.

E por conseguinte:

2- A Voz divina se faz ouvir
“Ao lado dele estava o Senhor que lhe disse…”

E de que fala essa voz?
Traz promessa de segurança; proteção divina; fidelidade divina.
Edifica, exorta e consola. É um novo idioma, porque há novo conteúdo.

3- Há algo sobre-humano ali
Anjos que sobem e descem. Isto nos lembra Hebreus 1:14 e Salmo 91:11.

Escada da terra ao céu (acessibilidade). Um intercurso entre o terreno e o celestial, entre o humano e o divino.

Seria natural pensar que a conclusão de Jacó fosse que aquele lugar era casa de Deus e pronto. Mas ele viu mais que isso. Viu ali uma porta do céu, uma vitrine, antevisão de coisas celestiais.
Se nós somos a casa de Deus, percebe quanto estamos comprometidos em sermos essas vias pelas quais os que nos contatam possam concluir de igual maneira? Como você se vê nessa visão?

Maças de Ouro de Jeremias (7)

Se você voltar, ó Israel, volte para mim”, diz o Senhor.” – Jeremias 4:1.

O verbo empregado neste oráculo de Jeremias, no hebraico, tem a força de nosso verbo converter. E este é exatamente o sentido pretendido por Deus ao comunicar o apelo através do Seu servo.

Ele está falando com Seu povo, os filhos de Abraão, que à semelhança de muitos de nós, crentes, se sentiam seguros em sua herança espiritual, de tal forma a perder a noção de fragilidade no campo da fidelidade e da confissão que deve se manifestar com frutos.

De certa forma seguimos, via de regra, nossos próprios caminhos, por mais que os cubramos com nossas orações, e acabamos descobrindo que muitas vezes andamos nos descaminhos que nos afastam do propósito de Deus para nossa vida no seu todo, através da soma de seus cotidianos.

E é quando o apelo deve nos alcançar e a atenção devida a ele se faz pertinente.

Outro tanto, como é importante perceber de quanto afeto divino ele se reveste! Porque o Senhor a um só tempo nos fala de Seu desejo de ter-nos junto a Si, quanto aponta para o fato de que Se preocupa com nossos distanciamentos. Na verdade, todo movimento que não nos aproxima Dele, invariavelmente Dele nos afasta. E ele sabe que nossos próprios caminhos, preciosos a nossos olhos, redundam em mortes variadas que entremeiam nossa jornada. Ele o disse em Sua palavra: “Há caminhos que ao homem parecem ser bons, mas o seu final são caminhos de morte”. E longe dEle morrem os sonhos e as conquistas.

Tanto Jesus disse: “Sem mim vocês nada podem fazer”, quanto com sabedoria Davi concluiu em sua caminhada com Deus: “Com meu Deus, saltarei muralhas”. A nota de sabedoria entoa: “Com meu Deus”. E por aí, o apelo em Jeremias se realça no significado de “junto a Mim”, daí, “volte para mim”.

Importante ainda salientar que “com Deus e para Deus”, está longe de significar cobrir com oração petitória o plano que se traça para viver, como quem passa informações ao Senhor do que pretende realizar ou deseja alcançar. Voltar-se para Ele detém o sentido essencial de avaliar se nosso caminho corre em Sua direção e nos leva a Ele em todos os seus percursos.

O ano se inicia. Excelente oportunidade para assumirmos, como crentes em
Cristo, vivermos inclinados a voltar-nos para Ele em cada um dos seus muitos dias.

A Partilha Que Multiplica

Marcos 6: 30-44

Há movimentos emblemáticos neste milagre que vem relatado nos quatro evangelhos, e tais movimentos falam da natureza, do espírito que caracteriza a manifestação do Reino de Deus na vida dos que vivem em função dele.

Vejamos alguns pontos relevantes que a leitura geral feita nas quatro narrativas aponta:

1- O milagre se deu num lugar deserto nas cercanias de Betsaida, cujo nome significa: “casa de misericórdia.” Por sua vez, este milagre é fruto de misericórdia, e por certo se registrou na memória de seus beneficiados como transformando aquele espaço desértico num lugar de exercício de misericórdia – Lucas 9:10.

2- Marcos e Lucas posicionam o milagre como ocorrendo logo após o retorno dos Doze em sua primeira missão ao campo. Então ele entra como ratificação da missão da Igreja em repartir o que tem e o que leva, gerando um multiplicador inevitável.

3- Filipe é o homem a quem Jesus provoca, ou prova, e que informa terem apenas 200 dinheiros, insuficientes para comprar pão para tanta gente (João 6:7).

4- André é o homem que traz a oferta humílima de 5 pães e dois peixes, merenda de um rapaz que entre o povo estava.

5- O povo foi ordenado em ranchos sobre a relva, à espera do milagre. Imagino que se assentaram por opção de afinidades, como os ranchos em que a Igreja visível de Cristo se ajunta no mundo todo.

Então, coisas acontecem, e são sobrenaturais. Tudo, a partir de uma entrega que originalmente era:

– Insuficiente em si mesma;

– O tudo do ofertante;

– Dada a um, a favor de todos, e recebida pelo Senhor, em Suas  mãos. E essa entrega, que passando por André chega às mãos do Senhor, parece cumprir literalmente outra funcionalidade da Igreja, como preconizada por Jesus: “Quando o fizeste a um desses pequeninos, a mim o fizeste”.

E a natureza do milagre:

  • Começou por um dividir, um repartir (Marcos 6: 41);
  • Os que recebiam sua parte, serviam aos demais (6:41);
  • E as divisões continuavam. Ou seja, diminuía para multiplicar. O programa era dividir. O resultado foi multiplicação.

E o mais importante: Esse milagre teve origem, começo em Jesus, mas continuou e aconteceu pela e com a participação de cada um, de forma que todos foram por sua vez instrumentos da realização do milagre. Eis a Igreja aí!

O efeito final atingiu o objetivo: satisfação (6:42).

E houve abundância de sobra para quem repartiu primeiro.

Fé: Esperança Ou Desespero?

Para que serve a fé? Ou ter fé? A Palavra de Deus afirma que a fé é um recurso (fenômeno) dado por Deus. Qualquer coisa que pretenda ser ferramenta para o transcendentalismo sem ser essa dádiva divina, o mais que consegue atingir é o status de mentalização, porque a fé não é nem alguma forma de energia psíquica nem mero derivativo do racional humano como filosofias e equivalentes. A fé é um construto inerentemente espiritual, tal como a esperança, que a alimenta.

Por sua vez, da mesma maneira como o ser humano almeja perpetuidade, porque o anseio pela eternidade foi posto por Deus dentro dele (Eclesiastes 3:11), esse anseio gera um substrato de esperança, em função da qual toda a estrutura psíquica da humanidade funciona. Diferentemente de todos os demais seres vivos, nós, humanos, vivemos em função do dia seguinte, e em direção a ele, para dizer o mínimo.

Na dimensão da fé, ela se alimenta da esperança que vai muito além do dia imediato, por contemplar a eternidade com Deus, e assim carreia um número incontável de comportamentos que caracterizam e definem o crente no seu devir.

Mas a esperança que se serve da fé, não corre somente na direção de coisas, e sim na direção da Pessoa de Deus. Esperamos, não “no que” e sim, “em Quem”.

Por conta disso, bem biblicamente assentada numa confissão teísta, e lançando para o nada os argumentos deístas, que são inócuos, pois o melhor que podem propor ao crente é o desespero quando lhe pretendem fazer crer que ele está por sua conta neste mundo, a fé enxerga a promessa e se serve dela quando a lê em suas máximas escriturísticas, tais como estas:

“(Jesus)…está sustentando todas as coisas pela Palavra do Seu poder” – Hebreus 1:3.

“Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá” –  Salmos 37:5

“Deus é quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” – Filipenses 2:13

“Depositei toda a minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro.”- Salmos 40:1-2.

“Senhor, concede-nos a paz, porque todas as nossas obras tu as fazes por nós.”- Isaías 26:12.

“Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” – Hebreus 4:16

“Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.” – 1 Pedro 5:7

 “Pois quem resiste à sua vontade?”- Romanos 9:19

“Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês’, diz o Senhor, ‘planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro.” – Jeremias 29:11

Podemos acrescentar todo o salmo 23, que investe no contínuo fazer do Supremo Pastor a favor de Suas ovelhas.

Se o coração do crente não estiver guarnecido dessa fé que vê no Deus Eterno o Pai, no trato pessoal e direto com cada um de Seus filhos, o máximo que esse coração vai abrigar é um pensamento elevado para uma forma mais equilibrada de vida, semelhante às filosofias orientais e conceitos de auto-ajuda, mas longe de ser aquela fé bíblica, definida em Hebreus 11:1 como “…a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” e que adora um Deus pessoal.

Glória a Deus pela fé que aproxima dEle o crente, para confessar em oração e forma de viver, sua completa dependência diante dAquele perante Quem ninguém é autossuficiente.

Vale orar, como o fizeram os discípulos: “Senhor, aumenta-nos a fé” – Lucas 17:5.

Maças de Ouro de Jeremias (6 e 7)

“Clame a mim e eu responderei e direi a você coisas grandiosas e insondáveis que você não conhece”. – Jeremias 33:3

É indissociável, infelizmente, em nossa experiência cristã, a idéia de clamar a Deus, como sendo um monólogo. Há um apelo evidente e eloquente neste oráculo de Jeremias, feito pelo Deus Eterno ao Seu povo, que recalca e investe de forma incisiva o sentido de orar, como sendo uma conversa, onde minimamente duas pessoas são ouvintes mútuos. O que fica aquém disso, corre pelo limiar da reza, que distancia tanto quem fala quanto o ouvinte pressuposto.

O oráculo-convite acima, é um compromisso-promessa que Deus nos faz. Ele corre pela via de um lamento divino sobre o Seu povo que perpassa séculos. A experiência de orar ao Deus vivo é tão rara, e torna-se cada vez mais rara dentre os exercícios de uma espiritualidade eficaz, que em alguns grupos parece completamente inexistente.

A predominância do vazio na oração é de tal ordem, que a maioria desiste de orar porque tem na oração apenas um monólogo onde a ênfase não alça vôo para além da petição, pura e simplesmente. Outros, têm a pretensão de colocar palavras na boca de Deus, para encobrir o silêncio que calca o monólogo como tal.

Mas, atentemos à promessa: os verbos são convincentes: “eu responderei”; “eu direi a você”! Gosto de atentar ao fato de que Deus não Se serviu do verbo ouvir, que está fora de qualquer dúvida para quem ora. É fato estabelecido, consumado e atestado pela fé que “uma vez por todas foi dada aos santos”. Se duvidássemos de que Deus ouve a oração, não oraríamos sequer o tão pouco que fazemos. Outro tanto a questão da oração que é feita sobre a convicção de que Deus está ouvindo não pode ser medida por tempo ou tamanho. Antes, somos alertados quanto à sua intensidade, em I Tessalonicenses 5:17 – “Orem sem cessar”. É como respirar. Que Ele ouve, não duvidam os que O buscam em oração.

A promessa aponta para a resposta, que quebra o vínculo do monólogo. No entanto, raro é o crente que pode atestar com seriedade que tem ouvido a voz divina respondendo sua conversa com Ele. E aqui está o ponto em questão. Partimos para a celebração da disciplina da oração unicamente pretendendo informar a Deus de coisas, ou pedir-Lhe meios para resolvê-las. A oração que pretende ouvir Deus requer essa prontidão espiritual, solene, santa (porque investe numa separação específica) e não tem a pretensão de vigiar fenômenos pelos quais Deus daria respostas. A oração que quer ouvir Deus é diferente daquela que passa informações a Ele. Ela está comprometida com o exercício da comunhão, do intimismo. Pretende buscar Sua presença, usufruir Sua proximidade. Atende ao que disse o autor de Hebreus: “É necessário que aquele que se aproxima de Deus…” (Hebreus 11:6), porque seu propósito é proximidade, antes de ser busca por soluções.

Se Deus disse que quer responder, Ele o faz! Mas vivemos o tempo que milita contra a contemplação, contra o separar tempo para Aquele que ouve em secreto e que está invisível. Não há como Deus concorrer com nossa agenda tão abarrotada de programas, trabalho e diversões. Entendemos que viver se resume nisso, e dentro dessa agenda “separamos” um espaço para o que decidimos que é o tempo de buscar a Deus: nossos horários e locais de culto. Outro tanto, trazemos nossos corações e ouvidos tão cheios de ruídos e respostas previamente pretendidas(como disse o apóstolo: “Há muitas vozes no mundo…”), que torna inócua qualquer fraca tentativa de ouvi-Lo em oração. E nessa trilha de erros, prevaricam muito mais aqueles que terceirizam ou se deixam terceirizar como os porta-vozes divinos para os que querem achar respostas divinas para seus conteúdos ocultos, e assim acabam enveredando por vias de sincretismo ocultista.

Quando queremos ouvir Deus, Ele “responde” e “diz”. Tanto o Senhor lamentou o não ser ouvido, em Salmo 81:8 – “Ah, Israel, se me escutasses!…”; quanto o Senhor Jesus disse que batia à porta da igreja esperando ser por ela ouvido (Apocalipse 3:20). Que O ouvimos na Sua Palavra é fato consumado. Mas a ênfase divina em Jeremias aponta ouvi-Lo na oração; quando em oração. Pressupõe um momento entre duas pessoas, somente.

Não nos cabe decidir forma e meios para a réplica divina à nossa conversa com Ele. Ele dispõe de quantos nos bastem para que saibamos ser aquela, a voz divina que, inconfundível, interage com nossa fé e nos responde, guia, exorta, consola, convoca, anima e produz descanso ao coração que se apercebe acompanhado por Quem é Eterno. Creio, pessoalmente, que Deus sempre tem, como disse em Jeremias, coisas muito particulares, muito pessoais a dizer a cada um(a) de nós, que se disponha a ouvir.  E dispor-se a ouvi-Lo, demanda decisão que envolve separação específica.

E isto nos leva a um outro oráculo de Jeremias, mais uma de suas preciosas maçãs: “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês’, diz o Senhor, ‘planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro. Então vocês clamarão a mim, virão orar a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração.” –  Jeremias 29:11-13.

Vale lembrar o apelo vertido em Isaías 55:6 – “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto.”